A Livraria Cindinha abre uma última vez ao fim de 20 anos

Mais do que uma loja, a Cindinha da Igreja era um ponto de encontro para os habitantes da Vila de Joane, em Famalicão. Duas décadas depois de ter fechado, abre uma última vez este sábado.

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Entre os artigos que vão estar à venda encontram-se sebentas e cadernos de tabuadas DR
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Há 20 anos, fechavam-se as portas do número 82 na Avenida Pedro Hispano, em Famalicão. Era aí, na Livraria Cindinha, junto à igreja da Vila de Joane, que durante mais de três décadas os joanenses e os habitantes das freguesias vizinhas vinham comprar material escolar e produtos de papelaria que usavam na escola, lojas e escritórios da vila.

A livraria dos avós de Marcos Barbosa era, na verdade, uma mercearia onde se vendia também fruta, produtos de higiene e bebidas. A loja de Américo Matulo e de Gracinda Abreu, a compreensiva “Cindinha” que emprestou a alcunha ao estabelecimento, fechou em 1996 ainda com as prateleiras repletas de produtos que até agora estavam lá guardados.

Este sábado, o antigo proprietário faria 100 anos e para festejar o aniversário, o herdeiro da Cindinha vai voltar a abrir portas por um dia, antes de começarem os restauros que vão transformar o espaço numa guest house. A partir das 11h30, vai ser possível andar para trás no tempo para visitar a loja, “partilhar recordações e histórias” e adquirir algum do espólio que estava à venda há 20 anos, quando a Cindinha da Igreja fechou.

O neto, Marcos Barbosa, engenheiro industrial, diz que nas estantes ficaram esquecidos alguns achados de marcas antigas, portuguesas e internacionais, principalmente das décadas de 70 a 90 que agora raramente se encontram à venda. Salientou os guardanapos da Nokia, quando a multinacional ainda era uma fábrica de papel, os cadernos com as tabuadas e as sebentas escolares dos anos 40 e 50, livros de pintar e brinquedos da Majora, quadros em madeira e as famosas réguas “inquebráveis” da Molin, cadernos do Pierrot, frascos de champô da Palmolive com 30 anos e lápis de cor da centenária Viarco, a primeira fábrica de lápis em Portugal que começou em Vila do Conde e depois passou para São João da Madeira, onde ainda hoje continua a sua actividade.

Marcos Barbosa já não entrava no espaço há 15 anos até que há alguns meses teve a ideia de abrir uma última vez a loja que faz parte da memória colectiva da vila, como a do actual presidente da Junta, que quando ia começar a escola, entrou na loja para comprar um maço de papel milimétrico.

Américo Matulo, conhecido como o “resmungão” quando comparado com a simpatia e paciência da mulher, disse-lhe que só lhe vendia duas folhas. O jovem António José Oliveira, surpreendido, perguntou-lhe porquê e como resposta obteve a sua primeira lição: os tempos eram outros e se lhe vendesse a ele tudo, não ia ter papel suficiente para os amigos que também iam começar a escola.

Esta vai ser a última oportunidade para antigos clientes e coleccionadores entrarem na loja que o casal abriu em 1970 e que, para as pessoas da região, era mais “do que um estabelecimento comercial”. O neto dos antigos donos diz que está à espera de grande afluência ao local e que por isso existe a possibilidade das portas estarem abertas até depois das 19h30.  

Daqui a dois anos, o edifício construído em 1747 vai ser restaurado e volta a abrir portas, mas aí como um espaço de alojamento local. O novo negócio não vai obliterar o antigo ponto de encontro da região. Marcos Barbosa vai manter como nome o diminutivo que davam à avó, passa e vai expor algumas peças de espólio que não quis pôr à venda, “porque não têm preço”.  

Texto editado por Ana Fernandes