A felicidade de Jorge Cramez no regresso à longa-metragem

Dez anos depois da estreia com O Capacete Dourado, o cineasta mostra Amor Amor no concurso do IndieLisboa — uma história com muito de pessoal inspirada numa peça de Corneille.

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Jorge Cramez, o realizador de Amor Amor Miguel Manso
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A ideia era fazer um filme “de época” sobre a geração do realizador e inspirado pelas suas próprias vivências nos anos 1980 Miguel Manso
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Se dez anos de intervalo entre duas longas-metragens é muito tempo para um realizador, fique então a saber que o projecto de Amor Amor, a segunda longa de Jorge Cramez dez anos depois da sua estreia com O Capacete Dourado (2007), tem... vinte anos. É isso que o cineasta explica, num sofá da Culturgest, no dia a seguir à “celebração” da estreia de Amor Amor no concurso do IndieLisboa (onde ainda voltará a passar, na quarta-feira, 10 de Maio, às 11h, e no sábado, 13 de Maio, às 16h45, sempre na Culturgest). Esta adaptação da última comédia escrita pelo dramaturgo francês Pierre Corneille, La Place Royale, é um projecto até anterior ao Capacete Dourado, que se estreou no concurso de Locarno. “Este filme tem 20 anos comigo desde a escrita”, explica ao PÚBLICO o realizador. “Vi a peça encenada pela Brigitte Jacques na Cornucópia, numa produção do Théâtre de la Commune, no início dos anos 1990, e fiquei fascinado com a história, tinha muito que ver comigo em muitas coisas...”

Nas mãos do realizador, nascido em 1963 — e que “até há pouco tempo ainda era um jovem cineasta”, sorri —, a atracção que se forma e desforma entre dois casais (Ana Moreira e Jaime Freitas de um lado, do outro Margarida Vila-Nova e Nuno Casanovas) passou dos jogos galantes do século XVII para uma história muito pessoal, ambientada na Lisboa contemporânea. “Apenas mantive do Corneille a trama original, e pus muitas coisas minhas nas personagens”, sorri Cramez. “Todas elas correspondem a amigos meus, referentes importantes na minha vida, e as verdadeiras pessoas que as inspiraram andam pelo filme a fazer figuração.” Assistir a La Place Royale no Teatro do Bairro Alto foi o momento-chave para o projecto: “Quando estava a ver a peça, estava a ver-nos a nós. A história do Corneille permitia-me pôr as pessoas dos meus afectos e dos meus amores todos em cena. E isso foi o ponto de partida.”

Originalmente, a ideia era fazer um filme “de época” sobre a geração do realizador e inspirado pelas suas próprias vivências nos anos 1980, em que Lisboa era uma cidade em movimento. “Interessava-me apanhar essa Lisboa 'em mutação', anterior à Expo, antes de se tornar uma cidade moderna.” Os acasos dos concursos não o permitiram — “Fui trabalhando no guião, os anos foram passando, entretanto apareceu o guião do Capacete Dourado e coloquei ambos os filmes a concurso no ICA, no último ano em que nos era permitido concorrer com vários projectos. Soube por portas travessas que um dos projectos tinha ganho, e eu achava que era o Amor Amor. Afinal, foi o Capacete...

Agora, depois de dez anos passados a concorrer aos financiamentos, eis finalmente Amor Amor, pronto e acabado, em tom de comédia romântica doce-amarga de “guerra dos sexos” — algo que Cramez assume abertamente, invocando na nota de intenções os nomes de Eric Rohmer e Alain Resnais. A cinefilia é algo de recorrente no trabalho do realizador, que não se coíbe de falar do peso que as “horas passadas na Cinemateca” tiveram na sua educação cinematográfica. Cramez explica como este plano foi inspirado por Renoir e aquele por Teresa Villaverde, um dos muitos cineastas nacionais com quem trabalhou como assistente (outros incluem Raquel Freire, Joaquim Leitão ou João Botelho, bem como os já falecidos João César Monteiro, Fernando Lopes e José Álvaro de Morais). “Sempre assumi Amor Amor como uma comédia romântica”, retoma o realizador. “Curiosamente, a peça do Corneille é a última comédia que ele escreve, é uma 'falsa comédia', acaba com uma das personagens a retirar-se do mundo e a seguir ele só escreverá tragédias. Mas eu não conseguia filmar a peça de um ponto de vista contemporâneo sem ter um happy end. E como sou feliz a filmar, quero que as personagens também saiam do filme felizes.”

É uma das expressões recorrentes da conversa: “Sou muito feliz a filmar.” “É o que mais gosto de fazer na vida”, explica. “E quando não filmo, estou sempre a filmar” — numa referência à sua carreira de assistente, em paralelo com a meia dúzia de curtas que já dirigiu (a primeira, Venus Velvet, venceu o Curtas Vila do Conde em 2002). Mesmo frustrado por ter apenas duas longas em dez anos, Jorge Cramez não abdica, contudo, da felicidade de filmar. E isso sente-se em Amor Amor. “Sinto-me muito mais à vontade nas longas, tenho tempo e espaço para contar a história. E não quero levar outros dez anos para fazer outra.”