Crítica Livros

O barulho do mundo

Os contos do mais recente vencedor do Prémio Camões, Raduan Nassar, acrescentados nesta edição de três textos inéditos.

Arremedos de ironia vão assomando na escrita de Nassar
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Arremedos de ironia vão assomando na escrita de Nassar

A recente edição da colectânea Menina a Caminho, do brasileiro Raduan Nassar — Prémio Camões 2016 — inclui três textos que estavam até agora inéditos em Portugal: os contos titulados O Velho e Monsenhores (ambos datados de 1958), e um ensaio (que, diga-se, perfeitamente dispensável neste volume) sobre a natureza de ser brasileiro, A corrente do esforço humano (1981). Raduan Nassar (n. 1935), descendente de emigrantes libaneses, nasceu numa pequena cidade (Pindorama) no interior do estado de São Paulo — que lhe serve de cenário ao conto Mãozinhas de Seda — e é autor de um romance, Lavoura Arcaica (1975), e de uma novela, Um Copo de Cólera (1978) — ambos recentemente por cá reeditados.

Os seus textos, de uma poética brutalidade, são verdadeiros tours de force verbais em redor de lugares de silêncio e de desencanto, de lugares inquietos onde as palavras foram caladas durante muito tempo, mas que de repente jorram como acessos de cólera, destruindo tudo o que há muito devia ter sido destruído, para que volte o silêncio. A maioria dos contos desta colectânea , apesar de a sua escrita ter acontecido esparsamente no tempo, mostram essa afinidade com ambos os livros, mas sobretudo com a novela Um Copo de Cólera; não tendo o vigor do seu jorro verbal, há neles, contudo, a ideia de recusa, de impossibilidade de voltar, de quem assistiu à tragédia sem se importar com o que estava a acontecer, mas ‘diminuídos’, no entanto, de parte da sua carga erótica.

O conto que titula o livro, Menina a Caminho (escrito em 1961 mas só publicado em livro no Brasil em 1997), é o mais longo de todos os textos da colectânea, cerca de um terço do número de páginas. De imediato, o título passa para o leitor a ideia do movimento que vai embalar a menina no seu périplo ao longo da narrativa narrativa. Desde que a menina sai de casa é um movimento ao acaso, “sem pressa” e sem direcção, e que leva o olhar encantado da criança (pobre) na observação pormenorizada de cenas (que parecem desconexas) e que a sua inocência não lhe permite entender mas cuja sucessão começa a fazer sentido para o leitor. Há ao longo do caminho uma violência quase dissimulada que vai crescendo até ao final, em que explode, neste movimento circular em que ela acaba voltando a casa.

O conto seguinte, Hoje de Madrugada (escrito em 1970), o protagonista observa, a partir de uma secretária a que está sentado, o “corpo obsceno [da sua mulher] debaixo da camisola” e o seu desmoronamento emocional, ela que lhe vem mendigar afecto, e a quem ele responde: “não tenho afecto para dar”, e apercebe-se da progressiva escuridão que se ia instalando para sempre na sua memória. Este é talvez o conto que mais se aproxima do registo da novela Um Copo de Cólera, há naquela imobilidade dos protagonistas o mesmo olhar sobre o desastre que acontece e se repete, uma tensão erótica quase em ebulição mas, neste conto, bem disfarçada de desinteresse por parte do homem.

O Ventre Seco (escrito em 1970), curiosamente, foi publicado em 1984, no jornal Folha de São Paulo, junto ao artigo que anunciava que Raduan Nassar abandonava a literatura, e que a partir de então apenas se dedicaria à agricultura e à criação de coelhos na sua fazenda no interior. Há neste conto, em conjunto com o seguinte, “Aí pelas três da tarde” (escrito no mesmo ano do que o anterior), uma espécie de anúncio de desistência. É no primeiro dos contos que Nassar repete uma frase já escrita na novela: “não gosto de gente, para abreviar minhas preferências”. Se no primeiro dos dois se trata da despedida que um homem faz de uma mulher, dizendo coisas como, “não tenho nada contra manipular, assim como não tenho nada contra ser manipulado”, e sublinhando que não acha graça ao ruído dos jovens que tanto falam em liberdade, no segundo um corpo desnuda-se e caminha para o silêncio, está destruído o que havia para destruir, a cólera apazigua por fim, diante de todos, família e amigos, um corpo nu entrega-se a observar o trabalho das formigas junto a uma cerca. Arremedos de ironia vão assomando na escrita de Nassar, e talvez no primeiro destes dois contos isso seja mais notório: “É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.” Foi por esta altura que ele escreveu o que anunciaria anos mais tarde de maneira diferente: “já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio”.