Crítica

A cidade inquietante

Uma experiência da cidade que a torna um lugar estranho, onde caos e cosmos coincidem, é a matéria deste livro de Daniel Jonas.

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Um poeta imprevisível e um prestidigitador da palavra poética

Duas notas iniciais informam-nos sobre as circunstâncias de onde nasceu este livro. A primeira diz que Canícula foi dominantemente escrito currente calamo [isto é, ao correr da pena] durante a residência artística ‘Casa Palavra’ que, em parceria com a Casa Fernando Pessoa e a Fundação José Saramago, teve lugar em Junho de 2016, no âmbito do Festival Silêncio”; e a segunda fornece uma morada: “Escrito em Junho de 2016 no 3º D do nº 46 da Rua da Boavista, Lisboa”. E é justo dizer “morada”, apelando a respeitáveis evocações literárias, e não, por exemplo, endereço, já que esta poesia elabora exclusivamente uma experiência do habitar a casa e a cidade. Ao entrar neste livro, através destas notas, o leitor fica a saber que acede a uma poesia de circunstância. É de circunstância toda a poesia que estabelece uma via directa que vai da vida e das suas contingências - datas e lugares - até ela. Não é por estes lados que tem andado até agora Daniel Jonas. Mas não seria nada insólito vê-lo a entrar nesses territórios porque é um poeta imprevisível e um prestidigitador da palavra poética. Cada livro seu é diferente de todos os anteriores. E este não é apenas diferente dos anteriores, é também diferente de si mesmo: a circunstância de onde têm origem estes poemas­ - a data e o lugar que os inscreve­ - irá ser, em grande parte, apagada ou ocultada por eles.

Este livro não é uma recolha de poemas, não é um conjunto de peças mais ou menos autónomas. É uma unidade com um começo, um desenvolvimento e um fim. Tem a estrutura de uma ficção narrativa mas é muito mais narrativo por efeito do encadeamento dos poemas do que pelas marcas propriamente narrativas dos poemas em si, sempre à beira de ficarem anuladas por uma força emotiva e reflexiva que as interrompe. Exemplar quanto a este aspecto é o poema mais longo deste livro, que se estende por dez páginas. É um poema poderosíssimo, alucinante no seu ritmo, por onde desfilam as fantasmagorias de uma cidade transfigurada por um “promeneur solitaire” (que não é o mesmo que um flâneur), apreendida do lado das suas implicações metafísicas, nada de psicologia. Cito o início desse poema: “Vou subindo vagaroso./ Vou escalando a custo rumo a todo o lado/ gemendo ser todas as coisas/ todos os mundos/ costurando o meu caminho preso aos óleos/ namorando o elevador/ surpreendido no polaroid do turista/ alpino sobre a Bica”. E porque há um crescendo, algumas estrofes mais à frente a tensão aumentou: “Eu quero que a cidade sofra de não ser eu,/ Que os campos desistam de me sofrer./ Que as bolsas capitulem, que os patos grasnem,/ que as silvas valsem, que os tempos mudem./ Eu sou o vosso messias que se distraiu por um par de pernas,/ um messias que se perdeu por um rabo de saia/ e persegue a sua cruz nem convicto nem ausente/ e arfando cai nas pedras como o amante decadente”. O furor da cidade anónima e a decomposição a que a imaginação poética a submete suscitam imagens de horror, como em Baudelaire (Paris, “horrible ville!”), mas também a passagem para um plano abstracto -­ a cidade pensada do ponto de vista da consciência do poeta e como uma ideia.

É inevitável lembrar Baudelaire: porque a cidade de Daniel Jonas adquire muitas vezes um carácter alegórico e porque a “canícula” é um equivalente do spleen baudelairiano: é, digamos assim, uma afecção e uma disposição existencial. Tal como o spleen definia uma situação histórica (o nihilismo moderno), que ficava exposta por uma atmosfera onde triunfa o tédio, a forma estática do eterno retorno do mesmo, assim a canícula define uma condição que expõe algo muito mais profundo, que diz respeito ao ambiente urbano e histórico, do que a simples condição meteorológica. A palavra “tédio” surge alguma vezes ao longo do livro; e do spleen há uma ocorrência “idiomática”, numa palavra composta, “spleenódromo”. A canícula é uma espécie de ausência de aura e de peso do tempo (histórico e meteorológico), é um espírito que afecta todas as coisas, retirando-lhes realidade e fazendo-as emergir sob o signo da estranheza radical. A interpenetração do interior e do exterior, da consciência do poeta e do caos urbano, do dado objectivo e da subjectividade formadora de imagens inquietantes: estas polaridades tornam-se neste livro uma regra de engendramento. Fácil é perceber porque é que ao contrário do anunciado estamos longe de uma poesia de circunstância. De resto, a Lisboa de Daniel Jonas (ou melhor, a zona estrita de Lisboa por onde ele deambula) nunca é objecto de descrição. Há nomes que se referem objectivamente a ela (por exemplo, Bica), mas não há detalhes concretos, não há qualquer grau de precisão, não há o pitoresco nem qualquer outra forma de representação que convide ao ao reconhecimento. Esta cidade, mesmo quando não tende para a abstracção, para uma dimensão alegórica, ergue-se num plano longínquo. O poeta, “promeneur solitaire”, habita-a sem a habitar, experimenta-a numa relação de estranheza.

A potência deste livro de Daniel Jonas (talvez o melhor dele, o que não é dizer pouco, ou pelo menos aquele onde se atingem picos superiores, como é o caso do poema longo, do qual citei apenas alguns versos) está precisamente no seu poder de transfiguração, numa imaginação (no sentido literal de criação de imagens) que cria verdadeiramente um novo mundo. Nada aqui é familiar. E o mecanismo de estranhamento (não digo “estranheza” porque quero assim designar a produção de um efeito, aquele de que a palavra poética é capaz) começa logo nos primeiros versos do livro. Eles “narram” a entrada em casa, a experiência de um hóspede que tem uma desconfiança em relação à casa: “Entrei na casa e soube/ que não era a primeira vez/ nem a minha primeira vez/ apenas a nossa primeira vez em nós/ na nossa habitação conjunta;/ os meus sentimentos frios com ela (...)”. Mais à frente, a frieza adquire uma dimensão mais forte e a casa ganha um carácter sinistro: “Esta casa sarcófago, lápide, avalanche/ erosão de vida, buraco branco na explosão de coisa nenhuma,/ corrosão infecta, enfermaria, anestésica/ do que eu fosse e me curasse,/ choque estelar e cósmica comédia de silêncio”. Produzir o estranhamento, apreender o sinistro no familiar: é essa a tarefa da poesia.