Em França, os jovens já não escondem que gostam da Frente Nacional

Le Pen é mais forte junto dos eleitores jovens e mais fraca junto dos pensionistas. O partido aumenta o apelo à juventude com uma mudança na sua imagem.

Jovens da Frente Nacional colando cartazes em Lyon
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Jovens da Frente Nacional colando cartazes em Lyon Robert Pratta/Reuters

Há apenas alguns anos era difícil encontrar jovens dispostos a admitir que eram militantes da Frente Nacional (FN). Quando um jornalista foi à procura de membros da juventude partidária da FN durante a última campanha presidencial, a maioria só estava disposta a falar se os seus nomes fossem omitidos.

Cinco anos depois, os jovens activistas que apoiam a candidatura de Marine Le Pen dizem que já não têm nada a esconder, à medida que ela avança para um primeiro lugar na primeira volta, a 23 de Abril.

“Isto gera discussões animadas”, diz Corentin Corcelette, estudante de Economia de 21 anos que, longe de manter em segredo as suas opiniões, afirma que na universidade conversa sobre as vertiginosas eleições presidenciais com amigos de todas as cores políticas.

Sentado no mesmo carro, enquanto percorriam Lyon para afixar cartazes “Marine Président”, o estudante de Biologia de 21 anos Rémi Berthoux também teve todo o gosto em dizer o nome ao jornalista. Juntou-se à FN há dois anos, contou com orgulho, “para defender os valores da França”.

Outrora limitados a ficar na sombra, os jovens apoiantes da Frente Nacional vieram para a rua, à medida que os eleitores da sua idade se alinham atrás de Le Pen. Sondagens diárias da empresa Ifop demonstram, de forma consistente, que a candidata consegue obter quase um terço do voto jovem à primeira volta, derrotando facilmente todos os adversários, embora ainda se preveja que perca a segunda volta, a 7 de Maio.

Le Pen tem mais sucesso junto dos eleitores com menos de 25 anos do que junto da população em geral, por uma margem que chega a 7 pontos percentuais. Isto é uma grande reviravolta face à sua primeira candidatura à presidência, há cinco anos, quando obteve 15% do voto jovem, uma percentagem cerca de três pontos abaixo dos seus resultados globais.

Desintoxicar a marca

Conquistar os eleitores jovens tem sido um êxito para a campanha de Le Pen no sentido de “desintoxicar” a marca Frente Nacional. No passado, quando os membros da FNJ, a juventude partidária da FN, afixavam cartazes, “faziam-no a meio da noite”, diz Sylvain Crepon, um investigador da Universidade de Tours que estuda a extrema-direita francesa. “Andavam com tacos de basebol para se protegerem e muitas vezes estavam acompanhados de skinheads”, prossegue. “Agora podem fazer isso em plena luz do dia, o que mostra que as pessoas já estão mais habituadas à FN. Tornou-se mais aceitável.”

Não havia qualquer taco de basebol nem skinhead à vista naquele fim de tarde do mês passado, em que um grupo de jovens bem-parecidos que incluía Corcelette e Berthoux pendurava cartazes de Le Pen nas ruas e no campus da universidade de Lyon. “Não nos vemos de todo como sendo de extrema-direita, mas como patriotas que estão desiludidos com os outros partidos”, adianta David Sedoff, um empregado de armazém de 26 anos.

Os dados demográficos são uma das grandes diferenças entre a vaga de extrema-direita na Europa continental e a ascensão de populistas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, ocorrida no ano passado. O Presidente norte-americano, Donald Trump, e a campanha para tirar o Reino Unido da União Europeia sofreram pesadas derrotas entre os eleitores jovens, mas conquistaram vitórias com o apoio esmagador dos pensionistas.

No caso de Le Pen, os dados demográficos são quase exactamente o oposto. Ela obtém bons resultados junto de todas as categorias de eleitores jovens: os menores de 25 anos, os menores de 35 e os menores de 45. Os seus piores resultados são entre os pensionistas: os maiores de 65 anos são a única faixa etária em que Le Pen aparece consistentemente atrás dos rivais nas sondagens para a primeira volta.

Ao contrário dos seus primos anglo-saxónicos, os políticos populistas da Europa continental como Le Pen, o holandês Geert Wilders e o italiano Beppe Grillo transformaram os eleitores jovens no seu eleitorado mais importante. Eles alimentam-se do ressentimento de uma geração que parece ter poucas esperanças de conseguir igualar o nível de vida dos pais.

Em França, quase um quarto dos trabalhadores com menos de 25 anos estão desempregados, em comparação com uma taxa de desemprego nacional de 10%, segundo os dados oficiais do ano passado.

Mesmo os jovens que têm a sorte de arranjar emprego trabalham geralmente sob condições muito menos generosas do que as gerações anteriores. Mais de metade dos trabalhadores com menos de 24 anos só tem contratos temporários ou postos em empresas que trazem poucas garantias e direitos, em comparação com 85% dos trabalhadores franceses, que têm contratos a tempo inteiro com fortes protecções laborais.

Enquanto o tema de mudança dramática usado por Le Pen apela a muitos eleitores jovens, os seus avós beneficiam das pensões generosas do statu quo e estão preocupados com os efeitos que o plano de Le Pen para abandonar a UE e o euro poderá ter nas suas poupanças.

Os eleitores jovens também têm menos probabilidade de associar a Frente Nacional ao seu fundador, Jean Marie Le Pen, pai de Marine, que atingiu um máximo de 17,8% dos votos nas suas repetidas corridas à presidência e que nunca fez a transição para a corrente dominante.

Jean Marie Le Pen foi condenado repetidamente por ódio racial até que a filha o baniu do partido.

Mudança de visual

Desde então, Marine Le Pen reconstruiu cuidadosamente a imagem do partido e distanciou-se do pai. O site oficial da campanha e os cartazes referem-se a ela como “Marine” – sem o apelido – e ela evita o símbolo em forma de tocha do FN, usando em vez disso um novo logótipo, uma rosa azul.

Marine Le Pen costuma insistir nas questões económicas, apresentando a FN como defensora dos eleitores de classe operária deixados para trás na década que se seguiu à crise financeira global e culpando a União Europeia em geral, e o euro em particular, por tornar a França menos competitiva.

Contudo, a hostilidade para com a imigração e a desconfiança face ao islão continuam a ser princípios centrais do partido. Num país que tem a maior minoria muçulmana da Europa e que sofreu uma sucessão de ataques do islamismo militante nos últimos dois anos, a xenofobia da FN já não é o obstáculo para atrair eleitores jovens que costumava ser.

O site do movimento jovem FNJ declara orgulhosamente: “100% Frente Nacional! 0% imigrantes!”

“A Europa, a imigração, sou contra isso tudo”, declara Éric Barbosa, um padeiro de 20 anos, numa reunião da secção de Paris da FNJ.

A chegada relativamente recente da Frente Nacional enquanto força eleitoral de sucesso dá-lhe uma vantagem em relação aos partidos tradicionais no que diz respeito a atrair jovens activistas que procuram fazer carreira política.

A FN oferece mais oportunidades a jovens ambiciosos de deixarem a sua marca do que os partidos do pós-guerra de centro-esquerda e centro-direita, nos quais as vagas para ocupar cargos estão bloqueadas por titulares mais velhos e por veteranos. Os candidatos da FN às eleições locais e regionais são sistematicamente os mais novos da área e muitas vezes têm vinte ou trinta e poucos anos.

Isto implica uma entrada rápida na política de primeira linha para pessoas como Victor Birra, de 23 anos, um aluno de Gestão que aderiu à juventude FNJ há cinco anos e actualmente é o seu dirigente na região de Lyon. Birra descreve a juventude partidária como uma “academia para quadros da FN”, comparando-a aos grandes institutos públicos que tradicionalmente produzem grande parte dos políticos franceses. Mas as ambições futuras dependem, em primeiro lugar, de conseguir obter votos para Le Pen, admite Birra. “Estamos a lutar para vencer as presidenciais.”