Condições em que muitos migrantes vivem podem levar a transmissão de doenças

Especialista apela à acção dos decisores políticos europeus.

Uma mulher e uma criança no campo de refugiados de Idomeni, na fronteira da Grécia com a Macedónia.
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Uma mulher e uma criança no campo de refugiados de Idomeni, na fronteira da Grécia com a Macedónia. Reuters/© Marko Djurica / Reuters

A investigadora do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) Ana Requena Méndez adverte que as condições em que muito migrantes são forçados a viver podem estar relacionadas com a transmissão de doenças como a tuberculose.

Ana Requena Méndez é uma das participantes no 4.º Congresso Nacional de Medicina Tropical e 1.º Encontro Lusófono de Sida, Tuberculose e Doenças Oportunistas, promovido pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), que decorre entre quarta e sexta-feira em Lisboa.

O IHMT adianta, num comunicado divulgado nesta sexta-feira, que a mobilidade da população é o principal motor de muitos desafios globais de doenças, particularmente as infecciosas.

Sobre este tema, Ana Requena Méndez afirma, numa comunicação divulgada pelo instituto, que os hábitos culturais não influenciam a disseminação de doenças, mas outros factores, como as condições em que muitos migrantes são forçados a viver, podem estar relacionados com a transmissão de certas doenças como a tuberculose. "Estão a ser tomadas medidas para proteger a saúde dos refugiados e dos migrantes", diz a médica, sublinhando que é "a saúde deles" que "está em risco, não a saúde dos cidadãos da União Europeia".

Para Ana Requena Méndez, as melhores práticas em matéria de prestação de cuidados aos migrantes vulneráveis e aos refugiados devem ser uma prioridade para os decisores políticos. Defende ainda que a promoção da saúde, o rastreio e a gestão de doenças crónicas em migrantes vulneráveis e refugiados devem ser facilitadas através de serviços integrados nos serviços primários.

No caso das crianças migrantes, o IHMT refere que a principal importância das doenças infecciosas está relacionada com a grande mobilidade das pessoas por zonas endémicas de algumas patologias, e pela não-existência ou o não-cumprimento de um plano de vacinação abrangente por essas populações.

Na comunicação subordinada ao tema "Migrantes, doenças infecciosas e as crianças", a presidente do Conselho do IHMT e ex-ministra da Saúde, durante os Governos de José Sócrates, Ana Jorge, realça que "a variabilidade dos planos de vacinação dos países e as diferenças de acesso têm uma enorme importância.

"No entanto, Portugal tem um sistema em que o acesso aos cuidados de saúde está facilitado", mas "nem sempre é do conhecimento de quem precisa", sublinha a médica pediatra.

Para Ana Jorge, a informação aos profissionais de saúde é outro dos aspectos que tem de ser considerado para que o acesso seja garantido. O facto de alguns migrantes serem oriundos de zonas de guerra e viverem com grandes dificuldades socio-económicas influencia também esta realidade, sublinha a especialista.

Para o presidente do congresso, Miguel Viveiros, "estas problemáticas e desafios actuais, que afectam hoje a saúde global, exigem um conhecimento aprofundado dos principais determinantes de saúde e factores de risco para a saúde dos migrantes e seus impactos nos países de acolhimento, na busca de soluções efectivas baseadas na evidência".