Há 25 anos, vimos pela primeira vez o descruzar de pernas mais famoso do cinema

A provocação de Sharon Stone foi polémica e ainda alimenta debates. Instinto Fatal tornou-se um clássico dos anos 1990.

Sharon Stone com um justíssimo – e curtíssimo – vestido branco, numa sala de interrogatório. À sua frente estão quatro polícias, entre os quais o detective interpretado por Michael Douglas. Estas duas frases são suficientes para que saibamos onde isto vai parar: a actriz vai descruzar as pernas e voltar a cruzá-las, deixando, pelo meio, perceber que não usa roupa interior. A cena foi – e continua a ser – polémica e ajudou a fazer de Instinto Fatal um clássico do cinema norte-americano dos anos 1990. Esta segunda-feira passam 25 anos desde a sua estreia.

A autora que Sharon Stone interpreta em Instinto Fatal era suspeita da morte de Johnny Boz, uma antiga estrela do rock, com quem tinha uma relação. O tempo quase apagou a investigação policial e do suspense que marcavam o argumento do filme – realizado pelo holandês Paul Verhoeven). Na memória colectiva, o que ressoa há 25 anos é essa cena de sedução e provocação e um ou outro elemento também icónico, como o picador de gelo, apontada como a arma do crime.

O filme – que estreou em Portugal no Verão do mesmo ano – foi um sucesso de bilheteira. Um dos maiores da carreira de Verhoeven e, sem margem para dúvida, a obra mais marcante de Sharon Stone. Mas foi também polémico. Não só pela cena de nudez entrevista de Stone, como pela forma como era retratado a personagem homossexual do filme e que motivou protestos das associações LGBT norte-americanas.

A maior polémica, todavia, foi desencadeada há oito anos anos, quando, numa entrevista, Sharon Stone acusou o realizador Paulo Verhoeven de ter deixado em evidência a ausência da sua roupa interior naquela cena sem o seu consentimento. “A ideia na rodagem é de que íamos fazer uma insinuação, mas Verhoeven disse-me: 'vê-se o branco da tua roupa interior, preciso que a tires'. Assegurou-me que não ia ver-se nada. Por isso, tirei a roupa interior e meti-a no bolso da camisa”, contava Stone. 

A actriz admitia ter visto o plano num monitor depois da rodagem: “não se via nada”. Só na estreia do filme, quando viu a cena numa tela de cinema, percebeu a dimensão da exposição. “Fiquei em choque. No final do filme, levantei-me, fui ter com Paul Verhoeven e dei-lhe uma bofetada”.

Paul Verhoeven defendeu-se das acusações, acusando Sharon Stone de estar a mentir. "Qualquer actriz sabe o que acontece quando lhe pedes que tire a roupa interior e apontas a câmara para aquela zona. Ela até me ofereceu a roupa interior. Quando Sharon viu o resultado da cena no monitor, não teve nenhum problema. Creio que isso teve a ver com o facto de eu e o director de fotografia [Jan De Bont] sermos holandeses. Vemos a nudez com normalidade. A Sharon deixou-se levar por esta atitude relaxada. Mas quando viu a cena rodeada de outras pessoas, incluindo o seu agente e o seu publicista, enlouqueceu”.

Depois do sucesso de Instinto Fatal, o realizador holandês – que há um ano foi um dos Heróis do IndieLisboa – lançou, três anos depois, Showgirls, um filme mal recebido quer pela crítica quer pelo público. O último filme de Paul Verhoeven, estreado no ano passado, foi Elle, que, entre outros prémios, foi considerado o melhor filme estrangeiro nos Globos de Ouro. A obra valeu a Isabelle Huppert o mesmo galardão como melhor actriz num filme dramático, além de uma nomeação para os Óscares.