Nick Willing
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Paula Rego: As histórias que ela nunca contou

Aos 80 anos, a pintora Paula Rego, por hábito reservada, decidiu que ia falar da sua vida ao filho mais novo, Nick Willing, contar-lhe a sua história, assombrada por memórias várias. O resultado é um documentário de uma honestidade brutal que agora chega a Portugal. Um filme que deu uma exposição.

Fala quase sempre de forma serena, mas, de vez em quando, a energia vital, a irreverência, a (auto-)ironia e a subversão que nos habituámos a reconhecer na sua pintura vêm ao de cima para tornar qualquer conversa absolutamente desconcertante e até divertida, por mais cru que o tema seja à partida. Quer se trate da sua obra ou da sua vida, naquilo que de mais íntimo pode ter uma história, parece ser sempre imensa a sua capacidade de transgressão, a sua força interior. Vida e obra, aliás, é coisa que não distingue – Paula Rego é o que faz, é isso que a define, e o que pinta é aquilo que conhece, que experimentou. Mesmo quando o ponto de partida é um conto tradicional, um romance de Charlotte Brontë, Eça de Queirós ou Hélia Correia, a pintora está sempre lá, muitas vezes naquelas mulheres a quem acontecem coisas terríveis que ela conta como se fossem triviais, naquelas cenas domésticas que têm sempre muito mais do que se vê e deixam quem olha inquieto.

Paula Rego: Toda a gente esconde coisas, em casa, no trabalho… E eu escondo no que pinto, nos bonecos. Escondo e não escondo, porque quando estou a pintar estou a mostrar, só que não se vê logo. Às vezes só quando se fala é que se vê, não é Lila?

Paula Rego é assim, em discurso directo. Lila Nunes é a sua principal modelo há 30 anos e adivinha-lhe os gestos, as palavras, está habituada a seguir à risca as suas indicações. “A Lila sou eu noutra pessoa”, diz, como se essa alteridade quase infantil fosse evidente para toda a gente.

Para tentar levantar um pouco do véu que cobre a sua pintura é preciso fazer-lhe muitas perguntas e deixá-la falar sem entraves, levando a conversa para onde quiser, e mesmo assim é bem possível não chegar a entrar naquilo a que Nick Willing, o mais novo dos seus três filhos, chama “o mistério da mãe”.  

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A família, de 1988, evoca a doença de Victor Willing, a quem foi diagnosticada esclerose múltipla em meados da década de 1960. É ele o homem que elas ajudam a vestir DR

Para os filhos, Paula Rego, hoje com 82 anos, sempre foi um enigma enquanto mãe e artista. Para se aproximar desse enigma, e porque há três ou quatro anos a situação das obras em depósito na Casa das Histórias, museu de Cascais dedicado à artista, levou a que passasse mais tempo com ela, Nick Willing resolveu fazer o documentário que agora se estreia em Portugal, Paula Rego, Histórias & Segredos (4 de Abril na Fundação Gulbenkian, dois dias depois em sala) e que serve de guião a uma exposição biográfica que é inaugurada a 7 de Abril (ver texto nesta edição).

O Ípsilon esteve com os dois no atelier de Paula Rego, em Londres, espécie de mundo encantado onde constrói os cenários que hoje usa para pintar, tantas vezes ancorados nas suas memórias de infância. É um espaço com muita luz, cheio de adereços, peças de roupa, bonecos de esponja e de pasta de papel que a artista molda com Lila ou que são feitos pelas netas (são cinco, não tem netos) e por outros artistas (entre eles um dos genros, Ron Mueck). Há pinturas e desenhos por toda a parte em cavaletes e encostados às paredes. Paula Rego circula entre eles como se pairasse a poucos centímetros do chão.

Foram duas horas e meia de conversa que passaram por muitos dos temas que o documentário e a exposição abordam: a solidão da infância; o sentimento de abandono (até aos dois anos e meio viveu com os avós paternos, enquanto os pais moravam em Inglaterra); a relação de grande proximidade com o pai e de distância com a mãe; os anos duríssimos de Londres e da Slade School of Fine Art, onde não se dava espaço à fantasia e onde o que os melhores alunos queriam era dormir com ela; a conturbada história de amor com o marido, o pintor Victor Willing (1928-1988); as várias gravidezes a que pôs fim antes do nascimento da sua primeira filha, Caroline; as infidelidades; a depressão que diz sentir desde criança mas que foi particularmente aguda em 2007; a perda da fortuna familiar logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, que a obrigou a vender a quinta dos avós na Ericeira; o reconhecimento tardio da sua obra; a doença do marido; a importância do trabalho.

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Paula Rego com os pais, José e Maria de São José Figueiroa Rego, 1935 DR

Paula Rego: Ali tenho os desenhos que fiz quando caí no Natal, na casa da minha filha Caroline, na ilha de Wight. Fiquei toda cheia de nódoas negras, esmurrada, fui para o hospital e tudo.

Sentada, de chávena de chá na mão e recentemente acordada da sesta que costuma fazer depois do almoço (trabalha todos os dias da semana, à excepção da quarta-feira, de manhã ao final da tarde), a pintora aponta para umas pinturas de pequeno formato em que se reconhece, sem esforço, o rosto de quem não é dada a auto-retratos tão explícitos. Porquê fazê-los agora?

Paula Rego: Nunca gostei de auto-retratos, porque nunca gostei da minha cara. É feia. Mas quando caí a minha cara ficou com aquelas marcas todas, torta, passou a ter uma história para contar e, por isso, pintei-a.

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Nick Willing com a mãe, Paula Rego, no atelier da pintora, em Londres. A seu lado alguns dos bonecos que ela usa para trabalhar. Fazer este documentário foi um desafio porque parte de uma história verdadeira, diz o realizador Nick Willing

A seu lado, Nick acena com a cabeça como quem concorda. “Sem história não há desenho”, diz num português quase sem falhas que tem praticado sobretudo nos últimos anos. Ele sabe do que fala, porque na infância e na adolescência desenhavam juntos. “Eram tempos preciosos, porque a mãe estava muito pouco tempo connosco.” Nick refere-se a ele e às irmãs mais velhas, Caroline e Victoria Camilla, esta última com um segundo nome que Paula Rego pediu emprestado à Condessa de Ségur (“A Victoria é Camilla por causa d’As Meninas Exemplares, sabia?”). Elas aparecem no filme a falar desta mulher habitualmente reservada que, aos 80 anos, resolveu expor a sua intimidade como antes nunca fizera, e para uma câmara, tendo o filho como interlocutor e primeiro destinatário.

Paula Rego: Foi fácil falar disto tudo, porque era o Nick que estava a ouvir e ele é meu amigo. Sempre me senti próxima dele, sempre desenhámos os dois. Ainda tenho todos os desenhos que o Nick fez, quando estava no colégio interno.

É talvez a relação entre a figura retratada e quem a retrata que faz deste Histórias & Segredos um documento ainda mais poderoso, por vezes perturbador, que importa ver para melhor compreender Paula Rego e o que ela faz.

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Nick Willing filmando a mãe a trabalhar DR

Um filme sem guião

Nick Willing, 55 anos, trabalhou sem um guião definido, deixando que fosse a vida da mãe a ditar a direcção que o documentário tomaria. Para ele era inédito fazer um filme que não partisse de uma ficção saída da sua cabeça.  

“Aos 80 anos, e para minha surpresa, a mãe aceitou falar da sua vida comigo e começou a contar-me histórias que nunca me tinha contado ou que nunca me tinha contado daquela maneira, sem truques”, diz, dando como exemplo o relato do primeiro contacto sexual entre Paula Rego e Victor (Vic) Willing, quando ambos eram ainda alunos na Slade, ele sete anos mais velho, casado, ela ainda virgem.

Os dois estavam numa festa, a que Paula Rego fora porque estava interessada num outro colega, que não chegou a prestar-lhe atenção nessa noite, recorda a pintora no documentário. A dado momento sentiu que Vic a seguia, ordenando-lhe em seguida que entrasse num pequeno quarto da casa, vazio, e que baixasse as cuecas.

Paula Rego: E eu obedeci, como, aliás, fazia sempre. Quando eu posava para ele, também obedecia. Obedeci a vida toda.

Nick Willing: Mas a Paula também fazia o que queria…

Paula Rego: Sim, mas sobretudo obedecia – à minha avó, à minha mãe… Fiz sempre o que se esperava de mim. Até nesse dia na festa. E o Vic nem sequer me chamou um táxi depois.

Perguntamos-lhe se sentiu aquela primeira relação sexual com Vic Willing como uma violação e Paula Rego demora-se na resposta, evitando a palavra.

Paula Rego: Toda aquela violência de estar ali com alguém que eu não conhecia bem, mas admirava… Era tudo muito cru, senti-me muito atrapalhada. A minha alegria foi encontrar um táxi. Desde aí que adoro os taxistas de Londres. Lembro-me de ir todo o caminho a tremer.

Nick Willing: Mas quando nos contavas, em crianças, como tu e o pai se tinham conhecido era muito romântico, só falavas da festa…

Paula Rego: Romântico?! De romântico não teve nada. Não devia ter-te contado, era pessoal.

Quando ouviu o relato não editado, Nick Willing sentiu-se revoltado e teve dificuldade em reconhecer o seu próprio pai. Mas Vic é também o homem que Paula Rego sempre amou, a pessoa que melhor compreendia o seu trabalho e que a aconselhava, mesmo quando a doença o afectava (foi-lhe diagnosticada esclerose múltipla em meados dos anos 1960, o que fez com que, progressivamente, fosse perdendo a capacidade de pintar e de se movimentar). 

Paula Rego: Fiquei muito comovida com o filme do Nick. Ver o meu marido a dançar, a minha mãe viva… Foi tão bonito. Sou mesmo eu…

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Paula Rego em 1967, com 32 anos Manuela Morais
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Paula Rego com o marido, o pintor inglês Victor Willing DR

O estúdio como santuário

Vic Willing é uma presença central, ainda hoje. De 1957 a 1962, vive com Paula Rego e os filhos de ambos na quinta da família na Ericeira e, entre 1962 e 1974 passa a dividir o tempo entre esta vila piscatória nos arredores de Lisboa e Londres, assumindo pelo meio a gestão da fábrica de componentes electrónicos que o sogro, um engenheiro electrotécnico que trabalhara para a Marconi, tinha deixado. Victor era um pintor, não um empresário, e isso rapidamente se tornou evidente – a forma como conduziu os negócios e a própria revolução levaram a família à falência, com Paula Rego a ver-se obrigada a vender quase todo o património familiar e a mudar-se definitivamente para Inglaterra.

Os anos da Ericeira foram catastróficos para Victor Willing, que não conseguia trabalhar, embora apreciasse o ritmo da vida à beira-mar. Francis Bacon, artista e amigo do pintor que tantas vezes lhe pagou o pequeno-almoço em Londres para que Vic não ficasse o dia todo sem comer, desaconselhou-o a permanecer em Portugal, recorda Paula Rego.

“Lembro-me de um dia estar sentado no terraço depois do almoço. Tinha sido um almoço simples mas delicioso, muito à portuguesa: peixe grelhado comprado na praia nessa manhã, pão acabado de cozer, vinho da região; a Paula tinha voltado para o atelier, eu estava a ler The Sunday Times (com quatro dias de atraso), Caroline, a nossa filha mais velha, estava a brincar com as bonecas ao sol. E de repente percebi: Santo Deus, é isso exactamente! As pessoas trabalham toda a vida para chegarem a esta situação, e aqui estou eu, jovem e saudável, a usufruir de tudo isto agora — e, no entanto, sei que alguma coisa está errada na minha vida”, reconheceu o pintor numa entrevista ao crítico de arte John McEwen, uma das pessoas que mais e melhor têm escrito sobre Paula Rego e a sua obra.

Menos concentrado na pintura do que a mulher, Vic acabava por ter mais tempo para as crianças.

No estúdio que tinham na Ericeira, recorda agora o filho, ninguém tinha autorização para entrar quando ambos estavam a trabalhar, separados por uma cortina. “Se queríamos pedir ou mostrar qualquer coisa, tínhamos de pôr os desenhos e os bilhetinhos por baixo da porta.” Nick, Victoria, hoje actriz, e Caroline, autora de contos para crianças, viam o atelier como “um santuário”.

É Victoria que diz, no filme, que os três sabiam que, naquela história – a do pai e da mãe –, não eram personagens principais. Na leitura que faz da sua vida, Paula Rego era primeiro a artista, depois a mulher de Vic Willing e só depois a mãe.

Paula Rego: Sim, era assim. Eu não tratava deles e é por isso que eram mais próximos do pai.

Nick Willing: O pai é que estava mais presente, é que se preocupava com os livros que líamos, com a escola em que andávamos…

Victoria chega a acrescentar que havia um muro entre Paula Rego e os filhos.

Paula Rego: Nunca senti isso. Bom, a Victoria então… Quando ela mamava, chupava tanto que de certeza não havia muro nenhum entre as duas. Ainda bem que eu lhe dava de mamar a ver televisão, se não desmaiava.

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Paula Rego no seu atelier em Londres LILA NUNES

Nick Willing: Quando fala no muro, a Vic está a falar de uma certa distância, mãe.

Paula Rego: Ah, isso havia. Quando eu estava a trabalhar, eles não podiam ir lá falar comigo.

Uma Claudia Cardinale

Essa distância estendia-se, por vezes, a Vic Willing. Tanto Paula Rego como o marido tiveram relações extraconjugais.

Paula Rego: Eu estava sempre com medo que ele se fosse embora. Mas era muito bom pintor o meu marido. E bonito, inteligente..

Numa ocasião, conta a pintora, chegou a surpreendê-lo a beijar uma convidada na sala da casa da Ericeira e, ao contar o sucedido a uma amiga muito próxima do casal, ficou a saber que também ela se sentia traída e porquê.

Paula Rego: Eu desci as escadas e ali estava ele aos beijos com uma mulher muito bonita que parecia a Claudia Cardinale. Até eu percebi porque é que o Vic queria agarrá-la, mas fiquei desolada na mesma.

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Cães de Barcelona, 1965, pintura em que Paula Rego diz vingar-se de uma mulher que viu Vic beijar na sala da casa da Ericeira Colecção João Rendeiro

Essa mulher que lembrava a estrela do cinema italiano é evocada numa das obras mais importantes do seu percurso, Os cães de Barcelona (1965), e os amantes de Paula Rego surgem na pintura Os mártires (1968).

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Em Os Mártires, de 1968, Paula Rego evoca os seus amantes Colecção particular

Paula Rego: Nos anos 50 e 60 era assim, todos dormiam com todos, mas magoava. Tudo era muito erótico. Desenhar é uma actividade erótica.

Nos anos da Slade, recorda, essa liberdade contrastava com a situação que se vivia em Portugal, mergulhado numa ditadura, em que, escreve a socióloga Isabel Freire no catálogo da exposição, havia um fortíssimo escrutínio político e social da intimidade e em que o autoritarismo também se exercia sobre a sexualidade da mulher (o Código Civil vigente na altura permitia ao homem pedir a anulação do contrato matrimonial, caso se verificasse que a mulher não tinha chegado virgem ao casamento).

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Pintura do tríptico da série Aborto, 1998, conjunto de obras que a artista faz a partir da sua experiência e da indignação que lhe provoca o resultado do primeiro referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez em Portugal Cortesia: Abbot Hall Art Gallery

Paula Rego: Em Portugal nunca teria sido assim, porque não podia ir a lado nenhum sozinha. Mas em Londres fiz vários abortos, porque os homens não se preocupavam. Ia-se a um médico do Soho que resolvia o assunto. Não me atreveria a regressar a casa com um bebé. A minha mãe matava-me.

Não se atrevia até ao dia em que se atreveu.

Paula Rego: Depois chegou uma altura em que estava outra vez grávida do meu marido, que ainda não era meu marido, e quis ficar com o bebé…

Nick Willing: E ligaste ao vovô e houve aquela viagem bonita, não foi?

Paula Rego: Sim, liguei ao meu pai e ele em dois dias estava em Londres para me salvar. Voltámos de carro para Portugal, a parar nos hotéis e a comer gelados, a ouvir ópera o tempo todo e a conversar. Eu tinha tanto medo da reacção da minha mãe quando chegasse… E aí o meu pai quis sossegar-me e disse: “Não te preocupes com a tua mãe que ela já gritou muito na praia.” Era muito meu amigo o meu pai.

Mesmo sabendo que Paula Rego decidira ter a sua filha, Victor Willing resolveu ficar com a sua primeira mulher. Só mais tarde escreveu ao pai da pintora a pedir-lhe para se juntar a elas.

Despedida comovente

No tríptico O Pescador (2005), a artista homenageia o pai, também ele assombrado por depressões várias e, por isso, representado com uma coroa de espinhos. Nesta obra recorda, por exemplo, as pescarias no cabo da Roca e as vezes em que José Figueiroa Rego lhe leu O Inferno, de Dante. “O meu pai (…) passou um mau bocado, coitado. Não falava. Voltava para casa, jantava sem dizer uma palavra, depois levantava-se e ligava o rádio, a BBC, para ouvir as notícias, porque só era possível saber pela BBC Internacional o que realmente se estava a passar em Portugal, pois aqui vivia-se no meio de mentiras”, diz a artista no documentário realizado pelo filho.

Paula Rego: O meu pai morreu [em 1966] sem ver a revolução, o que é triste. A minha mãe, que era muito chique, educava-me para aceitar as coisas. Acho que nunca tive com ela uma conversa que valesse a pena, sobre coisas importantes. O meu pai ensinava-me a pensar por mim, a fazer o que eu queria. Eu gostava muito dele, muito, muito, muito.

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A dança, uma das obras em que Paula Rego se despede do marido, Victor Willing. É ele o primeiro homem que aparece, à esquerda, dançando com outra mulher. A cena passa-se na Ericeira e evoca também os tempos que a família ali viveu Cortesia: Tate Britain
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Partida, 1988, obra do ano em que Victor Willing morre, depois de uma longa doença. É ele quem, de malas feitas, se deixa pentear DR

A depressão, de que fala abertamente no documentário, mostrando a série de pinturas que fez em 2007 para a “espantar”, é outro dos pontos de contacto que tem com José Figueiroa Rego, que ela viu morrer.

Sente saudades do pai, como sente saudades de Vic.

Paula Rego: Ninguém percebe melhor o que eu faço do que o meu marido. O Vic era tão brilhante que eu tinha medo de falar ao pé dele. As saudades que eu sinto são muitas, muitas, nunca acabam.

No filme lê-se a carta que Victor Willing lhe deixa ao morrer, em 1988: “A maior parte de mim já se foi embora”, escreve, “confia em ti mesma, (…) sei que vais pintar ainda melhor”.

O pintor estava confinado a uma cama e, segundo o filho, tentara matar-se um ano antes. A doença de Vic Willing, com um desfecho previsível, está na base de várias obras de Paula Rego, da série Mulher cão a A família (1988), passando por Partida (1988) e A dança (1988), despedidas comoventes.

Paula Rego: Podemos amar muito uma pessoa e ser-lhe infiel. Com o Vic foi assim. Eu ainda o amo profundamente.

Sentado a seu lado, Nick Willing sorri, recordando em seguida as longas conversas e gargalhadas com a mãe nas tardes de sábado, quando estavam a preparar este filme.

Nick Willing: O desafio aqui foi contar uma história verdadeira. Além disso, às vezes a Paula é muito difícil de ler até para mim, que conheço tudo o que ela fez desde que eu nasci. Mas a maneira que tenho de me ligar à mãe é falar das obras. A mãe e as pinturas são a mesma coisa. Não há diferenças.