A bicicleta na cidade saudável e fisicamente activa

A inactividade física nasce nos lugares em que não se pode nem caminhar nem andar de bicicleta. O uso frequente (e a partilha) da bicicleta é uma das respostas mais inteligentes para a sustentabilidade futura das cidades e para o aumento dos níveis de actividade física.

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Muitas das crianças deixaram de brincar na rua por falta de espaço seguro para o fazer. Esta situação deve-se ao aumento da população urbana na Europa (de 90% entre 1950 e 2009), que se fez à custa da redução da densidade e aumento da extensão e do espaço consumido. Este crescimento das cidades, considerado descontínuo e extensivo, foi promovido e acompanhado pelo investimento em maior número de infraestruturas viárias o que, por sua vez, levou a um aumento das distâncias entre a residência, local de trabalho e centros de compras e/ou lazeres. Toda a deslocação pendular entre estes três centros de vida passou a ser feito preferencialmente de automóvel.

Este modelo de mobilidade assente no automóvel privado tem acarretado um custo elevado para o ambiente e para a saúde, uma vez que aumentou muito a poluição das cidades e reduziu a actividade física nas deslocações diárias. Contudo, a maior parte das cidades está a alterar o design do seu espaço de modo a resolver estes problemas. Promover a mobilidade activa, andar a pé e de bicicleta, está agora na lista das prioridade das Grandes Opções do Plano e é uma proposta central nos Planos de Acção de Mobilidade Urbana Sustentável (PAMUS). É também uma das prioridades das políticas de promoção da actividade física. 

Para conseguir aumentar o número de utilizadores de bicicleta, cidades como Paris, Londres e Nova Iorque seguiram uma estratégia concertada de medidas: 1. Delimitação de áreas 30 km/h – nomeadamente em bairros residenciais; 2. Definição de uma rede ciclável segura, bem sinalizada e que dá vantagem à deslocação de bicicleta; 3. Criação de um sistema de bicicletas partilhadas. 

O sistema de bicicletas partilhado (SBP) tem uma história peculiar com crescimento exponencial nos últimos anos. Existe em 1200 cidades de todo o mundo e conta já com quase 3 milhões de bicicletas partilhadas. A Europa tem o maior número de cidades com SBP (524) mas a China é a grande líder do número de bicicletas partilhadas (1.900.000). O conceito é simples: ter bicicletas em vários pontos da cidade que podem ser levadas do ponto A e deixadas no ponto B, ou C ou D. Em todos estes pontos há uma estação que tem um sistema de docas onde as bicicletas encaixam e de onde só voltam a sair se forem activadas por um código ou por um cartão. A vantagem é poder deslocar-se rapidamente na cidade aumentando, em simultâneo, o nível de actividade física diário e melhorando a qualidade de vida individual, bem como a sustentabilidade da própria cidade.

Lisboa não é excepção e, a partir de Setembro, a EMEL irá gerir este sistema que, numa primeira fase, terá 140 estações com 1410 bicicletas (970 das quais eléctricas). Em breve, nas ruas da capital teremos mais de 2000 bicicletas em circulação, contando com o número daqueles que já são utilizadores e, ainda, com as 440 bicicletas do projecto UBike relativo ao aluguer de longa duração entre os estudantes universitários. Para além de Lisboa, o Bike-sharing World Map referencia Braga, Lagoa, Oliveira d’Azeméis, Paredes, Santarém, Serpa, Torres Vedras, Vila do Conde e Vilamoura. Casos mais recentes, como o de Cascais, ainda não constam. No país, o concelho mais parecido com uma vila holandesa é a Murtosa, onde 90% da população escolar se desloca de bicicleta. Curiosamente, Portugal é um dos três maiores fabricantes de bicicletas e foi a Órbita quem forneceu as bicicletas para o sistema de Lisboa e de Paris.

As bicicletas eléctricas têm tido um grande aumento no SBP porque a sua tecnologia possibilita adequação a todas as necessidades: para quem está em boa forma mas não quer transpirar, aumenta o nível de assistência dado pelo motor o que reduz o esforço da pedalada; para quem não está em forma mas pretende melhorar a sua condição física, diminui gradualmente o nível de assistência e progressivamente vai aumentando o esforço do exercício. No tempo de lazer, a bicicleta eléctrica motivou pessoas mais velhas a praticar BTT e a realizar maiores percursos nos seus passeios, ou seja, ajudou a prolongar a idade de realização de turismo activo, o que potencialmente também contribuiu para um estilo de vida mais saudável.

Como é que a bicicleta torna as cidades activas e mais saudáveis?

Através do aumento das deslocações diárias, diminui o congestionamento urbano e contribui para a redução da poluição; cidades com mais bicicletas são mais seguras e propiciadoras de mobilidade activa por crianças e jovens tornando todos mais autónomos; a bicicleta está associada à liberdade e facilidade de movimento e maior proximidade com o meio envolvente promovendo a boa disposição, reduzindo o stress e evitando estados depressivos; de bicicleta, a geografia da cidade estimula a musculatura do corpo, queimando calorias e aumentando a aptidão física.