Crítica

Enquanto uns choram outros vendem lenços, diz o povo

A dança é, aqui, reduzida ao seu essencial: o poder do corpo em levar-nos aonde as palavras não chegam.

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Terça-feira: tudo o que é sólido dissolve-se no ar ALÍPIO PADILHA
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Terça-feira: tudo o que é sólido dissolve-se no ar ALÍPIO PADILHA

Um homem e uma mulher retiram do interior da boca um extenso fio branco, e com ele traçam desenhos sobre a arena forrada a negro, sobrelevado no palco: figuras gráficas que animam manualmente, como cartoons, dialogam com frases curtas, projectadas num ciclorama, e sons artesanais gravados em directo desde duas consolas colocadas em pequenas mesas a ladear a arena: respirações ofegantes, murmúrios, um badalo, água que se agita num garrafão, o tilintar de moedas, o ar sorvido por um aspirador. Com precisão de relojoeiro, destas conjugações brotam, desde o primeiro instante, densas teias e surpreendentes nexos.

Com o fio, o homem torneia o corpo da mulher inerte sobre o chão. Levanta-se, e vemos em seu lugar, delineado a branco, o corpo de uma menina. “Este não é o meu corpo. O meu nome não é Omar. Eu não tenho dez anos”, lemos em fundo, e escutamos um som de respiração ofegante que, perceberemos, é o do passo acelerado da criança síria em trânsito num grupo de refugiados.

Accionado o gatilho de uma ficção a reportar ao real, entramos nos pensamentos de Omar durante o seu trajecto. A menina é, porém, o sujeito impreciso de uma história de tempo e espaço ambíguos, feita de micronarrativas em aberto, onde imaginário poético, factos actuais, e investigação histórica se cruzam. A relação da criança com o mundo é directa, sensorial e presentificada; o texto, engenhoso, entra e sai do seu ponto de vista, fala-nos do que Omar “não sabe” e do que “poderia ter sido a sua história se…”. Ela desconhece os massacres e êxodos que antecederam o seu; a genealogia que liga a expansão do cristianismo à promessa de uma terra entre o Nilo e o Eufrates e ao conflito israelo-árabe; ou a família Espírito Santo à família Rothschild, os contactos com Salazar, para instalar o lar judaico no planalto de Benguela; que existe em Portugal uma loja a vender máscaras de refugiados para o Carnaval; que 2017 é o centenário da revolução bolchevique e das aparições de Fátima; as disputas pelo controlo dos cursos de água; que a sofisticada colónia artística israelita de Ein Hod, rebaptizou a aldeia palestina de Ein Hawd de onde a população pobre foi retirada. “Nada sabe” dos labirintos político-económicos que movem o mundo, nem da expressão portuguesa que diz “enquanto uns choram outros vendem lenços”.

O subtítulo da peça (tudo o que é sólido dissolve-se no ar), retirado do Manifesto Comunista (Marx & Engels, 1848), reflecte o compromisso dos criadores em recontextualizar a crítica ao capitalismo nos dias de hoje. Cláudia Dias (Lisboa, 1972) e Luca Bellezze (Itália, 1978), num sóbrio underacting, colocam-se com modéstia ao serviço de uma causa humanista maior. Longe do panfletismo, a dramaturgia (algum trabalho de edição pós-estreia quiçá necessário) recorre a um eloquentíssimo encadeado de alegorias subtis e metáforas fabulosas: o som ampliado de um brinquedo mecânico redunda na antevisão de um bombardeamento; desfeitos os fios brancos que desenhavam a cidade, os despojos são sugados pelo aspirador que a mulher manipula com a displicência do gesto quotidiano trivial; com um isqueiro ateiam fogo às linhas do planisfério e os continentes do planeta desaparecem sob um rastilho de pólvora.

Parte do projecto Sete Anos, Sete Peças (iniciado em 2016, com Segunda feira, atenção à direita), Terça-feira…é uma declinação sobre um temário e estilo idiomático de singular coerência (patente em Visita Guiada, 2005, Das Coisas Nascem Coisas, 2008, ou Vontade de ter Vontade, 2012): com dispositivos mínimos, imaginação fulgurante e um implacável sentido de depuração, Dias constrói a eficácia comunicativa máxima. Neste ponto alguns questionarão se o que vimos é dança. Esta é uma pergunta menor. Também ela é, aqui, reduzida ao seu essencial: o poder do corpo em levar-nos aonde as palavras não chegam.