Crítica

Da direita à esquerda e vice-versa

Identificando uma “nova direita” através de manifestações culturais de superfície, António Araújo aventura-se num exercício interessante, mas não isento de amálgamas.

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O semanário O Independente, habitat fundamental da “nova direita” que António Araújo identifica e caracteriza neste ensaio

Neste livro é mais relevante a identificação e constituição de um objecto de estudo do que a caracterização e análise desse objecto. Não é que o autor se tenha demitido da tarefa respeitante ao segundo aspecto. É preciso um conhecimento mínimo do objecto para o classificar, mas em primeiro lugar­ — uma prioridade epistemológica e não cronológica­ — está uma hipótese, ou melhor, uma tese: a de que é possível nomear uma nova “cultura de direita”, surgida em Portugal nos anos de 1980. Trata-se de uma direita urbana, cosmopolita, sofisticada, mundana, liberta dos códigos de valores morais, culturais e sociais da “direita ultramontana e tradicionalista”, como lhe chama António Araújo. Esta nova direita (não confundir com a chamada “Nouvelle Droite” francesa, cujo mentor é Alain de Benoist) nasce não de uma vontade programática e de uma elaboração intelectual, mas de uma maneira informal. Afirma-se sobretudo através do convívio social, das fraternidades e das afinidades electivas, e muito pouco por identificação com um ideário ou um programa ideológico. E é sobretudo um fenómeno gerado no espaço mediático. Daí que António Araújo (que se propõe fazer uma “genealogia da cultura de direita portuguesa contemporânea, dos anos 80 aos nossos dias”, muito embora o seu método seja muito mais historiográfico do que genealógico) proceda à nomeação dos lugares fundamentais de nascimento dessa nova direita: as páginas de crónica social do jornal O Semanário, o jornal O Independente, a revista Kapa; e, mais perto de nós, já no início do século, alguns blogues.

A análise é muito mais empírica do que conceptual. Se António Araújo começasse por definir o que é uma cultura de direita (nova, por oposição a uma velha), o seu objecto iria escapar-lhe facilmente entre os dedos. Por isso, o procedimento é um pouco tautológico: é de direita a cultura que não é de esquerda (“esta direita, ou melhor, esta não-esquerda”, p.34), ou então é de direita a cultura que eu nomeio enquanto tal, protegido por alguma indefinição. Evidentemente, o método não tem grande rigor “científico”, as suas potencialidades são de outro tipo: colocam-se hipóteses, desenha-se um mapa esquemático que permite avançar neste território, ainda que com imensas cautelas.

Sabemos todos muito bem­ — mas importa aqui repeti-lo­ — que direita e esquerda são as categorias em torno das quais se polarizou o espaço político moderno, a partir da Revolução Francesa. Essa dicotomia representa as coordenadas essenciais da divisão social e política. Se até ao último quartel do século XX o problema essencial que consiste em identificar um critério geral que saiba distinguir o que é de direita e o que é de esquerda nunca foi plenamente resolvido (dadas as muitas direitas e as muitas esquerdas que povoaram a história política e social europeia), a partir dos anos de 1980 deu-se a obsolescência heurística, teórica e prática, da distinção entre direita e esquerda. A crítica dessa distinção começou por ser identificada com uma manobra intelectual da direita, mas acabou por revelar-se como um signo muito verosímil de uma nova configuração epocal e estrutural. Algo da tradição moderna tinha chegado ao seu fim, mas isso não significou que tivesse passado a ser possível prescindir completamente das categorias esquerda/direita para nomear uma clivagem fundamental, muito embora se tenha tornado evidente que outros factores passaram a entrar em jogo no conflito político. É certo que as tradições políticas da direita e da esquerda, não sendo determinadas por conteúdos específicos (mas também não sendo meros contentores vazios que se preenchem à medida das contingências), foram muitas vezes contraditórias. Sem recorrer a essencialismos, do lado da variedade das direitas intelectuais e políticas, nos séculos XIX e XX, podemos nomear as direitas conservadoras, passadistas, reacionárias, mas também as direitas vanguardistas, modernistas e futuristas; as direitas totalitárias e as liberais.

Ora, António Araújo tem em conta os seguintes factores: a persistência, apesar de tudo, da dicotomia esquerda/direita; a diversidade das esquerdas e das direitas (o que o leva a usar de maneira recorrente esta modalização: “alguma esquerda” e “alguma direita”; ou “uma certa esquerda” e “uma certa direita”); a contaminação de uma por outra, até à indistinção cultural, na medida em que se sobrepõe a essa diferença a lógica da cultura de massas e do “espectáculo” (a palavra, com a sua carga ideológica e conceptual, é utilizada pelo autor). A grande clivagem seria então “a que divide elites e não elites”.

António Araújo identifica então uma cultura de direita no comportamento elitista e classista dos grupos informais que se foram constituindo nalguns círculos mediáticos, especialmente O Independente, cuja marca foi não só a ruptura com as hierarquias, as referências e as arrumações culturais constituídas em função de ordens, códigos e hegemonias cristalizados na vida intelectual portuguesa, mas também uma desinibição no plano dos costumes e a adesão a um lifestyle. Assim caracterizada, esta nova direita não é apenas desinibida, é também anti-puritana. Fácil é perceber porque é que António Araújo a opõe a uma direita tradicionalista, cheia de mitologias do enraizamento nacional. Mais difícil, porém, é responder com algum rigor a esta questão: mas porque é que estamos aqui perante uma nova “cultura de direita”? Porque ela é representada por pessoas cujo alinhamento político-partidário é maioritariamente de direita (mas não exclusivamente; e aqui António Araújo mostra como ela se caracteriza pela sua extrema porosidade)? Mas assim a definição desta cultura de direita torna-se tautológica.

Sejamos mais precisos: aquilo que neste livro é designado como “cultura de direita” é um conjunto de “fenómenos de superfície” (para usarmos a terminologia sociológica de Georg Simmel) que podemos identificar com uma ideia de cultura do divertimento e do lazer que, por razões fáceis de explicar, só emergiu em Portugal nessa altura. Na expressão “cultura de direita” talvez seja preciso acentuar mais a ideia de uma nova cultura epocal do que a da emergência de uma nova direita. Ou, pelo menos, é a primeira que constitui a segunda e não o contrário. E isto não é muito claro no livro, que nos leva antes a pensar que emergiu em Portugal a partir dos anos 80 uma “nova direita” produtora de uma nova cultura: uma cultura hedonista, liberal, exibicionista e muito livre em matéria de costumes. Como sabemos, esta cultura que promoveu a indistinção entre estilos vestimentários e cultura erudita foi uma versão mundana e popular do pós-moderno. Se a pós-modernidade correspondeu a um neo-conservadorismo, como foi amplamente discutido na altura, é uma questão que talvez não permita facilmente vestir as suas manifestações nacionais com as roupagens de uma nova “cultura de direita” que, no essencial, mais não é do que a cultura de quem quis estar acriticamente em sintonia com o seu tempo.

É preciso salientar que António Araújo toma como objecto o campo da cultura, a “cultura de direita”, e não o campo propriamente político. É preciso salientar igualmente que a ideia de uma “cultura de direita” tem a sua tradição: ela refere-se à cultura feita de autoridade, da relação mitológica com o passado e a sua transmissão; é a cultura dos valores indiscutíveis indicados com palavras grafadas com uma maiúscula inicial. A maior parte do património cultural é o resíduo cultural da direita. Ora, como é fácil perceber, esta antiga “cultura de direita” nada tem a ver com “fenómenos de superfície”. O procedimento analítico de António Araújo tem a sua pertinência e traça um óptimo roteiro, mas cai muitas vezes numa amálgama dos “fenómenos de superfície”, enquanto fantasmagorias de uma época, com uma sobredeterminação política e ideológica de afirmações estético-culturais. A tese e a cartografia política que este livro desenvolve talvez omitam que O Independente (para dar apenas um exemplo) não foi apenas o lugar de manifestação de uma cultura pop e de novos códigos culturais das modas urbanas; foi também outras coisas, por exemplo os artigos sobre arte de João Miguel Fernandes Jorge e os artigos de crítica literária de Joaquim Manuel Magalhães, a presença tutelar, enquanto figura de invocação, de Agustina Bessa-Luís. O que, podendo enquadrar-se numa cultura de direita, que também não é a antiga, nada tem a ver com a nova cultura de direita identificada neste livro de António Araújo.