Entrevista

Um povo a tentar uma vida normal

Prazeres sob Ocupação, de Tanya Habjouqa, dá-nos uma perspectiva alternativa dos territórios palestinianos: foge à imagem da violência e do sofrimento. É uma das exposições principais do festival Estação Imagem Viana do Castelo, que arranca a 3 de Abril.

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Da série "Prazeres Sob Ocupação" Tanya Habjouqa

Depois de ter estudado Antropologia nos EUA, Tanya Habjouqa (meia jordana, meia texana) andou a saltar entre dois universos da fotografia. De um lado, havia professores que lhe diziam que era demasiado “conceptual”, muito “artística”, de outro, professores que lhe apontavam o dedo por ser demasiado “documental”, muito “jornalística”. Entrou numa crise de identidade. Até descobrir um livro na sala de um professor de arte que viria a mudar a sua vida, Bored Couples, do fotógrafo britânico Martin Parr, que a fez pender mais para um lado (documental), mas sempre com um olho no outro. Ficou “agarrada” ao humor negro de Parr, que mistura etnografia, antropologia e comédia. Não é de estranhar, por isso, que cite também o realizador palestiniano Elia Suleiman como outra das suas referências. O absurdo do quotidiano israelo-palestiniano presente em Intervenção Divina (2002) liga na perfeição com o sarcasmo refinado do livro de Martin Parr, nos “silêncios ensurdecedores” entre casais. E se quisermos traçar uma genealogia do ensaio de Tanya Habjouqa (Jordânia, 1975) Prazeres sob Ocupação — construído desde 2009 nos territórios palestinianos (Cisjordânia e Gaza), e que capta a procura de uma vida normal em lugares mergulhados em circunstâncias exepcionais — podemos dizer que a dupla Parr/Suleiman são os seus ascendentes directos.

Habjouqa, repórter da agência Noor e do colectivo Rawiya, mostrará no festival Estação Imagem Viana do Castelo Prazeres sob Ocupação (Museu de Artes Decorativas, entre 4 de Abril e 4 de Maio), o trabalho que maior visibilidade internacional lhe deu, reconhecido com um prémio World Press Photo.

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Tanya Habjouqa, repórter da agência Noor e do colectivo Rawiya, mostrará Prazeres sob Ocupação (Museu de Artes Decorativas, entre 4 de Abril e 4 de Maio): capta a procura de uma vida normal em lugares mergulhados em circunstâncias exepcionais Laura Boushnak

Conversa por email, no meio de viagens e lamentos por não poder vir a Portugal conversar sobre imagens que nos mostram um povo para além do sofrimento e da violência, pessoas para além dos estereótipos.

Prazeres sob Ocupação é uma tentativa de mostrar o quanto somos iguais na procura de uma “vida normal”?
Diria que é uma tentativa de lembrar que nem todos têm direitos iguais. Mostra também até que ponto os palestinianos sob ocupação se esforçarão para conseguir ter um vislumbre de normalidade — a humanidade na recusa de que a sua existência seja unicamente definida pelo sofrimento.

Percebi que o nome Prazeres sob Ocupação desempenhou um papel importante neste trabalho, ao agregar imagens em torno de um conceito cheio de duplos sentidos, de ironia e humor. Alguém lhe chamou uma “epifania”.
Cada contador de histórias tem as suas inspirações. Os nomes e os títulos são coisas que realmente me estimulam. O título de uma canção, de um poema, um provérbio, um slogan, ou mesmo um lugar-comum podem suscitar uma sucessão de ideias. Aquilo que senti ao fotografar, por exemplo, o absurdo presente na cerimónia de casamento de um homem palestiniano e de uma mulher jordana dentro dos túneis de Gaza já tinha a essência deste trabalho. Mas isto aconteceu sem me dar conta. Depois, quando dei um nome àquilo que estava a fazer foi como se tivesse acontecido um momento eureka, que me deu ainda mais motivação para continuar. De repente, esta série tornou-se mais tangível.

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Tanya Habjouqa

Neste trabalho as mulheres parecem assumir um papel mais importante na tentativa de organizar o quotidiano. Os homens aparecem em menor número. O que determinou esta escolha?
Essa visão é interessante até porque não me propus fotografar mais mulheres e procurei a maior diversidade possível para representar a sociedade palestiniana: a secular, a cristã, a muçulmana; homens, mulheres, meninas e meninos; várias classes económicas; vida na aldeia, vida no campo de refugiado, nas cidades... Mas dei comigo a gravitar mais em torno das mulheres. Ao concentrar-me nelas, consigo abrir portas para todos os sectores da sociedade — homens e crianças, também. São elas que lutam com mais frequência para garantir um sentido de normalidade em vidas e famílias desestabilizadas.

Acredita que esta iconografia do absurdo, do humor e de ironia também ajuda a manter intacta a identidade de um povo?
Para responder a esta pergunta tenho de falar de um dos meus cineastas favoritos, o realizador palestiniano Elia Suleiman. Quando vi o filme Intervenção Divina, há bem mais de uma década, fiquei com uma boa perspectiva não só da sociedade palestiniana, mas também da região. O humor negro e subtil permite mostrar coisas e acontecimentos que não podemos controlar. Dá-nos um entendimento racional do absurdo que nos rodeia.

O humor também nos ajuda a manter a dignidade em situações indignas. A sociedade palestiniana é rica e não deve ser vista apenas pelo prisma da ocupação. Se olharmos para velhos provérbios palestinianos encontramos frases ásperas e humorísticas para todo o tipo de situações.

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Tanya Habjouqa

Cita Martin Parr como uma das suas influências em Prazeres sob Ocupação. O que a inspirou em concreto?
Houve um livro que mudou a minha vida na universidade: Bored Couples, de Martin Parr. A minha licenciatura era de Antropologia, mas não havia especialização em fotografia documental na Universidade do Texas, onde estudei. Nessa altura, tive uma crise de identidade, vagueando entre cursos de fotografia artística e de jornalismo. Num era acusada de ser demasiado “conceptual”, no outro era apontada por ser demasiado “jornalística”. Um dia, na sala de um professor de arte descobri Bored Couples e fiquei agarrada. É humorístico, negro, terrível e carinhoso, fala sobre o estado da humanidade, sobre relacionamentos. É terno e horrível ao mesmo tempo, tem etnografia, antropologia e comédia. Descobrir este livro foi muito libertador. 

Está a usar uma das maiores armas de criação de estereótipos, a fotografia, justamente para tentar contrariá-los. Pensa no perigo de estar a contribuir para a construção de outro tipo de estereótipos baseados na ideia de que nos territórios ocupados afinal a vida não é assim tão má?
Esse foi um aspecto que me preocupou muito. E, na verdade, à medida que fui abrindo portas para as várias “palestinas”, esse medo de estereotipar foi algo que tive de controlar, de tentar amenizar. A ironia é que, se eu estivesse ali para falar de dor ou de injustiça, teria sido muito mais fácil. É preciso muito mais confiança para entrar na intimidade e na vida privada das pessoas. Tentei ter sempre muito cuidado e utilizei todo tipo de detalhes e nuances políticas, quer na escolha das imagens, quer na legendagem dando o maior contexto possível. Para mostrar um lugar tão conotado com imagens de sofrimento — nos principais media ocidentais todos os palestinianos são tratados com pouco contexto e como autores ou vítimas de violência — senti que este diálogo cuidado era essencial.

Vê a tentativa dos palestinianos levarem uma vida normal como um acto de resistência? Sente-se a participar nesse acto com este trabalho?
O meu trabalho documental é sobre pessoas, sociedades, conflitos, nunca é sobre mim. É cansativo ouvir jornalistas a falar na primeira pessoa quando estão a cobrir conflitos que afectam outras pessoas. No entanto, há uma zona cinzenta nesta questão para mim, tendo em conta que o meu marido e filhos são palestinianos. Mas têm passaportes israelitas, são cidadãos israelo-palestinianos. Vivemos, por isso, com mais “normalidade” e direitos do que aqueles que estão sob ocupação, não estamos sujeitos ao mesmo tipo de indignidades nem às mesmas limitações de movimentos ou direitos humanos.

Às vezes, a resistência passa por procurarmos ser dignificados e recusarmos que o racismo nos mude ou nos defina de maneira significativa. Há pouco tempo, numa fronteira, eu e a minha filha de cinco anos fomos sujeitas a excessivas revistas de bagagem. Até que a minha filha perguntou por que é que estavam a revistar-nos as malas outra vez. E eu disse em voz alta “Porque eles sentem que devem ter medo de nós, mamã.” A senhora do controlo de bagagens empalideceu, o meu comentário foi certeiro. Ensinar a minha filha a definir-se como uma palestiniana e incentivá-la a celebrar a riqueza da sua cultura e, ao mesmo tempo, explicar-lhe o mundo que a rodeia é, de alguma maneira, um acto de resistência. Tenho de deixar crescer sentimentos de humanidade e compreensão na minha filha e pedir-lhe que mantenha o orgulho, que compreenda a injustiça, mas que ame a liberdade. Ao crescer entre a Jordânia e o Texas, nos EUA, nunca fui alvo directo de racismo. Mas com a América de Trump isso pode mudar.

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E como foi a reacção dos palestinianos a Prazeres sob Ocupação?
Diria que houve 90% de reacções positivas entre palestinianos dentro e fora do território. Recebi muitos emails de desconhecidos apenas com a palavra “obrigado”, ou mensagens do tipo “obrigado por nos permitir olhar para nós mesmos... aqueles em que nos reconhecemos”. As pessoas são complexas, a sociedade é complexa, especialmente na sua dimensão política. É impossível captar todas as facetas de um assunto. Mas sinto-me orgulhosa por ter tido uma resposta tão positiva. De outro modo, para mim, o trabalho teria sido um fracasso.

No momento em que lançou o livro sobre este trabalho desejou que ele potenciasse “o início de uma conversa”. Isso acabou por acontecer?
[Suspiro] Bem, eles ainda estão ocupados... estou a brincar. Não estava à espera que o livro mudasse alguma coisa de fundamental, mas esperava que conseguisse criar algum diálogo. O certo é que o livro fez com que fosse a universidades, museus, galerias e seminários por todo o mundo. Por isso, acho que provocou diálogo, mas não tanto como gostaria.

No ano passado o Rawiya deixou de ser um colectivo feminino. Porque mudaram o critério de entrada?
Cito uma das minhas frases preferidas de Germain Greer, uma inspiradora académica feminista: “O oposto do patriarcado não é o matriarcado, mas a fraternidade.” Para instigar a mudança social e política na região [Médio Oriente], os homens e as mulheres devem trabalhar juntos. Os homens a quem pedimos para se juntarem a nós são excelentes seres humanos e fotógrafos. São feministas, claro. E humanistas. Percebemos que nos estávamos a auto-orientalizar, a fechar-nos numa caixa. A ideia do Rawiya surgiu para nos ajudar a pôr o nosso trabalho no mapa. Mas, para serem relevantes, todas as ideias devem abrir-se e procurar inspiração na mudança.

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Tanya Habjouqa

Este ano, esteve envolvida na escolha dos prémios World Press Photo. Defendeu a fotografia vencedora?
Assinei um contrato de confidencialidade, por isso não posso avançar muito sobre este assunto. Mas quero dizer o seguinte: não foi uma decisão nada fácil... foi dura. E, no fundo, a escolha foi determinada, uma vez mais, pela fotografia que provocaria maior debate. A imagem vencedora encerra questões fascinantes acerca do papel dos media e da actual realidade geopolítica. Foi mais uma conversa sobre o [papel] do atacante na fotografia, uivando a sua indignação, gritando por Aleppo, talvez motivado pelas mesmas imagens de crianças a sofrer em Aleppo que estivemos a julgar.