Último boletim: quase dois terços da Grande Barreira de Coral estão a morrer

Em Março, os cientistas sobrevoaram os corais da Austrália. E voltam a alertar que o aquecimento global está a matá-los.

Um novo levantamento aéreo dos corais realizado durante Março, e divulgado esta segunda-feira, confirmou o que os cientistas temiam: os recifes da Grande Barreira de Coral estão a ser atingidos pelo fenómeno de branqueamento em massa pelo segundo ano consecutivo. O ciclone Debbie, no final de Março, veio agravar ainda mais o branqueamento de corais. A parte norte da barreira já tinha sido afectada por este fenómeno em 2016 e, agora, não só essa região voltou a ser atingida como se alastrou principalmente para a parte central. Quase dois terços da Grande Barreira de Coral estão assim a ficar brancos porque as microalgas que vivem com eles se foram embora e, por isso, os corais estão em situação crítica.

É a primeira vez que a Grande Barreira de Coral passa por este processo dois anos seguidos. Observado pela primeira vez nos anos 80, o branqueamento em massa dos corais aconteceu em 1998, em 2002 e em 2016. O branqueamento dos corais ocorre quando a água do mar aquece mais do que seria de esperar. Devido a isso, as algas que vivem em simbiose com os corais, e que lhes dão cor, começam a produzir substâncias tóxicas e deixam de fazer a fotossíntese. Os corais expulsam as algas e a cor esbranquiçada do seu esqueleto fica visível. Além de os deixar esbranquiçados, este fenómeno pode levá-los à morte. Caso a temperatura volte a baixar, os corais afectados por um branqueamento moderado ainda conseguem sobreviver, mas se isso não acontecer morrem mesmo.

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A Grande Barreira de Coral teve o seu primeiro branqueamento em massa em 1998, sobretudo na zona costeira da Austrália, sendo nessa altura mais intenso nas zonas do centro e do sul da Grande Barreira. O segundo episódio de branqueamento foi em 2002, afectando os recifes ao largo da costa na região do centro (que antes tinham escapado). E em 2016 observou-se o maior branqueamento em massa de sempre, que teve grande gravidade nas regiões do norte. Ao todo, só nesse ano, cerca de 90% dos corais tinham sido, de alguma forma, afectados pelo branqueamento. Desses, 67% faziam parte da zona norte da Grande Barreira de Coral.

Em 2017, já foram observados cerca de 800 recifes de corais individuais numa área de 8000 quilómetros, em levantamentos aéreos, além de mergulhos. Verificou-se que o branqueamento está a afectar também os corais que, na parte norte, tinham conseguido escapar ao branqueamento de 2016 e agora alastrou-se para o centro da Grande Barreira de Coral, a mais atingida em 2017. Juntando 2016 e 2017, os cientistas do ARC – Centro de Excelência para o Estudo dos Recifes de Coral, na Austrália, afirmam que foram afectados 1500 quilómetros dos 2400 quilómetros da Grande Barreira de Coral, escapando apenas a parte sul.

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ARC CENTRO DE EXCELÊNCIA PARA O ESTUDO DOS RECIFES DE CORAL

A principal causa dos branqueamentos em massa chama-se “aquecimento global”. “O branqueamento é causado pelo aumento recorde de temperaturas provocado pelo aquecimento global. Este ano, estamos a ver um branqueamento em massa, mesmo sem a ajuda das condições do El Niño”, salienta, em comunicado do ARC, o seu director Terry Hughes, acrescentando que é preciso diminuir as emissões de carbono.

“Esta é a quarta vez que a Grande Barreira de Coral tem um branqueamento grave – em 1998, 2002, 2016 e agora e 2017”, sublinha por sua vez James Kerry, do ARC – Centro de Excelência para o Estudo dos Recifes de Coral e que participou nos levantamentos aéreos. “Os corais branqueados não estão necessariamente mortos, mas na região central antecipamos níveis grandes de perdas de corais. Mesmo os corais que crescem mais depressa levam pelo menos uma década a recuperar, por isso um branqueamento em massa separado por 12 meses tem zero hipóteses de recuperação para os recifes que foram danificados em 2016.”

Têm sido apontados alguns fenómenos que têm contribuído para o branqueamento de corais. Em 2016, o El Niño, um fenómeno de transporte de massas de água quente desde a Austrália até às costas da América do Sul, tinha contribuído para o aquecimento da água e, por isso, para o branqueamento dos corais. Este ano, o El Niño ainda não deixou estragos, mas fala-se agora do contributo do ciclone Debbie, que afectou o Nordeste da Austrália e da Nova Zelândia no final de Março. Este ciclone, intenso e que se movimentou de forma mais lenta, fez estragos ao longo de 100 quilómetros. E matou pelo menos seis pessoas.

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ARC CENTRO DE EXCELÊNCIA PARA O ESTUDO DOS RECIFES DE CORAL

A divulgação destes levantamentos aéreos é a última actualização da situação dos corais e confirma as previsões de alguns cientistas, que já vinham a dizer que em 2017 iríamos estar perante um novo branqueamento em massa.

Pedro Rodrigues Frade, biólogo português que se encontra a estudar corais na Austrália, afirmava ao PÚBLICO em Março: “Infelizmente, parece que o fenómeno está a repetir-se este ano, o que irá estabelecer um novo paradigma. Isto indica que este fenómeno destrutivo está a ocorrer a uma frequência ainda maior do que aquela estimada pelos piores cenários calculados por modelos científicos, e que têm apontado para um total colapso de todos os recifes de coral daqui a 30 anos.”