O medo e o desejo no Capuchinho Vermelho de Pommerat

Sábado e domingo, o criador francês Joël Pommerat apresenta em Almada uma das peças que o afirmou internacionalmente – Capuchinho Vermelho.

Fotogaleria
A reescrita de Capuchinho Vermelho, em específico, foi inspirada por uma das suas filhas e pela infância da sua mãe. Elizabeth Carecchio
Fotogaleria
Capuchinho Vermelho, de Joël Pommerat Elizabeth Carecchio
Fotogaleria
Capuchinho Vermelho, de Joël Pommerat Philippe Carbonneaux
Fotogaleria
Capuchinho Vermelho, de Joël Pommerat Philippe Carbonneaux

Todas as noites, um pouco por todo o mundo, pais e mães contam aos seus filhos histórias para chamar o sono. Algumas são novidades – em muitos casos variações incontáveis sobre os clássicos da literatura infantil; outras há muito que fazem parte de uma longa cadeia de transmissão oral que, por essa mesma via, foi transformando aos poucos as narrativas à medida que passavam de ouvido para ouvido. “Essas histórias vêm de uma matéria patrimonial oral que nunca deixou de ser reescrita e modificada”, reforça Joël Pommerat, criador francês que, em 2004, resolveu abordar pela primeira vez estes clássicos no seu teatro e propor a sua própria colherada neste universo. Começou pelo Capuchinho Vermelho que este sábado e domingo visita o Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, tendo-se seguido Pinocchio e Cendrillon.

Embora, por vezes, a mutação das histórias possa acontecer de forma involuntária, a memória traindo a versão “original”, no caso de Pommerat a traição é procurada, integrada num gesto artístico promovido “pelas tantas significações escondidas num conto” que permitem sempre “propor uma nova versão”. “Adoro a densidade dos contos, a sua maneira de sugerir numerosas coisas em poucas palavras. É uma matriz para a minha escrita, à qual regresso regularmente”, confessa ao PÚBLICO. A reescrita de Capuchinho Vermelho, em específico, foi inspirada por uma das suas filhas e pela infância da sua mãe. Até porque, na sua perspectiva, esta é uma história que coloca o lobo no centro mas em que este se vê ultrapassado por uma narrativa que junta “três mulheres (a Capuchinho, a mãe e a avó) que trocam de lugares – e isso oferece diferentes níveis de interpretação no conto e no espectáculo.”

Apesar de se tratar de um espectáculo dirigido também ao público infanto-juvenil, para Pommerat não há qualquer viagem à infância implicada nesta sua incursão por Capuchinho Vermelho. “Este conto toca-me ainda mais em adulto”, justifica. “Aborda emoções fortes e temas que atravessam todo o meu teatro, como o medo, o desejo, a imaginação, a emancipação…” A relação com o medo é, precisamente, uma das marcas teatrais de Pommerat, que aqui encontra no medo do lobo, no medo de crescer e no medo da solidão pasto para a contínua dissecação em palco desse elemento tão paralisante quanto propulsor de acção. “Mas o medo não existe sem o seu contrário: o desejo, contido até no interior do próprio medo. É essa ambivalência emocional que me interessa.”

Esse interesse é acompanhado por um fascínio pelos contos morais, pela eterna oposição entre Bem e Mal, assim como pelo “conflito entre a moral pessoal e as representações colectivas e a instrumentalização de certos valores”. “Os contos colocam, frequentemente no contexto da família, as questões essenciais numa vida humana e necessárias à vida social”, acredita. É esse o escopo que o seduz, e não tanto o moralismo de autores como Perrault. “No meu teatro, não procuro dar exemplos ou preceitos morais, mas antes interrogar os nossos comportamentos e a deslocar o olhar.” Sobretudo quando falamos de uma história que todos julgamos conhecer e que, afinal, desde que sujeito a uma mínima transformação, acaba por revelar sentidos que nunca antes se tinham deixado ver.