Europa tem 90 salas de consumo assistido e apenas uma morte reportada

Nos últimos 30 anos, foi reportada apenas uma morte numa sala de consumo. Muitas outras foram evitadas, alegam os seus defensores, nas 90 salas espalhadas por nove países europeus.

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A primeira sala oficialmente criada numa lógica de redução dos comportamentos que aumentam o risco de transmissão de doenças e das mortes por overdose surgiu em 1986 em Berna, na Suíça. Sérgio Azenha

As primeiras salas de consumo assistido na Europa já contam com 30 anos de existência. Até agora apenas uma morte foi referida nestes espaços onde as drogas são consumidas sob supervisão, visando reduzir os riscos de transmissão de doenças entre os toxicodependentes e a mortalidade por overdose. “Em Dezembro de 2002 uma pessoa que usava drogas morreu de anafilaxia (reacção alérgica severa) numa sala de consumo alemã”, especifica o relatório Salas de Consumo Assistido na Europa: Modelos, boas práticas e desafios, da Rede Europeia de Redução de Riscos (EuroHRN).
Desde então, vários países aderiram a este modelo de redução de danos.

Numa Europa onde se calcula terem ocorrido em 2014 pelo menos 6800 mortes por overdose, segundo o relatório mais recente do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, contam-se nove países com salas de consumo assistido, num total de 90 salas. As mais recentes foram criadas em França, em Paris e Estrasburgo, no final do ano passado, ambas nas imediações de um hospital. A Holanda dispõe de 30 salas de consumo, a Alemanha tem 24, a Suíça tem 13 e a Espanha também. Segue-se a Dinamarca, com cinco salas, a Noruega, a Grécia e o Luxemburgo, com uma sala cada — neste último caso, está prevista a abertura de uma nova sala no decurso deste ano. 

A primeira sala oficialmente criada numa lógica de redução dos comportamentos que aumentam o risco de transmissão de doenças e das mortes por overdose surgiu em 1986 em Berna, na Suíça, a reboque das preocupações em torno da propagação do VIH
sida ligada ao consumo epidérmico de heroína e de droga injectada. “Na altura, tornou-se evidente que uma política baseada exclusivamente na abstinência, que incluía os tratamentos de desabituação em unidades de internamento, era ineficaz”, recorda a EuroHRN, fundada em 2010 por várias organizações europeias que defendem políticas de redução de riscos.

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Despistagem de doenças

Segundo o relatório, coexistem actualmente diferentes modelos de salas de consumo: do modelo integrado ao especializado, passando pelas unidades móveis. No primeiro, as salas funcionam em edifícios dotados de uma rede de serviços, que incluem aconselhamento e despistagem de doenças, tratamento de feridas, troca de seringas e aconselhamento social e psicológico.

Um exemplo destas salas é o existente na cidade de Bona, na Alemanha, onde, no rés-do-chão, os utentes podem tomar o pequeno-almoço, banho e lavar as suas roupas; no primeiro andar, funciona um serviço de aconselhamento para utentes em tratamento de substituição; no segundo andar, uma clínica para cuidados gerais; no terceiro, uma clínica de curto internamento para utentes em desintoxicação; e, por último, nas traseiras, estão as salas de consumo com espaços diferenciados para drogas injectáveis e fumadas. A desvantagem deste modelo é que os utentes em tratamentos de desabituação poderão ver os seus esforços deitados por terra por causa da proximidade dos locais do consumo, já que, como escrevem os autores, “ouvem, cheiram e estão cientes de que as drogas estão a ser usadas uns andares abaixo, o que aumenta o risco de recaída”.

No modelo especializado, existem apenas as salas de consumo, geralmente nas proximidades dos locais de venda e consumo a céu aberto. Por último, as unidades móveis, que existem em cidades como Barcelona, Berlim e Copenhaga, consistem em carrinhas adaptadas e equipadas com três cabinas de injecção que percorrem os principais locais de tráfico.

Quanto ao acesso, as regras variam. Na Alemanha excluem-se todos aqueles que estejam em tratamentos com opiáceos de substituição, “o que deixa de fora cerca de 70.000 clientes”. Algumas das salas admitem utentes a partir dos 16 anos, desde que apresentem consentimento por escrito dos pais, mas a maior parte impõe os 18 como idade mínima. Em todas elas, os consumidores ocasionais ou que estejam a usar drogas pela primeira vez são impedidos de entrar, bem como os que se apresentem intoxicados ou embriagados. Todas dispõem de pessoal preparado para intervir em casos de overdose. Em Barcelona, aliás, os utilizadores são convidados a aprender manobras para ajudar pessoas em situação de overdose, recebendo para tal um kit com naloxona pronta a injectar.