Opinião

Umberto Eco, o Islão e a Península Ibérica

A evidência de elementos islâmicos na Divina Comédia pode ser apenas a ponta do icebergue de um contributo muito maior da Península Ibérica mourisca à Europa do que aquele que se conhece.

No início de 2016 era lançada, em tempo recorde, Pape Satan Aleppe: crónicas de uma sociedade líquida, obra póstuma de Umberto Eco, sem dúvida um dos mais brilhantes intelectuais contemporâneos, que conseguia “ver significados onde outros estariam tentados a ver apenas fatos”, como o descreveu o Le Monde.

O título do livro demonstra perfeitamente esta amplitude signica, que extrapola tempo e espaço e limites temáticos. Afinal, não é para qualquer um estabelecer nexos entre Dante Alighieri (Inferno, Canto VII, 1) e o também recém-falecido Zygmunt Baumann (Liquid Modernity) para batizar uma coletânea de escritos publicados em sua coluna no semanário italiano Expresso, entre 2000 e 2015, que versam sobre uma incrível variedade de assuntos de maneira inovadora e lúcida. É neste hiato entre medievalismo e contemporaneidade e com esta transversalidade que Eco deixou entrever, cerca de um ano antes de sua morte, o papel da Península Ibérica na possibilidade de um tratamento coerente de questões como refugiados e terrorismo islâmico, que tornaram-se fulcrais nos dias de hoje.

Trata-se de um artigo — que não integra a coletânea, embora tenha sido publicado na mencionada coluna — no qual comenta o relançamento na Itália do livro Dante e o Islão, escrito em 1919 pelo filólogo espanhol Miguel Asín y Palacios, que aborda as estreitas similaridades entre a Divina Comédia e o relato da ascensão de Maomé ao Paraíso e sua viagem noturna ao Inferno. Conclui recomendando sua leitura, “que é ainda mais relevante hoje, momento em que devido à insensatez bárbara de fundamentalistas islâmicos as pessoas tendem a esquecer as relações que sempre existiram entre as culturas ocidental e islâmica”.

Após intensa polêmica ao longo da primeira metade do século XX, a tese de Palácios foi legitimada por vários estudiosos e na segunda metade pela descoberta de duas traduções medievais do Livro da Escada de Maomé — ao latim e francês antigo, por ordem de Afonso X. Ambas datam de meados do século XIII e ficou provado que ambas circularam pela Europa e, portanto, acessíveis a muitos intelectuais ocidentais a partir de então.

Sem dúvida, a evidência de elementos islâmicos na Divina Comédia pode ser apenas a ponta de um iceberg de um contributo muito maior da Península Ibérica mourisca à Europa do que aquele que se conhece até hoje. São os países da região que fizeram a história e detêm a memória deste legado; são testemunhas de sua grandiosidade e beleza, que não deveriam ser ofuscadas pelas atrocidades de pequenas fações terroristas. Afinal, tomar o todo pela parte nunca foi nem será uma boa alternativa, em quaisquer áreas da vida em que se aplique esta máxima.

Aproveitando a deixa de Eco, e ao mesmo tempo prestando-lhe homenagem — afinal, sua derradeira mensagem foi a denúncia da “ausência de sentido que prevalece sobre a racionalidade” característica da “sociedade líquida” —, terá lugar no Porto, na Casa do Infante, no dia 2 de Junho, um colóquio organizado pela Associação Sócio-cultural Dante Alighieri, que abordará as presenças ibero-árabes na obra dantesca — passando pelas especificamente lusas, como as menções a Pedro Hispano e D. Dinis no Paraíso. Uma tentativa de resgate de antigos laços culturais fraturados ao longo dos séculos, porém eternizados sob os versos do sumo poeta italiano. Uma centelha de racionalidade diante da enganosa propaganda anti-islâmica que permeia os debates e ações voltados a importantes temas contemporâneos.