Um duelo de palavras entre estudantes e PNR

Manifestação tensa depois de cancelamento de conferência de Jaime Nogueira Pinto na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

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LUSA/MANUEL DE ALMEIDA
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A polémica sobre o cancelamento da conferência organizada pelo grupo Nova Portugalidade reacendeu-se nesta terça-feira à porta da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH). O Partido Nacional Renovador (PNR) marcou uma manifestação que teve como resposta uma série de iniciativas no interior da faculdade e a presença de algumas dezenas de alunos no exterior. O protesto tinha como lema "contra o totalitarismo do pensamento único e pela liberdade de expressão para todos".

Cerca de uma dezena de membros do PNR estiveram em minoria perante algumas dezenas de estudantes universitários. De um lado, dos alunos, ouviram-se slogans e cânticos, que iam de “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais” à música Grândola, Vila Morena de Zeca Afonso. O movimento nacionalista respondia com o hino nacional e frases como “liberdade de expressão, direito da Nação” ou com alguns membros vestidos com fatos, máscaras e pulverizadores agrícolas para fazer uma "limpeza, uma desparasitação do marxismo". “O discurso é: nós estamos a crescer. É uma questão de tempo”, dizia ainda um dos manifestantes ao microfone. As palavras de ordem e os cânticos foram intervalados por insultos e troca de argumentos.

Os confrontos verbais entre os apoiantes do PNR e os estudantes da FCSH obrigaram a um reforço policial, que chegou ao local cerca das 18h30, tendo sido encerrado o trânsito na Avenida de Berna.

Mas o dia de iniciativas na FCSH começou ao início da tarde no interior da faculdade, num ambiente mais tranquilo, com a realização de debates, leituras de poesia e momentos musicais. Um dos intervenientes na iniciativa foi Daniel Cardoso, professor auxiliar da FCSH, que explicou ao PÚBLICO que não houve uma organização do evento, mas um “grupo de pessoas que viu os acontecimentos das últimas semanas que decidiu por iniciativa própria mobilizar-se para fazer uma espécie de contra-manifestação”. “Isto é motivado pela presença de uma força alegadamente partidária, mas que na verdade é uma força fascista e racista”, defendeu Daniel Cardoso.

Presença notada foi também a de Fernando Rosas, historiador, antigo deputado do Bloco de Esquerda e também professor na FCSH, que garantiu ao PÚBLICO que sempre foi “solidário com a decisão do director” aquando da suspensão da conferência organizada pelo grupo Nova Portugalidade e que contaria com a presença do historiador Jaime Nogueira Pinto, afirmando que esta situação “nada teve que ver com a liberdade de expressão”. “É preciso perceber que esta escola sempre foi absolutamente um espaço de pluralismo e liberdade, da esquerda, da direita, dos neoliberais, dos críticos, até de orientações religiosas”, realça. “Esta campanha que foi lançada é uma campanha infame”, acusa Rosas. “Estamos aqui para mostrar que, apesar de termos uma manifestação de extrema-direita à porta, estamos tranquilos”, conclui Fernando Rosas.

No entanto, assim que os membros do PNR chegaram à porta da faculdade, os alunos acorreram à rua e iniciou-se troca de cânticos e insultos. Por vezes, os ânimos ficaram exaltados e a tensão durou mais de duas horas, até os manifestantes começarem a desmobilizar.

Um dos momentos de maior tensão surgiu quando foram lançados alguns objectos, um dos quais um pino de estrada que atingiu um membro do PNR. José Pinto Coelho, líder da organização, visivelmente exaltado, ainda tentou despir o cinto para defender a honra do grupo, tendo sido acalmado e agarrado por outros membros do PNR e da polícia. A partir daí manteve-se na maioria do tempo de braços cruzados e de olhar atento em direcção aos “adversários”. “São uns cobardes que já atiraram pedras, já atiraram cones que estão na rua. Já agrediram. São uns cobardes, que só aceitam a liberdade de expressão para eles”, asseverou Pinto Coelho aos jornalistas, negando que a organização defenda quaisquer valores xenófobos e racistas. “Esses valores são inventados por eles como forma de censura para calarem as pessoas”, justificou.

Sobre as razões da presença do partido, Pinto Coelho diz que a manifestação se deveu ao “cancelamento de uma conferência do Jaime Nogueira Pinto, mandada pela extrema-esquerda que domina a faculdade”, afirmando que apenas o “PNR teve a coragem de vir para a rua verbalizar aquilo que muita gente pensa”. “Porque em Portugal esta extrema-esquerda, estes comunistas, mandam neste país e há uma direitinha inútil, com o CDS e o PSD, que nada fazem e encolhe-se. E eles têm de perceber que com o nacionalismo esbarram. Nós temos coragem, o nacionalismo está a crescer”, atirou Pinto Coelho.

Um dos membros com máscara e pulverizador era Pedro Perestrelo, responsável do núcleo de Oeiras e conselheiro nacional do PNR, que disse ao PÚBLICO que estava a “desparasitar a faculdade que tem muitos parasitas”.

Do outro lado, as provocações tinham como alvo preferencial Pinto Coelho. Uma das pessoas presente nesta contra-manifestação era Emanuel Teixeira, antigo aluno da FCSH, que diz que esteve no local “em nome próprio”, não representando nenhuma organização, esclarecendo que a sua presença foi motivada por “um exercício de cidadania e de liberdade”. “Preocupa-me este tipo de movimentos, quando meia dúzia de pessoas conseguem ter tanta visibilidade e potenciar um movimento que na prática é residual”, reforça Emanuel Teixeira. “Para mim é reconfortante ver que, nos tempos que correm, a afirmação pela liberdade não foi esquecida”, diz o antigo aluno da FCSH e um dos mais entusiastas no grupo de estudantes que se opôs ao protesto dos nacionalistas. Sobre a polémica em causa, Emanuel Teixeira acredita que tudo foi iniciado “acima de tudo por uma desinformação”, culpabilizando, neste aspecto e em grande medida, “os jornalistas”.