Lou Reed, e as suas fotos, milhares de vídeos e sons, já está na biblioteca de Nova Iorque

“Vasto e maravilhoso”, inclui inéditos, raridades, versões, mistérios e documentos de amizade ou de corte - com os Velvet Underground, com Jimmy Page, com Scorsese ou Václav Havel.

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Lou Reed em Portugal em 2000 miguel madeira
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Lou Reed e Laurie Anderson reuters

Laurie Anderson anunciou quinta-feira, no dia em que Lou Reed completaria 75 anos, que todo o arquivo do músico vai ficar depositado na New York Public Library for the Performing Arts. A sua viúva e artista quer que o arquivo não seja “um cofre profundo em que só pessoas com luvas brancas podem entrar. Ele era verdadeiramente democrático”. São 36 mil gravações - Reed a interpretar Bob Dylan, Reed adolescente, Reed a ler Velvet Undergroud, mais de 600 horas de concertos -, 1300 vídeos e documentos, além da colecção pessoal de vinis do músico.

O objectivo, disse Laurie Anderson na quinta-feira, é dar a conhecer Lou Reed de forma mais detalhada. “Toda a gente comete erros”, disse, citada pela rádio pública norte-americana NPR. “Toda a gente se sente vulnerável e insignificante. Ganhem coragem a partir disso”, disse, dirigindo-se em abstracto aos fãs, aos investigadores, aos artistas e potenciais criativos. "E é por isso que quis pôr este arquivo cá fora: para que toda a gente pudesse ver quão difícil é fazê-lo e quão determinado ele era”.

Uma das preciosidades é uma bobine datada de 1965 e que está por abrir e que se pensa, escreve a Rolling Stone depois de ter tido acesso prévio a parte dos arquivos, ser a primeira demo de sempre dos Velvet Underground. A New Yorker viu a embalagem misteriosa, agora protegida num cofre, e relata como Anderson e Fleming debatem ainda se devem ou não abri-la.

“Vasto e maravilhoso”, descreve a New Yorker. “Revelador”, titula a Rolling Stone. Uma prova da “curiosidade” de Lou Reed, resume Laurie Anderson à mesma revista de música sobre o arquivo, que tem estado a ser organizado desde a morte de Reed em 2013 pela viúva e por Don Fleming (que já trabalhou nos arquivos de Hunter S. Thompson ou Alan Lomax e produziu os Sonic Youth), que frisou à NPR que uma das coisas que mais o entusiasma no espólio são os molhos de papéis. Contratos com editoras, de licenciamento, facturas de digressões, documentos sobre as colaborações com David Bowie, por exemplo, e outros dados que raramente são revelados pelas partes envolvidas e que são um manancial para todo um outro grupo de académicos dedicados não só ao estudo dos processos criativos de Reed ou dos Velvet mas também da indústria em vários níveis e momentos históricos – embora eles se cruzem, como prova o contrato que fixa a saída de Reed dos Velvet Underground.

Mas é, naturalmente, nos sons e imagens e escritos pessoais que reside grande parte do interesse do arquivo Lou Reed, um homem que “confiava na cassete”, como diz Anderson à Rolling Stone. Tinha gravações cheias de leituras de poesia, uma balada de protesto inédita de 1971, concertos nas décadas de 1970 – incluindo o última a actuação com os Velvet Underground em Agosto de 1970 - e 1980. Há também contas de restaurantes, hotéis ou bares que preenchem vinhetas das histórias da vida em digressão, um walkman da Sony de edição especial num estojo de prata, prendas com dedicatórias de Jimmy Page (uma reedição de Eight Miles High, dos Byrds) ou de John Cale (a sua autobiografia), bilhetes esperançosos de Martin Scorsese sobre um encontro com Johnny Depp ou as boas-vindas escritas do ex-Presidente Václav Havel de Reed ao seu país.

A colecção está ainda em fase de catalogação e no final de 2017, diz a NPR, começará a digitalização dos vídeos e das gravações áudio. Outras fitas, as magnéticas, terão de ser conservadas com a ajuda de fornos especiais. De fora ficou o material do músico, guitarras e máquinas de estúdio, cujo destino não é ainda conhecido.