Uma em cada dez famílias não tem dinheiro para comer como deve

“Pensar que 10% da população, um milhão de pessoas, ainda referem saltar refeições devido a problemas económicos é preocupante”, diz investigadora.

NFACTOS/JORGE MIGUEL GONCALVES
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NFACTOS/JORGE MIGUEL GONCALVES

Uma em cada dez famílias portuguesas experimentou algum grau de insegurança alimentar em 2015/2016, isto é, devido à falta de dinheiro sentiu dificuldade em pôr em cima da mesa comida nutritiva, saudável e em quantidade suficiente. É nas ilhas que o problema atinge maiores proporções.

Os dados constam do Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física 2015-2016, conduzido por um consórcio de investigadores da Universidade do Porto (UP), da Universidade de Lisboa (UL), da Universidade de Oslo, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e da empresa Silicolife. O último estudo do género era dos anos 80.

A maior fatia (7,5%) corresponde a insegurança alimentar ligeira, mas há uma pequena porção de residentes em Portugal (2,6%) que enfrenta insegurança alimentar moderada ou alta.

“Pensar que 10% da população, um milhão de pessoas, ainda referem saltar refeições devido a problemas económicos é preocupante”, comenta Carla Lopes, do Instituto de Saúde Pública da UP, uma das coordenadoras do estudo.

A realidade não é igual em todo o país. Existem grandes disparidades regionais. As regiões autónomas dos Açores (13,4% da população a experimentar algum grau de insegurança alimentar) e da Madeira (13,4%) e o Alentejo (11,6%) ficam acima da média nacional. Já o Algarve (5,8) e a região centro (8,5) ficam abaixo.

As crianças não escapam a esta realidade. É de 11,4% a prevalência de insegurança alimentar nos agregados com menores de 18 anos (9,4% nos agregados sem menores a cargo). E é nas famílias com baixa escolaridade e menos rendimento disponível que a situação é mais preocupante, o que não surpreende. “As pessoas têm os seus compromissos, têm dificuldades a pagar as contas, tendem a cortar na alimentação”, comenta ainda Carla Lopes.

Alguns destes resultados já tinham sido em parte divulgados pela UL no ano passado. Helena Canhão, outras das coordenadoras do projecto, alertava então para o facto de quem sofre de insegurança alimentar ser mais propenso a sofrer de doenças crónicas, como diabetes ou depressão, e acabar por recorrer mais aos serviços de saúde.

Há um manancial de dados ainda por explorar. “Esse será um dos aspectos a desenvolver no futuro”, torna Carla Lopes. Seria, agora, necessário “avaliar realmente ao que esta insegurança leva em termos de inadequação nutricional”, diz Carla Lopes.