Opinião

O ultra-socialista neoliberal do não-programa perigosíssimo

Macron não seria a minha escolha eleitoral se eu fosse cidadão francês — a não ser contra uma fascista como Le Pen.

“O mercado livre é a não-política.” Quem disse isto? Emmanuel Macron. Mas não foi anteontem, no debate presidencial de segunda volta das eleições presidenciais contra Marine Le Pen. Foi há quase um ano, num debate na escola de Ciências Políticas de Paris dois dias após o referendo do “Brexit”.

Nestas coisas de avaliar personagens políticas que, antes de eventualmente chegarem ao poder, são folhas de papel em branco, há dois caminhos. A primeira opção é tentar ler tanto quanto possível, tentar ouvir na Internet o máximo de intervenções da pessoa em questão e, sobretudo, ser muito circunspecto. A segunda opção é usar a tal folha em branco para projetar nela tudo aquilo que politicamente fizer parte das nossas fantasias, quer sejam positivas ou negativas.

Chamem-me pateta, mas tenho preferência pela primeira opção. Ela não é tão útil para cavalgar as ondas do momento, mas gostos não se discutem. No caso de Macron, não há falta de material, e o material que há permite-nos perceber que ele é um social-liberal em matéria de política interna francesa (emprego, escola, pensões) e um defensor do planeamento e até do protecionismo à escala europeia. Macron pretende poupar dinheiro em França, sim, com medidas de austeridade (que estão abaixo, contudo, da exigência daquelas que a esquerda apoia em Portugal). Isso faria com que ele não fosse a minha escolha eleitoral se eu fosse cidadão francês — a não ser contra uma fascista como Le Pen ou um conservador thatcherista como Fillon. Contudo, do ponto de vista português, não se pode criticar a Comissão por não exigir à França o cumprimento das metas do défice e criticar também um possível Presidente da França por dizer que as pretende cumprir.

No plano europeu, que é o que mais nos importa, Macron pretende reforçar a zona euro e proteger o mercado interno face à globalização. Eu sei, não é o que vos têm dito nas redes sociais, mas é o que se pode depreender de declarações que ele fez muito antes da campanha eleitoral sobre matérias tão diferentes como o dumping da siderurgia chinesa, ou lamentando a inexistência de gigantes europeus da Internet, ou criticando os britânicos e holandeses por tentarem bloquear as possibilidades de harmonização fiscal na UE, ou criticando os alemães por recusarem acompanhar a política monetária do BCE com mais investimento público nacional e europeu. É nesse sentido que vem a declaração dele com que iniciei este texto — “o mercado-livre é a não-política” — e que, convenhamos, o distancia bastante da caricatura que dele temos ouvido.

No debate de anteontem, Le Pen começou por atacar Macron como ultraliberal e acabou a atacá-lo como hiper-socialista. Como é fácil de ver, Macron não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. O mais provável é que não seja nenhuma delas. Da mesma forma, não se pode dizer sobre Macron que ele é um completo vazio político sem programa, e que tem um programa perigosíssimo. Que não vai mudar nada, e que vai mudar tudo para pior. E por aí adiante: o debate sobre Emmanuel Macron tem sido dominado mais pela caricatura do que pelo conteúdo.

Ora, se Macron se tornar presidente de um dos países mais importantes da UE, e um país que tem estado ausente do debate europeu por falta de comparência, vai ser preciso começar a fazer o trabalho de casa que até agora tem faltado. Não são as nossas caricaturas sobre Macron que vão chegar ao Eliseu. Para Portugal, e para vários outros países, será muito mais importante que nós façamos uma ideia mais realista sobre as suas ideias. Até segunda-feira, basta que ele não seja Marine Le Pen. A partir daí, teremos de ser mais exigentes com ele — mas também connosco.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico