Crítica

Não dá vontade de rir

Por um lado lamenta-se do absurdo da existência humana, por outro acredita na redenção universal através do amor, num excelente álbum que é tanto sobre ele como sobre o mundo enfermo dos nossos dias.

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O diagnóstico tragicamente cómico sobre o estado do mundo Ocidental, que é desenhado em Pure Comedy, o terceiro álbum do americano Josh Tillman como Father John Misty, não constitui novidade. Ao longo dos últimos anos muita gente foi alinhando pelas mesmas coordenadas, expondo que caminhamos, sonâmbulos, para o abismo. E à medida que os acontecimentos se vão sucedendo (Trump, Brexit, entretenimento estupidificante, consumismo predatório, formas perversas de capitalismo, vazio político, escapismo religioso ou tecnológico) reina à volta uma paradoxal indolência onde todos gritam mas sem que ideias alternativas válidas se consigam impor. Resultado? O protesto torna-se normalizador.

A novidade, no seu caso, é a forma como mistura uma série de referências (individuais ou universais, populares ou eruditas, de Platão a Taylor Swift) acabando por traçar o seu ideário particular sobre as enfermidades do seu e nosso mundo. Fá-lo com talento, sempre naquela linha nem sempre inteligível onde o afastamento do olhar se confunde com a mais desarmante sinceridade. Josh Tillman não tem soluções óbvias para oferecer. Reflecte, disseca e comenta. Mas a farsa que expõe acaba por, paradoxalmente, reforçar a sua crença na humanidade como saída para os nós por desatar do mundo, desde que cada um seja capaz de assumir que se encontra tão perdido como todos os outros. É desse horizonte de esperança no amor universal que também se alimentam estas canções.

“The comedy of man starts like this”, canta ele na faixa-título que abre o álbum: Our brains are way too big for our mothers’ hips. E depois são treze canções trágico-cómicas onde o personagem da canção Ballad of the dying man consulta o mural da sua rede social para ver o que irá perder depois da sua morte, onde os políticos são goons e clows, a arte contemporânea é satirizada (“If it’s a fraud or art, they’ll pay you to believe”) e até os seus admiradores visados (“I’m merely a minor fascination to manic virginal lust and college dudes”). E claro o próprio também não se poupa. “Oh great, that’s just what we all need / another white guy in 2017 who takes himself so goddamn seriously”, canta em Leaving L.A., o longo tema que é central no disco, como se aí reforçasse os laços confessionais com a tentativa de reflectir a comunidade.

Tematicamente é um álbum que começa onde o anterior ficava (em especial as canções Holy nothing e Bored in the U.S.A.) e musicalmente também, com o piano e a guitarra acústica a desenharem o nervo das canções, com os arranjos subtis ou grandiosos, e a tonalidade austera da voz fazendo por vezes lembrar a forma como Cohen a utilizava. Os temas resultam tão despidos quanto barrocos, com traços de folk, soul ou rock, num disco que não é de fácil digestão. Exige paciência. As melodias e as estruturas não são óbvias. As letras têm várias camadas de leitura. Mas quando nos é devolvido por inteiro, revela-se em toda a sua riqueza.

É uma obra que se alimenta do absurdo e dos detritos sociais dos últimos tempos, mas que é capaz de nos devolver a partir daí também beleza e intensidade, como na última balada, In Twenty years or so, com ele a cantar que “It’s a miracle to be alive” e There’s nothing to fear. Não são canções que dêem vontade de rir. Mas são importantes de ouvir.