Primeiro Prémio Eduardo Costley-White para moçambicano Lucílio Manjate

Rabhia, a obra preferida do júri presidido por Mia Couto, mapeia uma capital e um país compostos por várias camadas, entre as quais o passado colonial e a guerra civil.

NUNO FERREIRA SANTOS
NUNO FERREIRA SANTOS
NUNO FERREIRA SANTOS
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O escritor moçambicano Lucílio Manjate é o primeiro vencedor do Prémio Eduardo Costley White – que deve o seu nome ao poeta e escritor homónimo (1963-2014), figura maior da literatura moçambicana –, com o romance Rabhia. O prémio de dez mil euros, criado pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e organizado em parceria com a editora Edições Esgotadas, que assegura a publicação do livro, destina-se a promover jovens autores africanos de língua portuguesa e recebeu nesta primeira edição candidaturas de 34 escritores oriundos de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Rabhia, a obra preferida pelo júri presidido por Mia Couto e composto por Isabel Lucas (jornalista e crítica literária do PÚBLICO), Clara Ferreira Alves (escritora e jornalista), Ana Maria Oliveira (autora e professora universitária) e José Riço Direitinho (escritor e crítico literário do PÚBLICO), adopta uma estrutura policial. A morte da jovem que intitula o romance activa a intriga, que por sua vez cruza duas linhas centrais: a trajectória do protagonista e o pulsar da própria cidade de Maputo. Esta surge, sobretudo, em flagrantes contemporâneos que retratam uma capital de vida intensa e atribulações várias, com um comércio febril, algures entre caótico e nas margens da legalidade, e uma complexidade social que não se queda à superfície mais óbvia. As camadas da capital vão surgindo, em lances sucessivos. Por exemplo, na evocação de Lourenço Marques – o catálogo de um antigo hotel desperta o resumo irónico de uma personagem: “No meu país é mesmo assim, mudam-se os templos muito à vontade” –, na memória da Guerra Colonial, na presença, tão difícil de sacudir, dos conflitos armados que se seguiram à independência. Maputo concentra tensões várias. Entre o saber “d'experiências feito” da velha guarda e uma geração tecnicamente preparada, mas falha de outros valores; entre a modernidade e valores tradicionais como o tribalismo, a magia, a veneração pela velhice.

Obedecendo às ordens do tio, um jovem torna-se estagiário de um polícia experiente, ex-militar endurecido por um passado que o romance desmonta e reconstrói. Este amigo do tio castigador lidera a investigação em torno da morte de Rabhia, uma prostituta assassinada em circunstâncias adequadamente misteriosas – um enigma que a conclusão do livro resolve, mas também complica. Baste, por ora, dizer que o trabalho policial será uma iniciação e uma entrada forçada na idade adulta, mas também uma sequência de logros. Essa acumulação de níveis de sentido vai revelando que a estrutura do policial não constitui, neste romance, um constrangimento formal inibidor de voos menos rasantes. “Parece-me uma gramática pouco explorada em Moçambique”, adianta Manjate. “Encontrei, digamos, um campo fértil, e o meu país tem oferecido matéria para incursões pela narrativa policial.” Contudo, adverte: “Pretendo um policial que revele muitos outros dilemas, continuo muito ligado às questões sociais”. Um policial, defende, “não se esgota em desvendar ou não casos", deve "reconstruir a história de cada caso": Pelo menos esta é a visão que tenho, e este é o meu segundo livro nessa perspectiva.”

Mapear um território

Há ao longo do romance um notório zelo no mapear do território urbano, até ao pormenor da rua ou da praça, do monumento ou do local de diversão. “Mais do que da cidade”, precisa o autor, “[um mapa] de Moçambique de Norte a Sul. Esse mapa é a trajectória da Rabhia, é o mapa da sua história. Mas igualmente o mapa de muitas outras histórias quiçá em Rabhia evocadas.” O conhecedor da capital de Moçambique poderia refazer os passos desorbitados e convulsos da narrativa, unindo os pontos assinalados pelo romance. O que lhe confere mais do que a sua quota-parte de plausibilidade – além de um forte teor visualista, energizado pelo estilo vibrante do autor, que se alça num compasso veloz. A fidelidade, enganadoramente jornalística e neutral, com que se registam “os murmúrios próprios dos bairros de madeira e zinco” é contrabalançada (e valorizada) pela crueza, por vezes de forte alcance estilístico, no recorte de acções e gestos, ou mesmo de minúcias do corpo e da sexualidade menos disfarçada – “Então os homens, espetados até às bolas, assustavam-se a ponto de evocarem as derreadas forças no álcool sempre presente, pois sabiam que de outra forma os êmbolos jamais se libertariam daqueles aposentos, algo de se ver muito em canídeos na alvorada do mundo.”

Uma nova geração

Lucílio Manjate nasceu em Maputo, em 1981. Escritor, ensaísta e crítico literário, é professor de Literatura na Universidade Eduardo Mondlane.

Publicou Manifesto (TDM, 2006, Prémio Revelação – TDM – Telecomunicações de Moçambique), Os Silêncios do Narrador (AEMO, 2010, Prémio 10 de Novembro), O Contador de Palavras (Alcance, 2012), A Legítima Dor da Dona Sebastião (Alcance, 2013), O Jovem Caçador e a Velha Dentuça (Kapulana, 2016). Assinou ainda, em co-autoria, Literatura Moçambicana – da Ameaça do Esquecimento à Urgência do Resgate (Alcance, 2015), e foi co-organizador dos volumes Era Uma Vez… Moçambique (AEMO, 2009) e Antologia inédita – Outras Vozes de Moçambique (Alcance, 2014).

Reflectindo sobre a mais recente literatura moçambicana, Lucílio Manjate destaca nomes como os dos “poetas Mbate Pedro, Sangare Okapi, Andes Chivangue, Lica Sebastião, Chagas Levene, Rui Ligeiro, Léo Cote e prosadores como Clemente Bata, Rogério Manjate, Aurélio Furdela, Helder Faife e Jorge Oliveira”. “É uma geração”, esclarece, “que, depois de, pelo menos, 20 anos de escrita, consolidou o seu compromisso com a literatura”. Recordando a marca de gerações anteriores, afirma Manjate: “Se os seus textos trazem o legado de temas e formas herdadas de autores como José Craveirinha, Rui Knopfli, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Ungulani ba ka Khosa, Paulina Chiziane ou Suleiman Cassamo, também procuram trazer novas propostas estéticas.”