Crítica Dança

A ética do negativo

A obra de Jonathan Saldanha destaca-se por operar nessa partição política do sensível que confere voz a alguns destes negativos: o da linguagem, através de elementos pré-linguísticos, e o do humano, evidenciando a matéria não-humana, e instaurando no espaço-entre uma ética por vir.

José Caldeira/Teatro Municipal do Porto
José Caldeira/Teatro Municipal do Porto
José Caldeira/Teatro Municipal do Porto
José Caldeira/Teatro Municipal do Porto
José Caldeira/Teatro Municipal do Porto
José Caldeira/Teatro Municipal do Porto
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O processo inicia-se na penetração dos estratos da arquitectura do Rivoli. Movimentos que conduzem o público às galerias técnicas do palco onde os aguarda um profundo fosso negro. Uma pré-dramaturgia que se pode inscrever na linhagem temática de O Poço, performance absolutamente singular, com direcção artística de Jonathan Saldanha, que assinalou o último fim de semana do Festival DDD – Dias da Dança, no Porto. 

Numa relação vertiginosa com o palco e o buraco negro que nele se recorta, os espectadores são submetidos a uma experiência sónica desestabilizadora. Uma polifonia do que se intui ser a queda de objectos, matéria, vozes e ecos atravessa o público, através de um sound system de 16 canais dispostos na vertical. Sobre o palco sedimentam-se três toneladas de granulado de borracha de pneu que, à semelhança dos restantes materiais que compõem os figurinos e os objectos da peça (como o plástico), são derivados do petróleo, resíduos da exploração e da acumulação capitalista.

Nesta entidade arquitectónico-acústica interceptam-se diversos estratos onde circulam elementos orgânicos e inorgânicos, sons naturais e artificiais, e que se traduzem numa dramaturgia sequencial de paisagens (da qual só lamentamos a regularidade temporal). Após o momento sonoro inicial em escuridão, surge um performer, vestígio residual da presença humana, que corre em cenário pós-apocalíptico. Inesperadamente, figuras camufladas num mimetismo com o palco irrompem numa massa humana em circulação veloz em torno do buraco negro, que se converte numa das imagens mais extáticas da peça. Com desenho de luz rasante, e composição sonora de percussão rítmica e animalidades não-humanas, esta massa interage com uma outra turba em situações de confronto. O estrato que se segue repõe a calma: figuras técnicas em modo de função alisam a matéria sobre o palco. E no subterrâneo distinguimos uma entidade visceral motorizada que circula por entre a estrutura de pilares. Segue-se no plano superior uma motard que desenha imagens de aceleração e derrapagem, qual “poço da morte”, o único momento de literalidade que escapa à abstracção do humano. Uma outra entidade superior suspensa no centro da teia, híbrido objecto-animal, movimenta-se no eixo vertical. E finalmente, após outras movimentações subtis de figuras humanas, dá-se a queda literal de detritos que se vão acumulando sobre as bordas daquela terra esventrada. O blackout repõe o silêncio.

Evidenciam-se a matéria e o animismo acústico, suprime-se o humano e anula-se a cartografia de reconhecimento convencional (a linha do horizonte, o ocularcentrismo, a horizontalidade do som).

Trata-se de um Poço-Máquina onde os eventos resultam da acção oposta de dois cones verticais: um descendente, da actividade humana que se comprime na perfuração da superfície e que segue um drive de atracção pelo inorgânico, o poder e a morte; o cone ascendente é o da actividade telúrica, animada pelos fluidos do petróleo que emergem da profundidade e se individuam. São o eixo vertical de agenciamento económico-político e geoterritorial versus o eixo-resposta do imponderável da Terra, essa entidade Gaia que necessitamos de aprender a viver-com, como nos alerta Isabelle Stengers (no contexto actual em que a acção humana é já a maior força de transformação da Terra, uma era geológica que cientistas propõem designar de Antropoceno).

O Poço subverte os campos artísticos da coreografia, do teatro, da instalação sonora e cénica, propondo-se como um evento de auscultação dos sintomas acústicos do inconsciente da Terra. Inscreve-se na obra de Jonathan Saldanha, que se tem pautado pela investigação sonora, cénica e fílmica sobre elementos pré-linguísticos, coros generativos, animismo acústico, entre outros. Uma obra profundamente ética na sua pesquisa sobre o gesto e o som pré-linguagem, que não só pretende escapar ao logocentrismo, como se inscreve na crítica à violência do humanismo antropocêntrico, ao anular o humano e conferir subjectividade à sonoridade da matéria.

Em estreita relação com esta peça, encontramos a exposição Afasia Táctica, patente na Culturgest Porto, uma instalação vídeo pensada para a arquitectura do espaço, com instalação sonora de um coro difundido e uma voz central. A ausência da linguagem aqui, como a redução do humano em O Poço, associa-se à experiência da violência que, muito embora velada, está implícita na inoperância tática de quem a tolera, na movimentação de massas de corpos, e na exploração da Terra.

A modernidade instaurou dicotomias (sujeito-objecto, natureza-cultura, entre outras) alicerçadas na criação de opostos, negativos imaginados que naturalizou. A obra de Jonathan Saldanha destaca-se por operar nessa partição política do sensível que confere voz a alguns destes negativos: o da linguagem, através de elementos pré-linguísticos, e o do humano, evidenciando a matéria não-humana, e instaurando no espaço-entre uma ética por vir.