Refugiados: “Não podemos dizer às pessoas 'por favor, não entrem nesses barcos'. Não é uma questão de escolha”

Atravessou o Mediterrâneo e passou quatro dias e quatro noites a naufragar, com duas crianças ao colo. Esta não é uma história de ficção, é a história de Doaa.

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Doaa Al Zamel e Melissa Fleming Miguel Manso

Num segundo, Doaa Al Zamel estava com um bolo na mão para celebrar em família o dia da mãe, no outro, fugia de tiros e bombas, enfiando-se por becos e ruelas. Era uma adolescente que não queria saber de namorados, tímida, mas decidida – o seu sonho era ser advogada. Vivia com a família em Daraa, no Sudoeste da Síria, a 13 quilómetros da fronteira com a Jordânia. Foi lá que as manifestações contra o regime de Bashar al-Assad começaram, em 2011, e parecia a Doaa que o futuro começava a ser construído naquele mesmo instante, e ela queria fazer parte dele. Foi para a rua gritar, correu riscos, viu adolescentes como ela serem agredidos, levados pela polícia, cair mortos no chão. Viu depois a guerra rebentar na sua cidade e alastrar-se a toda a Síria, impondo-se tão dramaticamente que se tornou claro que seria para durar.

Em Novembro de 2012, os pais decidiram que estava na altura de partir – era a primeira vaga de refugiados a sair do país. Os Al Zamel fugiram para o Egipto, onde primeiro foram recebidos de braços abertos e depois, com a mudança de regime no Cairo, humilhados e tratados como fardos. Mas no meio da miséria e das saudades de casa, Doaa, então com 17 anos, encontrou Bassem, um ex-combatente do Exército de Libertação da Síria, que se opõe a Assad. Decidiram partir para a Europa. Na Suécia, acreditava Bassem, encontrariam a paz, o respeito pelos direitos humanos, emprego e aulas na universidade.

Doaa, que tinha fobia do mar, acabou por entrar num barco com o noivo – e mais cerca de 500 pessoas, não restando um centímetro quadrado de espaço vazio. Ao quarto dia de viagem, e depois de várias trocas de barcos em alto mar, uma embarcação de pesca, mais moderna do que aquela em que eles seguiam, aproximou-se, e a toda a velocidade foi embater, propositadamente, no barco apinhado de refugiados, que acabou por afundar. Bassem ainda conseguiu entregar-lhe uma boia azul e foi apoiada nela que, rodeada de cadáveres e destroços, Doaa passou quatro dias naufragada, sem água nem comida, e com dois bebés nos braços. Ao longo desses dias foi assistindo à morte dos poucos que tinham sobrevivido ao acidente, incluindo à do próprio Bassem. Acredita que só não morreu porque ficou agarrada à esperança de salvar as bebés. Quando finalmente apareceu o petroleiro que a resgatou, as três estavam ainda com vida (uma das meninas, Malak, acabou por não resistir e morreu horas depois de ser resgatada). Doaa acabou por chegar à Suécia, como sonhara Bassem, com a ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e a família que ainda estava no Egipto acabou por se juntar a ela.

A sua história comoveu Melissa Fleming, porta-voz do ACNUR, que decidiu contá-la no livro Uma Esperança Mais Forte do que o Mar (Porto Editora). Ambas estiveram em Portugal. Doaa tem agora 21 anos, mas à primeira vista parece quase uma criança. Fala suavemente, como se não quisesse incomodar ninguém. Conta que no livro há detalhes que nem a sua mãe conhece – só agora ficou completa a tradução para o árabe, e a própria Doaa ainda não o leu. “Eu ia guardar a dor para mim. Mas depois pensei que ao partilhar a minha história poderia ajudar outras pessoas, outros refugiados que estejam em circunstâncias parecidas”, afirma. “Estamos cansados da guerra, estamos cansados da destruição, estamos cansados de toda esta dor.”

Foi um exercício doloroso, mas Melissa Fleming acreditava “que seria positivo para ela falar sobre o que lhe tinha acontecido. Guardar tudo lá dentro não poderia ser bom.” Fez 70 horas de entrevistas com Dooa – “Havia momentos em que eu chorava mais do que ela. É uma coisa que não conseguimos sequer imaginar que seja possível alguém viver”. Foi à Jordânia e ao Líbano conhecer as irmãs mais velhas, que ali vivem como refugiadas, falou com a mãe e o pai.

Esta não é apenas mais uma história entre as milhares trazidas pelos refugiados que fazem a travessia do Mediterrâneo e que, enquanto porta-voz do ACNUR, Melissa Fleming ouviu em várias versões. Esta é, sob uma série de aspectos, uma história exemplar. “Através dela ficamos a conhecer o conflito sírio e como era a vida de uma família normal antes da guerra. Foi naquela cidade [Daraa] que começou a guerra e a Doaa foi uma das suas testemunhas. Foi manifestar-se para as ruas, viu tudo com os seus próprios olhos. Achei que isso era extremamente poderoso. Ela também fez parte da primeira vaga de refugiados. E nessa altura deu-se no Egipto um golpe [em Julho de 2013, o Presidente Mohamed Morsi foi afastado e substuituído pelo general Abdel Fattah el-Sisi]. Através da história dela também ficamos a conhecer o terrível negócio dos traficantes, que só visam o lucro e não querem saber das vidas humanas.” Também com Doaa “aprendemos sobre o poder do espírito humano. Há muitas pessoas que desistem, e em desespero despem os coletes salva-vidas e afogam-se. As coisas que ela testemunhou, a perda do amor da sua vida, e ainda ter a força de sobreviver para salvar aqueles bebés... É notável.”

Às vezes, Doaa ainda pensa que se pudesse voltaria para a Síria para lutar contra o regime. “Mas sei que não tenho capacidade para isso. Vou lutar contra o Governo como? Sou impotente. Mas talvez haja outras armas. Como este livro. Acho que só Deus nos pode ajudar”.

Doaa não quer com o livro evitar que as pessoas se lancem ao mar numa viagem que ninguém sabe como terminará – só em 2016 morreram mais de sete mil pessoas; este ano, quase 42 mil já atravessaram o Mediterrâneo e mais de 900 perderam a vida na viagem. “Quando a situação piora, não podemos dizer às pessoas 'por favor, não entrem nesses barcos e não arrisquem a vossa vida'. Não estamos a impedir isso porque não lhes dizemos 'nós ajudamo-vos, por isso não vão'. Não é uma questão de escolha.”

A porta-voz do ACNUR acrescenta: “Queríamos ver mais alternativas... Os países ricos precisam de se responsabilizar e aceitar mais refugiados através do programa de reinstalação, vistos para estudantes e outras medidas legais para que eles possam entrar em aviões em vez de barcos. É preciso mais investimento nos locais onde estão os refugiados – 86% estão nos países vizinhos [da Síria] – e ao mesmo tempo mais reinstalação, para aliviarmos o fardo e partilharmos responsabilidades.”

Em vez disso, Washington anunciou que iria reduzir para metade o programa de reinstalação de refugiados, de 100 mil para 50 mil por ano. “Os EUA estão a enviar uma mensagem para o resto do mundo. E esses 50 mil que restam não têm para onde ir. As pessoas que escolhemos para a reinstalação são pessoas particularmente vulneráveis, crianças que precisam de cuidados médicos, vítimas de tortura, mulheres que foram violadas e estão sozinhas com os filhos, homossexuais que vivem em países onde a homossexualidade não é tolerada. Precisamos que os países digam 'temos os meios para aceitar estas pessoas'. Há certos países que são exemplares, como o Canadá, mas a maioria dos líderes está com medo de fazer o que é certo e temem não ser eleitos.” Este é um erro de percepção, defende Melissa Fleming. “Se fizermos um inquérito às populações europeias a perguntar: 'Quer que o seu Governo acolha pessoas que estão a fugir da guerra e de perseguições?', cerca de 85%, com excepção da Hungria, diz que sim. Há tanta gente a perguntar 'o que podemos fazer?'. É preciso começar movimentos de solidariedade que mudem as cabeças dos políticos”.

Para Doaa, a questão até se coloca de uma forma simples: “Os países europeus têm que tratar os refugiados como seres humanos e darem-lhes os direitos que eles não tiveram nos seus países. Fazerem-nos sentir humanos.”

Na Suécia, Doaa ainda não se sente em casa. “Não há lugar nenhum do mundo que nos dê a sensação de estarmos no nosso país a não ser o nosso país. Mas há momentos na vida em que não temos escolha. Temos que andar em frente porque sabemos que algo de melhor vai acontecer.” Por isso, e porque ainda não desistiu de ser tornar advogada, estuda sueco intensivamente – “uma língua que é um mar infindável”. E por isso, ela, que tinha fobia da água, está agora a ter aulas de natação.