Quantas vidas tem Jorge Jesus?

Cumprem-se dois anos desde que o técnico chegou a Alvalade. A um ano de quase sucesso, seguiu-se outro de enorme fracasso.

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Jorge Jesus já garantiu alguns reforços para a próxima temporada bruno lisita

A 5 de Junho de 2015, fez ontem dois anos, o Sporting informou à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) ter chegado a acordo com Jorge Jesus para “a celebração de um contrato de trabalho desportivo como treinador da sua equipa principal sénior de futebol”. O que estas linhas de informação não diziam era que Bruno de Carvalho não queria esperar mais e, apostando num treinador experiente e ganhador, queria chegar imediatamente ao título. De um crescimento necessariamente lento com Leonardo Jardim e Marco Silva, Jesus era como uma hormona de crescimento para acelerar a chegada ao ponto de maturação, para passar dos bons sinais ao facto consumado.

Passaram dois anos e tudo o que Jesus tem para mostrar em termos de títulos é uma Supertaça no primeiro jogo oficial da primeira época. Os bons sinais apareceram na primeira época e a luta pelo título durou até à última jornada, mas houve um retrocesso na segunda época faz com que o ano três de Jesus em Alvalade seja aquele em que a tolerância com novos fracassos seja reduzida, em que a margem para errar seja quase nula. A mensagem que o clube tem passado é de que a continuidade do próprio presidente pode ser reavaliada se não se atingirem determinados objectivos no futebol .

Publicamente, não está em causa a confiança mútua entre Jesus e Bruno de Carvalho. Ainda antes de a época acabar, falou-se de uma milionária e irrecusável proposta do PSG, que daria ao técnico meios financeiros como nunca teve e que também daria um bom encaixe aos “leões”. Para afastar essa possibilidade, Jesus reafirmou o seu compromisso com o Sporting na televisão do clube, depois de Bruno de Carvalho ter, alguns dias antes, reafirmado a sua confiança nele. “Jorge Jesus foi e é a minha escolha para ser campeão”, escreveu o presidente “leonino” no Facebook (de onde já saiu).

Primeiro ano quase em grande

A primeira época prova que houve, de facto, um crescimento acelerado em relação ao que tinha acontecido nas gestões de Leonardo Jardim e Marco Silva, qualquer um deles um “upgrade” em relação às desastrosas temporadas anteriores. Depois de um segundo e de um terceiro lugares nos dois anos anteriores, mas com diferenças grandes em relação ao Benfica, o Sporting de 2015-16 lutou até à última jornada e chegou ao fim com a melhor época da sua história, fazendo 86 pontos, apenas menos dois que os “encarnados”. “Nunca me vou esquecer que fiz 86 pontos e não fui campeão”, foi uma frase várias vezes repetida pelo treinador da Amadora durante esta época. 

Não foi, de facto campeão, como tinha sido na primeira época na Luz, mas foi um desafiante credível até ao fim, com uma boa alquimia de Jesus entre os que já lá estavam (Adrien, Patrício, João Mário, Slimani) e os novos (Bryan Ruiz, Teo, João Pereira, Coates). E os sportinguistas mal podiam esperar pela época seguinte, aquela em que Jesus iria transformar o Sporting candidato em Sporting campeão. Mas foi um candidato que deixou de o ser muitos meses antes de se chegar a Maio. O impacto das vendas de João Mário e Slimani (para quem a convivência com Jesus foi uma inquestionável mais-valia) foi mal avaliado, tanto não pelos seus substitutos directos (Gelson Martins e Bas Dost, de longe os dois melhores “leões” da temporada), mas porque o plantel não foi bem definido desde o início e só ficou composto demasiado tarde.

Jesus passou meia época a dizer que os reforços não estavam integrados (e alguns nunca chegaram a estar, como Elias, Markovic, André, Castaignos, etc) e, depois, teve de conviver com o emagrecimento do plantel na segunda metade em que os horizontes competitivos eram francamente reduzidos. O Sporting tentou acabar a época com dignidade, ajudar Bas Dost a marcar golos e ir testando soluções para a época seguinte. Pelo menos, para 2017-18, a composição do plantel vai avançando, com as contratações já confirmadas de André Pinto, Piccini e Mattheus, para além dos regressos de Iuri Medeiros e Jonathan Silva – Battaglia deverá ser o próximo.

Outros nomes veiculados já parecem ter o dedo de Jorge Jesus. Fábio Coentrão e Jeremy Mathieu são os “brinquedos caros” que Jesus tanto gosta de ter no seu plantel, jogadores feitos a quem já não precisará de ensinar nada. Mas muito também dependerá de quem fica e o Sporting, mesmo com a época desastrosa que fez, tem activos valiosos que são uma boa base de trabalho, mas que também podem ser “raptados” por emblemas mais endinheirados. E, por melhor que seja a formação “leonina”, nem tudo se resolve com os miúdos “made in” Alcochete.

Numa época que terá necessariamente de começar mais cedo por causa do play-off da Champions, e com tanta gente do plantel envolvida até tarde nas selecções, o planeamento de 2017-18 terá de ficar fechado o mais depressa possível – uma saída de Jesus teria atrasado todo o processo. Assim, Jesus tem mais uma oportunidade de provar que não perdeu o toque e que pode acabar com o segundo maior jejum de títulos da história do Sporting (o último foi em 2001-02) e com o seu próprio jejum de títulos, ele que conquistou três títulos de campeão em seis anos do outro lado da Segunda Circular.

Foram três épocas entre o primeiro título no Benfica e o segundo, sendo que depois do fim traumático dessa terceira época (que acabou sem campeonato, sem Liga Europa e sem Taça de Portugal), Jesus teve a confiança do presidente quando muita gente pedia a sua cabeça. No Sporting, clube onde foi jogador (tal como o pai foi, no tempo dos “cinco violinos”), do qual é o sócio n.º 3289 e com quem tem contrato até 2019, Jesus tem de ir para lá da promessa que fez quando foi apresentado no relvado de Alvalade, o de lutar por títulos. Para o seu terceiro ano talvez não baste ser apenas candidato. O próximo passo tem de ser um título. Se não acontecer, Jesus pode ficar em causa e Bruno de Carvalho também.