Crítica

Venezuela, onde tudo é ficção

Retrato de uma Venezuela pré-apocalíptica, de um país onde tudo é ficção, mesmo a realidade, nos tempos do anúncio da doença de Hugo Chávez.

Alberto Barrera Tyszka, até agora inédito em Portugal, é um dos mais destacados escritores venezuelanos
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Alberto Barrera Tyszka, até agora inédito em Portugal, é um dos mais destacados escritores venezuelanos

Alberto Barrera Tyszka (n. 1960)­  até agora inédito em Portugal­  é um dos mais destacados escritores venezuelanos. Em 2005 publicou, em colaboração com a jornalista Cristina Marcano, a primeira biografia documentada do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez sin uniforme: Una historia personal. Dez anos depois, escreveu este romance agora traduzido, Pátria ou Morte­  vencedor do prémio Tusquets­  em que retrata um país na altura em que se soube da doença do presidente, uma Venezuela atenta aos noticiários como se todos estivessem sentados na sala de espera, ou no corredor de um hospital onde se avolumam os boatos e as interrogações; e ao mesmo tempo, Barrera Tyszka entra dentro do campo político analisando, de certa forma, os mecanismos que levam a que um governo eleito vá assumindo papéis despóticos, roçando muitas vezes a ideia de ditadura, de projecto totalitário, mas sublinhando sobretudo os rituais (ou como os camuflar) de silêncio sobre a doença do presidente, e como este exerceu esse controlo. “Mesmo frágil, obstinava-se em manter o controlo. Não deixou que lhe roubassem o protagonismo. (…) Acabara de enviar, também, outra mensagem, deixando claro que a única voz autorizada para falar do seu corpo era a sua. Que era ele o único dono da sua doença. Que governava, também, sobre o saber clínico, sobre a ciência, sobre o que podia saber-se, e dizer-se, acerca da sua saúde.”

Em Pátria ou Morte há uma história principal que se vai desenvolvendo ao mesmo tempo que, e em capítulos intercalados, progridem outras histórias paralelas, mas que aos poucos vão surgindo integradas na primeira. Dois irmãos, ambos com mais de setenta anos, Miguel e Antonio, são o fio condutor de uma trama (pouco exigente) que nos vai traçando o retrato de uma Venezuela em conflito, pré-apocalíptica, onde “tudo é ficção, mesmo a realidade”, onde nada é normal, um país sempre à beira da explosão­  mas que nunca explodia, pior ainda, ia “explodindo lentamente, pouco a pouco, sem que disso ninguém se apercebesse”. Miguel, o irmão mais novo, professor de medicina, recém-reformado, passara os últimos anos a viver na margem da realidade, evitando os conflitos, demarcando-se dos radicais de ambos os lados, e acreditando que mais tarde ou mais cedo tudo voltaria à normalidade. Mas, por essa altura, começou a ter vontade de chorar durante a madrugada: no fundo, estava cansado da História, sentia que lhe restava apenas “administrar a destruição”; é a ele que o sobrinho entrega um telemóvel com um vídeo em que Hugo Chávez aparece, filmado às escondidas no hospital em Cuba. Antonio, o irmão mais velho, era o oposto: fora comunista em jovem, agora era ‘chavista’, e para ele a revolução bolivariana “era uma droga dura, uma espécie de estimulante ideológico, uma forma de voltar à juventude”. Quando falavam evitavam ambos a política como assunto.

As personagens de Alberto Barrera Tyszka são gente da classe média, ou profissionais liberais, gente desiludida que afronta um Chávez moribundo, gente que toma decisões que podem ser perigosas para a sua integridade física. São gente que vive os dias com o sussurro do tempo: “Não confies em ninguém”, e que se interroga sobre o que foi feito dos biliões do petróleo, que não acredita que serviram para ajudar os pobres. Personagens que vivem muito perto da paranóia, que tiram os filhos da escola e os encerram em casa para que não morram com um tiro na rua, crianças cuja única ligação ao mundo é a Internet. Tudo isto ao mesmo tempo que Chávez é operado em Cuba, e nada se sabe nada do seu estado clínico, o que deixa o país apoplético; ele que quis ser o eixo de tudo, da nação, da História, da vida pública e privada dos cidadãos, prossegue o seu exercício do seu leito no hospital cubano.

Pátria ou Morte não é, obviamente, um romance apenas sobre Hugo Chávez e os seus mecanismos de culto da personalidade, mas é também o retrato de uma classe social desnorteada, com sentimentos de culpa, de impotência, de raiva, porque sabe que “às vezes, os problemas não podem solucionar-se”, e que desconfia seriamente que a Venezuela é um desses problemas.

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