Entrevista

"As eleições no Irão são como uma história de amor: prometem muito, mas não cumprem"

Para o académico Arshin Adib-Moghaddam, da londrina SOAS (School of Oriental and African Studies), estas eleições vão confirmar o desejo de paz no plano interno e externo dos iranianos.

Arshin Adib-Moghaddam, professor na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres é o autor de On the Arab Revolts and the Iranian Revolution
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Arshin Adib-Moghaddam, professor na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres é o autor de On the Arab Revolts and the Iranian Revolution DR

Numa entrevista por email com o PÚBLICO Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofias comparativas na SOAS [School of Oriental and African Studies] da Universidade de Londres, director do Centro de Estudos Iranianos no London Middle East Institute (LMEI), e autor de vários livros sobre política iraniana (como o mais recente On the Arab Revolts and the Iranian Revolution: Power and Resistance Today), diz que estas eleições não serão um “drama” mas sim “uma novela” em que todos sabem o fim.

O que está em causa nestas eleições no Irão?
As eleições no Irão são como uma história de amor por cumprir. Prometem muito, mas no final não cumprem. Dito isto, tem havido agitações recorrentes na política iraniana que ocorreram através das eleições. A presidência surpresa do Presidente reformista [Mohammad] Khatami em 1997 foi um destes momentos, a eleição do conservador-radical Mahmoud Ahmadinejad foi outro. Comparando com estas campanhas apaixonadas, a actual é bastante monótona. É um pouco como a diferença entre um filme romântico como Breakfast at Tiffany’s [Boneca de Luxo na versão portuguesa] e uma telenovela previsível. Não tenho dúvidas: Hassan Rouhani vai ser reeleito. Não vejo um drama, vejo mais uma novela.

Qual foi o tema forte da campanha?
A economia aparece com muita importância, não só porque a oposição ao actual Presidente considera a sua performance no que diz respeito ao colher dos benefícios do acordo nuclear medíocre. Estas críticas ganham força pela posição do Líder Supremo, ayatollah Khamenei, que também expressou insatisfação com a economia. Este é um tema tipicamente populista nas eleições iranianas. Esta ênfase na redistribuição e igualdade social iria ganhar força se Rouhani fosse visto como complacente sobre a taxa de desemprego e os indicadores macro-económicos. Até agora, ele tem repelido com sucesso as acusações de [Ebrahim] Raisi e [Mohammed Baqer] Qalibaf, os dois maiores concorrentes [Qalibaf retirou-se entretanto], classificando-as como apenas slogans de campanha. Rouhani esteve bem assessorado com factos pela sua equipa, por isso seria muito difícil “envergonhá-lo” em debates televisivos.

O que pensa da candidatura de Raisi e da ideia de que pode ser um “ensaio” para vir  a ocupar o lugar do Supremo Líder?
Não considero Raisi uma opção viável nem para a presidência nem para o cargo de Líder Supremo. Para ser Líder Supremo está definido na Constituição que é necessário acima de tudo competência política e num grau menor excelência religiosa. Raisi parece ser um candidato não elegível em qualquer destas categorias. Não vai haver apoio suficiente para ele noutros detentores de poder na República Islâmica e o público iraniano rejeitará este tipo de política na eleição.

Nem a desistência de Qalibaf para juntar os votos de direita a favor de Raisi irão mudar o resultado. O que é mais importante é o antigo Presidente Khatami ter apoiado o Presidente Rouhani. O Irão ultrapassou a política do confronto. As pessoas querem paz, no plano interno e externo. A maioria dos iranianos acha que o Presidente Rouhani pode conseguir isso. O fim desta saga é previsível. A política é por agora de normalização – e isso pode ser bom para o país e para o mundo.