Novos professores tutores querem mudar comportamentos

Cerca de 1200 já receberam formação. Têm a seu cargo alunos do 2.º e 3.º ciclo do ensino básico, com pelo menos duas retenções no percurso escolar. Falámos com três professores tutores que explicam como funciona o programa que entrou em vigor neste ano lectivo.

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Filipe Silva: "É um grande desafio porque trabalhamos com alunos pouco motivados" Miguel Manso
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Isabel Trigueiros: "Nestes alunos há que promover a mudança comportamental, o que não é de todo tarefa fácil" paulo pimenta
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Maria José Amorim: "O tutor deverá ser um adulto de referência que facilite uma nova forma de comunicação" Adriano Miranda

Não cair na tentação de dar conselhos, elogiar mais os pequenos sucessos, evitar juízos de valor. Estes são alguns dos postulados que têm vindo a ser postos em prática pela professora de História Maria Isabel Trigueiros, 31 anos de profissão. Este ano é tutora de nove alunos que têm no seu percurso escolar duas ou mais retenções.

“Não tem sido difícil levar os alunos a serem assíduos nas sessões de apoio tutorial, talvez pela dinâmica implementada ser bem distinta da tutoria tradicional”, relata ao PÚBLICO. Esta última é essencialmente de apoio ao estudo, enquanto a criada no âmbito do chamado Apoio Tutorial Específico, medida lançada pelo Ministério da Educação, vai mais longe. “Não é propriamente um espaço para o aluno trabalhar (como nas aulas), mas um momento para reflectir sobre a prática diária, analisar o estado de espírito e o ritmo de trabalho, pensar um projecto de vida, o que facilita a empatia”, descreve esta docente da Escola Secundária Alcaides de Faria, em Barcelos.

Os seus tutorandos estão a frequentar o 9.º ano de escolaridade e têm idades entre os 15 e os 17 anos. Da experiência destes últimos meses, diz que lhe parece que “os alunos vêem no apoio tutorial um momento de catarse onde são ouvidos e podem expressar as suas impressões sobre aspectos gerais do foro pessoal, familiar, escolar”.

Os novos tutores entraram em funções no presente ano lectivo. O objectivo é o de substituir o desvio precoce dos alunos para cursos vocacionais logo aos 13 anos como sucedeu no mandato do ex-ministro da Educação Nuno Crato. O universo de actuação é o mesmo: alunos do 2.º e 3.º ciclos do básico que tenham pelo menos duas retenções no seu percurso escolar. Os dados oficiais mais recentes, de 2014/15, mostram que no 7.º ano, por exemplo, a taxa de retenção/desistência foi nesse ano lectivo de 15%.

Cada tutor tem a seu cargo um grupo de 10 alunos, sendo-lhe atribuídas quatro horas semanais para os acompanhar.

Para os alunos, as tutorias não têm carácter obrigatório e dependem da autorização dos pais.

Relação de empatia

“É fundamental que tutor e tutorando estabeleçam uma relação de empatia e confiança, pois esta relação assume-se como a base de todo o processo de ajuda”, refere a professora de Matemática Maria José Amorim, 28 anos de profissão, que é a coordenadora deste projecto no Agrupamento de Escolas da Mealhada.

As tutorias são aqui dirigidas a alunos do 5.º e 7.º anos, funcionam mais numa “lógica preventiva” e, por isso, os critérios são mais amplos do que os definidos pelo ministério. Têm o "propósito ajudar e apoiar a organização da aprendizagem de uma forma interactiva, sendo um espaço privilegiado para construir uma relação de confiança que capacite o aluno e ajude a construir a sua autonomia e a melhorar a auto-estima”.

“Inicialmente os alunos surgiram algo renitentes – 'mais uma aula?'; 'tenho que ficar aqui mais uma tarde?' – mas depois, ao começarem a perceber que não se trata de mais uma aula, mas de um espaço onde podem falar acerca dos seus problemas e que a intenção não é julgar, criticar, mas ajudar, acabam por comparecer”, conta Filipe Silva, professor de Matemática e de Ciências Naturais, com uma carreira de 14 anos. Está agora a acompanhar 20 alunos do 6.º ano com duas ou mais retenções. A média de idades dos seus tutorandos é de 14 anos.

Os 20 alunos que acompanha foram divididos em quatro grupos, que têm sessões de tutoria duas vezes por semana, sempre depois das aulas, relata este professor do Agrupamento de Escolas Eduardo Gageiro, em Sacavém, arredores de Lisboa.

Este horário pós-lectivo é um dos constrangimentos a uma maior assiduidade dos alunos que têm sido apontados por outros docentes. Por agora, Filipe Silva não tem razões de queixa nesta matéria.

Mudança comportamental

Na Escola Secundária Alcaides de Faria os alunos do 9.º ano têm as tardes de terça-feira livres para o apoio tutorial. É nestes dias, portanto, que Isabel Trigueiros se encontra com os seus tutorandos, que estão divididos em quatro grupos.

Apesar de a assiduidade não ter sido ainda um problema nas suas sessões de tutoria, isto não quer dizer que a missão seja fácil. As principais dificuldades resultam logo da própria história de insucesso escolar, a que podem estar associados problemas como “baixa auto-estima, desmotivação, falta de métodos de estudo, postura inadequada na sala de aula, problemas de pontualidade e assiduidade, interesses divergentes dos escolares, ausência de projecto de vida”.

“Nestes alunos há que promover a mudança comportamental, o que não é de todo tarefa fácil”, frisa esta docente.

“Trata-se de um tipo de trabalho muito exigente quanto ao perfil do professor, sendo necessário ter isso em conta quando da distribuição de serviço”, afirma Maria José Amorim. E que perfil privilegiar então? “O tutor deverá ser desejavelmente um adulto de referência que facilite uma nova forma de comunicação para conduzir o projecto educativo, social e muitas vezes pessoal de cada aluno. Alguém que saiba ouvir e seja capaz de adaptar o trabalho de acompanhamento às características do próprio aluno."

“É um grande desafio pois trabalhamos com alunos pouco motivados e com um fraco envolvimento escolar, o que faz com que não exista uma receita que se aplique”, corrobora Filipe Silva. Este é “um trabalho moroso, que exige que o aluno se envolva e se sinta impelido a entrar num processo de mudança, que acarreta esforços e que terá altos e baixos”.

E porque chumbaram?

Na primeira fase da tutoria, conta Filipe Silva, começou por dar aos alunos a oportunidade de pensarem e de se expressarem sobre as razões que levaram aos seus chumbos. Algumas das apontadas: “falta de estudo e de esforço, porque consideravam as matérias difíceis e como não conseguiam obter bons resultados acabavam por desistir"; “falta de assiduidade, porque como não conseguiam obter resultados positivos e diziam não gostar desta ou daquela disciplina, deste ou daquele professor, acabavam por faltar; problemas familiares…”

Só depois desta “autoexploração”, e porque eles assumiram que queriam passar de ano, este foi definido como o grande objectivo, que seria depois decomposto em objectivos mais concretos. Por exemplo, ser mais assíduo. A concretização das metas é depois avaliada e discutida. “Tento assim que os alunos, dando pequenos passos, assumam um papel mais activo no desenrolar da sua aprendizagem”, refere.

Da experiência que já recolheu, este docente considera que as tutorias, em vez de se limitarem a alunos já com uma história de insucesso, poderiam ser alargadas a outros que “começassem a revelar um desinvestimento escolar preocupante”, independentemente de já terem ficado retidos ou não, contribuindo assim ainda mais para a promoção do sucesso educativo.

A formação dos professores tutores foi entregue pelo Ministério da Educação a uma equipa do Grupo Universitário de Investigação em Autoregulação da Universidade do Minho, coordenada pelo investigador Pedro Rosário. Já passaram por esta formação cerca de 1200 docentes, grupo em que se integram os três professores que relataram a sua experiência ao PÚBLICO. Todos coincidem na importância que esta formação está a ter na sua actividade. “Levou-me a repensar, a questionar a minha prática, as minhas certezas, os meus valores”, resume Isabel Trigueiros.

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