John Rambo nunca chegou a morrer — mas isso estava no plano original

Na primeira versão do argumento de Rambo: A Fúria do Herói, a personagem principal suicidava-se. O realizador do clássico filme de acção explica o que estava por trás dessa ideia.

Sylvester Stallone interpretou o papel do veterano de guerra John Rambo
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Sylvester Stallone interpretou o papel do veterano de guerra John Rambo SUSANA VERA

O filme Rambo: A Fúria do Herói é um dos mais populares filmes protagonizados por Sylvester Stallone. O sucesso do clássico de acção resultou num franchise com três sequelas, videojogos e até uma inesperada série de animação. Contudo, provavelmente nada disto seria possível se o realizador do primeiro filme, Ted Kotcheff, se tivesse mantido fiel ao final que tinha planeado originalmente.

Adaptação de First Blood, Rambo: A Fúria do Herói poderia ter seguido um caminho semelhante ao do livro de David Morrell. Na obra literária, as personagens de John Rambo e do xerife Will Teasle morrem — e Ted Kotcheff queria um destino idêntico para o veterano de guerra na versão cinematográfica.

Nesse desenlace original, Rambo, profundamente abalado, provoca a sua própria morte ao causar o disparo da arma do coronel Trautman, que a apontava a contra o seu abdómen. Esta conclusão alternativa do filme já é conhecida do público, mas com o lançamento da autobiografia de Ted Kotcheff, Director’s Cut: My Life in Film, o realizador revelou mais detalhes acerca das decisões que tomou relativamente ao filme.

Em entrevista à Entertainment Weekly, Kotcheff explica a história por trás da ideia original e admite que Kirk Douglas foi inicialmente selecionado para interpretar a personagem do coronel Trautman. Segundo o realizador canadiano, a ideia da morte de John Rambo no filme tinha como motivo a investigação que ele próprio tinha feito sobre o tratamento dado aos veteranos norte-americanos da Guerra do Vietname.

“Eu fiz muita pesquisa sobre os veteranos do Vietname. Eles eram tratados muitos mal, terrivelmente mesmo”, conta Ted Kotcheff. “Em guerras anteriores como a Segunda Guerra Mundial – eu lembro-me porque sou assim tão velho – eles [veteranos] eram recebidos com bandas marciais. Eram tratados como heróis. Os veteranos do Vietname foram vilificados e rejeitados. (…) Muitos dos veteranos voltavam a casa para se aperceberem que não havia lugar para eles.”

“É isto que acontece com o Rambo”, continuou Kotcheff. “Foi por isso que concebi Rambo: A Fúria do Herói como uma missão suicida. O filme foi basicamente concebido como a tragédia do Rambo, que espelhava a tragédia de tantos veteranos com quem falei. Eu conheci homens que mais tarde se mataram. A tragédia dele espelhava a tragédia deles, e de como eles tinha chegado à triste decisão de se matarem.”

Relativamente à substituição de Kirk Douglas por Richard Crenna para a personagem de Trautman, Kotcheff justifica a sua opção com o comportamento de Kirk Douglas. O realizador canadiano descreve a estrela de cinema como “um homem estranho”, que falava sobre si na terceira pessoa.

“Ele participou mesmo no início, quando começámos as gravações. Se tivesse ficado, teria estado envolvido na cena em que Rambo se suicida”, contextualiza Kotcheff. “Era uma grande estrela. Nós queríamos satisfazer todas as suas vontades. Enviei-lhe o guião quando ele estava a actuar numa peça em São Francisco. Adorou-o e disse que queria participar. Depois, quando chegou ao local das gravações, começou a discutir mesmo antes de começarmos a gravar. ‘Esta frase tem de ser mudada.’ ‘Não gosto desta cena.’”. Até que Kotcheff pediu para dispensar Kirk Douglas (pai do também actor Michael Douglas).