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Emmanuel Macron: O maquiavélico que passou a vida a desafiar a sorte

Do casamento à entrada na política, o percurso de Macron é feito de decisões surpreendentes, mas que acabaram por lhe dar razão. Há um ano, não passava de uma promessa.

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A vida de Emmanuel Macron é feita de decisões que, no momento em que foram tomadas, terão causado perplexidade entre quem o rodeava, tanto a nível pessoal como profissional. O mínimo que se pode dizer do candidato que as sondagens apontam como favorito a vencer as eleições presidenciais deste domingo é que é audaz – e é sabido quem é que os protege.

Nasceu um ano depois da morte da primeira filha dos pais, na sequência de complicações no parto. Os pais viram no seu nascimento um milagre, e por isso puseram-lhe o nome de Emmanuel, “filho de Deus”, revela uma biografia recente.

Aos 16 anos, Macron foi enviado de Amiens para Paris para concluir o ensino secundário. Segundo alguma imprensa, os pais queriam afastar o jovem da professora de Teatro, Brigitte Trogneaux, com mais 24 anos do que ele e por quem se tinha apaixonado, e esperavam que tudo não passasse de um romance passageiro. Não era. Os dois são hoje casados e não têm filhos em comum. Macron apresenta-se como um “orgulhoso” avô de 39 anos dos netos da mulher.

As relações pessoais do candidato foram postas em evidência numa biografia recente escrita pela jornalista do Le Figaro Anne Fulda. Macron é apresentado como um homem com poucos amigos, maquiavélico e obstinado, e com uma auto-confiança inabalável nas suas capacidades. Os pais, citados pela jornalista, dizem ter pouco contacto com o filho, que parece apenas confiar na mulher. Brigitte deixou de ser professora em 2015 para se dedicar a apoiar a carreira do marido, que parece ter sido conduzida metodicamente até este preciso momento.

Macron optou por um ramo de estudos pouco usual: a Filosofia. Terminou o curso com uma tese sobre Maquiavel e chegou a ser assistente de Paul Ricoeur. Quem conhece Macron diz que a filosofia é a sua grande paixão. “Ele entrou na política através da filosofia”, dizia há um ano o então director da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, que conhece Macron há mais de uma década. É possível encontrar nele ainda hoje alguns tiques de professor, como no debate contra Marine Le Pen em que foram várias as ocasiões em que adoptou um tom pedagógico que parece ter desconcertado a sua rival.

Depois da licenciatura, ingressou na École Nationale d’Administration (ENA), em Paris, instituição de passagem obrigatória para quem tenha a mínima ambição de sucesso na política francesa. Mas a política teve de esperar mais alguns anos. O destino seguinte foi o banco de investimento Rotschild – símbolo maior do capitalismo e que tem sido uma das armas de arremesso favoritas de Le Pen. Foi lá que liderou a aquisição de uma filial da farmacêutica Pfizer pela Nestlé, um mega-negócio de nove mil milhões de euros.

Em 2012, ajuda a elaborar o programa que leva François Hollande ao Palácio do Eliseu e torna-se no seu principal conselheiro económico. Sobe a ministro da Economia durante o Verão de 2014, num momento de desespero do Governo liderado por Manuel Valls, a braços com a pressão para aplicar reformas económicas profundas e a oposição da ala esquerda do PS. Macron torna-se o rosto das políticas impopulares do Executivo, incluindo de um pacote legislativo que é baptizado pela imprensa com o seu nome e que toca em temas sagrados para a esquerda francesa – como, por exemplo, a possibilidade de todas as lojas poderem estar abertas aos domingos.

É ainda durante o consulado no Governo de Valls que Macron cria o En Marche!, o seu movimento político “nem de esquerda, nem de direita”, que aparece como um “ovni” na paisagem política francesa. Ninguém sabe como o definir, nem para onde vai. Em Abril do ano passado, um perfil publicado pelo Politico tecia elogios ao ainda ministro da Economia e previa que a “grande data para acompanhar” a carreira de Macron seria 2022. Para 2017, continuava o artigo, o En Marche! teria de se consolidar através de “apoios a candidatos às eleições legislativas”. Aos 39 anos, está muito perto de se tornar no mais jovem chefe de Estado francês desde Napoleão.