Sociedade Portuguesa de Pneumologia quer travar aumento de mulheres fumadoras

Número de homens fumadores diminuiu em 2014, mas o das mulheres consumidoras de tabaco aumentou. No Dia Mundial Sem Tabaco, que se celebra nesta quarta-feira, os pneumologistas lançam campanha dirigida às mulheres.

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Há cada vez mais casos de cancro de pulmão nas mulheres Daniel Rocha

Neste ano, são as mulheres jovens e em idade fértil o alvo da campanha Sem tabaco, com muito orgulho, lançada pela Comissão de Trabalho de Tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP). A explicação é simples, revela o coordenador da comissão, José Pedro Tomé: “Os números mais recentes mostram que, ao contrário do que está a acontecer com os homens, o tabagismo não está a diminuir nas mulheres, em Portugal.”

No país, estima-se que o número de pessoas fumadoras com 15 ou mais anos atinja os 1,8 mi­lhões: 1,2 milhões são homens e 600 mil são mulheres. Os dados foram recolhidos em 2014 e publicados pela Direcção-Geral da Saúde no início do ano passado. No entanto, apesar de o número de mulheres fumadoras ser inferior está progressivamente a aumentar.

Ao comparar 2005/06 com 2014, vê-se que houve uma diminuição de 87 mil fumadores no país. Só que enquanto houve um decréscimo de 161 mil homens a consumir tabaco (de 27,5% para 23,5%), houve um aumento de 74 mil mulheres (de 10,6% para 10,9%).

“Cada vez surgem mais casos de cancro de pulmão nas mulheres, algo que era relativamente raro há 20 ou 30 anos. Era uma doença dos homens. Agora a coisa está a atingir um planalto nos homens e nas mulheres estamos em retrocedente. E vamos continuar durante muitos anos ainda”, explica José Pedro Tomé.

A isso acresce-se a propensão à doença, que não é exactamente igual entre os sexos, adianta o coordenador da comissão da SPP: “Uma mulher pode fumar menos e ter mais probabilidade de ter um cancro que um homem. Isto tem a ver com mecanismos genéticos que são um pouco diferentes ou até com a própria forma como se fuma e inala.”

Fumar por dois

As mulheres grávidas são um outro grupo para o qual a campanha dirige os seus esforços. De acordo com os dados de 2014, divulgados pela DGS, 9,7% das mulheres disseram ter fumado na última gravidez. Lê-se, ainda, que cerca de 60% das mulheres que fumavam no início da gravidez manteve o consumo.

“As mulheres em idade fértil têm esta vivência do problema do tabaco numa perspectiva duplicada, porque quando fumam e engravidam, os efeitos nocivos não se limitam somente a ela, mas são extensíveis ao bebé que transportam. Faz todo o sentido, por isso, que um dos grupos prioritários da campanha seja este”, afirma o pneumologista Filipe Froes.

Sensibilizar a partir das redes sociais

Desta vez, a SPP quis diferenciar-se dos movimentos negativistas, centrados nos efeitos nocivos do consumo de tabaco, e incentivar os não-fumadores a manifestarem-se “orgulhosamente” nas redes sociais, através de hashtags como #semtabaco, #semcomplexos, #semvicios, #semsorrisosamarelos, #semrugas, #semmanchas e #semflacidez. Para as mulheres grávidas há etiquetas mais específicas como #semriscosparaosdois e #semculpas.

“Queríamos frisar que deve haver orgulho em ser não-fumadora. Antigamente, as campanhas das tabaqueiras, para venderem cigarros, passavam a imagem de que uma mulher fumadora era emancipada, tinha glamour, poder, charme. O que queremos agora é passar exactamente a ideia contrária", revela o coordenador da comissão da SPP.

Filipe Froes acredita que a divulgação dos efeitos do consumo de tabaco a curto prazo, presentes na campanha do SPP, faz todo o sentido: “São essas consequências que as pessoas vivenciam mais depressa e que as alertam para os perigos do tabaco. E, na realidade, uma pessoa jovem, que quer manter um aspecto bonito, se calhar preocupa-se mais com o facto de o tabaco lhe condicionar alterações na sua imagem corporal no presente do que um cancro do pulmão que pode vir ou não ter daqui a 30 anos”.

Texto Pedro Sales Dias