Crítica

Pequeno festival sado-maso

A Criada é um pequeno festival sado-maso a chamar a atenção para si mesmo.

<i>A Criada</i>: um empolamento constante, cenas a mais
Fotogaleria
A Criada: um empolamento constante, cenas a mais
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

É verdade que não esquecemos o polvo devorado vivo em Old Boy (o filme que, em 2003, revelou Park Chan-Wook), imagens que ficaram como símbolo do delírio selvático desse filme, e da sua capacidade de dar a violência num grand guignol, teatral e alegórico como as carnificinas de algumas peças de Shakespeare. Também se vê um polvo em A Criada, mas está num aquário e ninguém lhe toca, embora não perca por isso o seu valor de “auto-citação”.

Porque, para o resto, duvidamos: A Criada é um pequeno festival sado-maso, em plena consciência (o próprio Marquês é citado pelas personagens), onde abundam as sevícias psicológicas e físicas (lembram-se do que acontecia ao dedo de Kirk Douglas no Big Sky de Hawks? Multipliquem isso por uma mão inteira), mas tem-se a curiosa, e perniciosa, sensação, de que essa dimensão existe como ingrediente desnecessário, apenas um tempero invasivo a chamar a atenção sobre si mesmo, “show off” se trocarmos a linguagem da culinária pela linguagem do espectáculo.

Claro que esse excesso é, digamos, constitutivo do estilo de Park Chan Wook; o problema é que, no caso de A Criada, que até tem uma boa história (adaptada de um romance da britânica Sarah Waters, e ambientada na Coreia dominada pelo Japão, nos anos 30), o efeito acaba por ser distractivo, inchando o filme num empolamento constante que fatalmente resulta em cenas a mais, detalhes a mais, personagens a mais, e capacidade a menos para envolver tudo num novelo em que todos os fios façam igual sentido.

É uma história de vigarices, conspirações, vinganças e, como se dizia dantes, “amor sáfico”, disposta num esquema narrativo minimamente engenhoso em que os progressivos avanços e recuos no tempo vão mudando o olhar sobre as personagens e sobre a intriga, e dar-se-ia bem com os ambientes moralmente viscosos das melhores tradições do “noir”.  Pedia outro tipo de concentração, tanto mais que as duas actrizes (uma delas é Kim Min-Hee, actriz de Hong Sang-Soo em Lugar Certo, História Errada) têm a força suficiente para explorarem bem as cambiantes da relação entre elas, e entre elas e o espectador. Assim, é um filme que vive de “momentos” e, se calhar como acontece com Old Boy, daqui a quinze anos estaremos a falar de A Criada só a partir de umas quantas imagens fortes de coisas a serem devoradas — polvos não, como já vimos, mas talvez os chupa-chupas.