Opinião

A Global Media e o nosso homem em Macau

Paulo Baldaia disse-me um dia que ser jornalista é fazer perguntas. Aqui está uma: que negócio, afinal, foi este?

Numa época de profunda crise, não é prudente os meios de comunicação social atirarem pedras para os telhados de vidro do vizinho. Infelizmente, a democracia ressente-se disso: este pacto de não-hostilidade é, na prática, um pacto de silêncio, que leva a que os jornalistas não façam, em relação aos grupos de media, as perguntas básicas que fariam em relação a qualquer outra actividade política ou económica. Perguntas como: quem paga as contas, com que dinheiro, para quê e porquê?

Desde que a Controlinveste Media se transformou no Global Media Group, em 2014, e Daniel Proença de Carvalho assumiu o cargo de presidente do conselho de administração, o grupo tem vindo a beneficiar desse silêncio. Embora tenham surgido algumas notícias dispersas, ninguém parece interessado em investigar os investimentos na Global e as suas perplexidades. Em 2005, quando adquiriu a então Lusomundo Media, Joaquim Oliveira já havia desabafado que o negócio era mau: “Comprei um porco e arrisco-me a receber um leitão.” Desde então, só piorou. O grupo transformou-se num sorvedouro de dinheiro. O passivo em 2014 chegou a superar os 50 milhões de euros. Perplexidade 1: Mesmo com números desta ordem e o negócio principal (o papel) em queda vertiginosa, os investidores apareceram. Primeiro, foi o angolano António Mosquito, que em 2014 investiu mais de dez milhões de euros para ficar com 27,5% do capital. Agora, foi a empresa macaense KNJ Investment, que no fim de 2016 pagou 17,5 milhões para ficar com 30%. Perplexidade 2: a racionalidade económica do negócio é nula e ninguém percebe como tal investimento pode algum dia ser recuperado.

Perplexidade 3: Proença de Carvalho manteve-se sempre firme na presidência da Global Media, acumulando com a sua actividade de defensor das grandes figuras do regime: foi advogado de José Sócrates; é advogado de Dias Loureiro; o seu filho Francisco (sócio do seu escritório) é advogado de Ricardo Salgado. Perplexidade 4: Saíram notícias de escutas da Operação Marquês onde o actual director do Jornal de Notícias, Afonso Camões, conversa sobre lugares na direcção do DN e do JN com Sócrates no futuro Global Media Group, autodefinindo-se como “um general prussiano que não se amotina”. Proença nada disse sobre isso e Camões continuou director como se nada fosse.

Perplexidade 5: As movimentações accionistas via Macau não espantam apenas pela estranha empresa KNJ, que supostamente investe “na área do imobiliário, saúde e restauração” (entradas no Google sobre a KNJ Investment antes de 2016: zero). Quem se apresentou em Portugal como mediador do negócio entre Global e KNJ foi Paulo Rego. Em 2006, era José Sócrates primeiro-ministro, Paulo Rego foi nomeado director-adjunto da Lusa. Rego foi uma escolha surpreendente. Era à altura coordenador da revista Macau e tinha ligações a uma empresa de trading que levantaram dúvidas à ERC acerca da compatibilidade com a função de jornalista. Juntamente com o director Luís Miguel Viana, Paulo Rego dirigiu a Lusa numa das épocas mais governamentalizadas da sua história.

Perplexidade 6: Afonso Camões foi administrador da Lusa entre 2005 e 2009 e seu presidente entre 2009 e 2014, quando saiu para dirigir o JN. Afonso Camões viveu em Macau entre 1991 e 1999, onde foi, entre muitas outras coisas, administrador da Teledifusão de Macau (TDM) e director da revista Macau. Paulo Baldaia disse-me um dia que ser jornalista é fazer perguntas. Aqui está uma: que negócio, afinal, foi este?