Crítica

Rodrigo Guedes de Carvalho: uma melancolia terna e pessimista

A escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho, que revela um profundo conhecimento da Literatura contemporânea, é límpida e ritmada.

Rodrigo Guedes de Carvalho não publicava um romance há dez anos
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Rodrigo Guedes de Carvalho não publicava um romance há dez anos Miguel Madeira/arquivo

Depois de um interregno de dez anos, Rodrigo Guedes de Carvalho publica agora O Pianista de Hotel, um romance poderoso e empolgante que é, essencialmente, uma reflexão profunda sobre a condição humana. A estrutura da trama segue as normas de uma peça musical com tema, refrão, ritmo, melodia e múltiplos intervenientes, cada um com a sua tonalidade própria. Tal como a melódica, que é um instrumento musical, mas também um híbrido, (objecto totémico, aqui) também as personagens e a história de O Pianista de Hotel estão repletas de ambiguidades, de saltos no tempo e de existências paralelas.

Tudo se passa numa grande cidade (pode ser Lisboa ou qualquer outra) espaço fervilhante e inóspito — o músico de rua é a única nota amável na indiferença e agressividade reinantes — num universo quase distópico de alienação, de loucura, de raivas súbitas, de sexo incontrolável, alimentados por uma extrema solidão, pela clausura e incompreensão.

Maria Luísa, Luís Gustavo, Saul Samuel e o médico Pedro Gouveia são as personagens principais, pessoas perdidas, com dificuldades de relacionamento e traumas que vêm de longe, no tempo. Maria Luísa e Luís Gustavo são essencialmente solitários e propensos a conviver com fantasmas. Ambos ficaram aquém das expectativas, são seres cuja vida foi interrompida pelas circunstâncias: Luís Gustavo é enfermeiro mas poderia ter sido médico, Luísa queria ter estudado mas acaba a servir às mesas, num restaurante. Saul Samuel não se satisfaz com a sua existência de bailarino, numa discoteca, e Pedro Gouveia põe em dúvida a sua missão como médico, o que lhe traz dissabores, no hospital onde trabalha. E se, como afirma repetidas vezes o autor, o corpo é o que é primeiro visto pelos outros — impressão fugaz e sempre enganadora — as personagens deste romance estão enclausuradas nesse colete-de-forças que é o nosso “invólucro mortal”, nas palavras de Shakespeare. Luísa, com o seu corpo fenomenal, demasiado belo para o seu sossego, é uma vítima da atracção fatal que exerce sobre os outros; Marco, o rapazinho em coma que tanto afecta Luís Gustavo, é na realidade, uma presa da morte; Maria Manuela, a mãe de Luísa, tenta desesperadamente lutar contra o tempo e o envelhecimento, num corpo que não lhe obedece — e as consequências são dramáticas; Saul Samuel não resiste ao anseio erótico que é, também, um triunfo da sua vontade em relação ao pesadelo que foi a sua infância. Neste livro, numa cidade que é selvagem e agressiva, em lugares claustrofóbicos — hospital, apartamentos, bares —, todas as personagens, de uma forma ou de outra, são vítimas ou predadoras.

Rodrigo Guedes de Carvalho revela, neste romance, um conhecimento profundo da Literatura contemporânea com ecos de Lobo Antunes, no que diz respeito à estrutura das frases e a uma certa melancolia, simultaneamente terna e pessimista, e de Saramago, quando deixa a narrativa impregnar-se de um “realismo mágico” que serve, essencialmente, para criar tensão e incerteza. Outra referência poderá ser o autor americano Paul Auster — que relata constantemente o “tormento de estar vivo” e a angustia das escolhas — principalmente na forma como Guedes de Carvalho trata a ligação entre a cidade e os seus habitantes e, ainda, pela fluidez do tempo, a perturbadora (e ditatorial) força da memória e uma espécie de loucura que persegue as personagens.

Se este livro é essencialmente sobre a solidão, a perda, o luto, o envelhecimento e, finalmente, a morte — que corta cerce todos os anseios, todas as expectativas, todos os desejos — é também, uma história de amor, sentimento que surge aqui não como força redentora mas sim como possibilidade infinita, repetidamente gorada, mas tenaz na sua fugaz existência: Manuela poderia ter amado a filha, Luís Gustavo poderia ter amado Luísa, (e vice-versa), o doutor Pedro Gouveia transfere o amor pela filha para Luís Gustavo, Saul Samuel ama desesperadamente alguém que o não ama mas que, através dele descobre outro tipo de amor, etc. Na realidade, esta é uma história de impossibilidades repetidas, de actos falhados e de traumas (tão brutais como a violação ou a homofobia) que cerceiam a liberdade de escolha.

A escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho é límpida e ritmada, com uma dose de mistério que mantém o leitor em suspenso. A acção desenrola-se sem ordem cronológica, em diferentes camadas, por vezes sobrepostas, e a obsessão dos protagonistas funciona como fio condutor em diferentes direcções. Tudo converge para o “pianista de hotel” que empresta o título ao livro, uma misteriosa figura, quase invisível — pode ser um virtuoso mas (quase) ninguém o escuta, é apenas uma “miragem” —, um ser discreto cuja dimensão só é conhecida quase no final, num momento em que tudo parece fazer sentido. “Parece” porque a realidade — ou o que tomamos como real — estilhaça-se em permanência, deixando tudo em aberto, passível de ser interpretado de múltiplas formas.

“O passado nunca está morto. E nem sequer é passado”, escreveu William Faulkner, num dos seus últimos romances. Em O Pianista de Hotel, as personagens carregam consigo o peso das suas vidas e o presente é, apenas, uma permanente fantasmagoria.