A história das aparições em Fátima deu vários filmes. E há mais a caminho

De João Canijo a Marco Pontecorvo, a história perpetuada pelos três pastorinhos analfabetos e carimbada pela hierarquia da Igreja Católica continua a alimentar enredos de vários tipos.

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João Canijo “transportou” 11 actrizes para Vinhais e desafiou-as a fazer uma peregrinação a Fátima Paulo Pimenta
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Imagem do projecto de longa-metragem de animação, Fatima and The Secret Treasure DR
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João Canijo, realizador NUNO FERREIRA SANTOS

O realizador João Canijo foi a Fátima e pôs um conjunto de actrizes, entre as quais Rita Blanco, a peregrinar desde Vinhais. O treinador José Mourinho vai emprestar a voz a um Papa na animação Fátima e o Tesouro Secreto, sob a batuta do maestro e compositor Rui Massena. A TVI optou por pôr a actriz Dalila do Carmo no papel de mãe de Jacinta e Francisco. E o italiano Marco Pontecorvo, director de fotografia da primeira temporada d’A Guerra dos Tronos, pôs-se atrás da câmara para realizar um remake do velhinho O Milagre de Nossa Senhora de Fátima, feito em 1952 pela Warner Brothers. O centenário das aparições de Fátima, cujo ponto alto será a visita do Papa Francisco, nos dias 12 e 13 de Maio, vai passar – e muito – pelos ecrãs. 

Desengane-se, portanto, quem pensa que as Aparições de Fátima são revisitação saudosista de um passado que já pouco diz a pouca gente. No caso do realizador João Canijo – e quem lhe conhece a obra pode acusá-lo de tudo menos de aderir a manifestações apologéticas de qualquer tipo –, o motor foi a estranheza perante a necessidade da fé. Aliás, o filme, que se atrasou dois anos por causa dos problemas de financiamento ditados pela crise, estava para se chamar Amém (entretanto mudou para Fátima). “A ideia partiu do esforço que se faz e dos sacrifícios e das coisas extremas que se podem fazer por necessidade de fé”, explicou ao PÚBLICO. O ponto de vista do realizador manteve-se “o mais neutro possível”. “Não pretendi dar resposta a nada disto. Eu próprio fiz uma peregrinação a Fátima a pé e, no final, a minha incompreensão continuou a ser muito grande”.

Fiel àquele híbrido entre ficção e documentário a que nos habituou, João Canijo pôs as 11 actrizes que peregrinam no seu Fátima a viver e a trabalhar como transmontanas, numa aldeia de Vinhais, num esforço de miscigenação que não ficará a dever muito à caminhada de 430 quilómetros e de nove dias que hão-de enfrentar até ao santuário, sempre na mira das câmaras de filmar.

“As actrizes estiveram em Vinhais para serem de Vinhais. As suas personagens têm vidas que elas viveram em Vinhais, dentro do possível”, enquadra. Anabela Moreira trabalhou num minimercado, Rita Blanco num café, Ana Bustorff numa fábrica de enchidos, Cleia Almeida num infantário, Teresa Madruga numa escola secundária, e por aí fora. No início, havia “um texto que foi construído ao longo de dois anos, porque as actrizes fizeram peregrinações reais e documentaram essas peregrinações reais. E foi a partir dessa documentação, dos incidentes e dos acidentes das várias peregrinações, que se chegou ao guião do filme”, conta.

O resultado deste “foot movie” que atravessa meio país é então “sobre a tal necessidade de fé”, ou, como diz Schopenhauer e repete João Canijo, “sobre a necessidade de metafísica e, ao mesmo tempo, sobre as relações humanas”. E as duas coisas são paradoxais. “O filme é sobre esse paradoxo entre a necessidade de transcendente e as imposições das relações humanas”, adianta o realizador, que o mais próximo que chegou de uma revelação foi para concluir: “A fé decorre da dificuldade que a humanidade tem de olhar para a existência, mas a fé no transcendente é paradoxal em relação à existência em si, ou seja, as relações humanas no dia-a-dia têm pouco que ver com a fé, mesmo durante uma manifestação de fé”.

Alcançada a conclusão, o filme é dificilmente rotulável e o mais próximo que se chega disso é através de uma dupla negativa: “Não é apologético, mas também não é iconoclasta”. Depois da estreia nos ecrãs de cinema (“lá para finais de Abril, princípios de Maio”), Fátima será exibido pela RTP transformado numa série de cinco episódios, “completamente diferentes do filme, porque este só lá tem o essencial, o absolutamente necessário”.

Jacinta na TVI

Ainda no plano das séries, a TVI apostou numa em versão mini (dois episódios apenas), intitulada Jacinta, que segue a versão da vidente contada por Manuel Arouca no livro Jacinta, a Profecia. Os actores Dalila do Carmo e José António Cerdeira são os pais dos irmãos Jacinta e Francisco, numa série rodada em Fátima, em Setembro de 2016, e que reconstitui os acontecimentos pelo olhar da mais nova dos três videntes. A actriz Rita Salema também por lá andará, como mãe de Lúcia, mas, quanto ao resto, é esperar, porque a TVI ainda não fez a promoção da série.

Igualmente pouco conhecida é a mini-série de cinco episódios que o canal católico EWTN vai emitir por ocasião do centenário das aparições. As filmagens decorreram em Fátima, em Outubro de 2015, com recurso a figurantes locais.

Muito mais ambicioso é o remake do velhinho O Milagre de Nossa Senhora de Fátima, produção de 1952 dos estúdios da Warner Brothers. Gravado nos estúdios da Cinecittà, em Roma, no último Verão, o agora (também) denominado Fátima é realizado por Marco Pontecorvo (alguém se lembra dele como director de fotografia na primeira temporada d’A Guerra dos Tronos?). Esta nova versão – lê-se no site dedicado ao filme – dará aos espectadores “uma viva, imersiva e impressionante experiência cinematográfica” da “incrível história dos três pastorinhos que enfrentaram o ridículo, a perseguição, a punição e a tortura dentro da sua própria família”, mas que, ainda assim, se mantiveram fiéis à sua “extraordinária missão de espalhar uma mensagem de paz pelo mundo”. O tom soa algo panfletário e os produtores têm uma explicação para isto: “O filme mantém a autenticidade da voz original desta história, tal como foi contada por Lúcia dos Santos, a mais velha das videntes”.

No papel de Lúcia, está a jovem inglesa Allegra Allen, que, com 10 anos, contracenou com Antonio Banderas em Altamira, estreado no ano passado. Com um orçamento de 12 milhões de euros, o projecto do filme foi apresentado em Cannes, em Maio do ano passado, mas ainda não tem estreia anunciada.

O tesouro secreto de Fátima

Para Maio, mas de 2018, ficou a estreia comercial do filme de animação que, para além de Fátima (e do fado), remete para outro dos famosos “f”: o de futebol. É que o treinador José Mourinho aceitou dar a voz para um dos Papas que aparecem em Fatima and The Secret Treasure, um dos dez filmes de animação seleccionados para o Cartoon Movie 2017, o encontro anual da indústria europeia da animação (longas-metragens), que este ano decorre em Bordéus (França), de 8 a 10 de Março.

O filme nasceu da cabeça do produtor executivo da Imaginew, Rui Pedro Oliveira, durante uma viagem de comboio entre Porto e Lisboa. E conta, ao longo de 70 minutos, a história de uma menina, Madalena, e do seu irmão, Tomás, sempre com Fátima como pano de fundo. Quando perdem a mãe, as crianças perdem também a fé, mas a história que a mãe lhes deixou sobre um misterioso segredo localizado naquela cidade acaba por lançá-los numa aventura capaz de lhes restituir a felicidade e que inclui a aparição de duas figuras misteriosas. “Nesta aventura, Madalena terá que lidar com questões de amizade, traição, amor e fé, no contexto das comemorações do centenário das Aparições de Fátima. No final, o segredo que descobre irá mudar a sua vida”, lê-se na sinopse do filme para maiores de cinco anos de idade.

“A estreia chegou a estar prevista para Outubro de 2017, mas entretanto houve uma mudança de estratégia, e decidimos incluir o próprio centenário das Aparições na história”, disse Andreia Costa, gestora de comunicação da Imaginew, co-produtora do filme juntamente com o premiado estúdio polaco Platige Image, que criou, por exemplo, os efeitos especiais para os filmes Anticristo e Melancolia, de Lars von Trier. Aliás, o guião foi escrito pelo polaco Philip Lazebnik, que alguns conhecerão como argumentista dos filmes Pocahontas e Mulan, da Disney.

E, quanto à voz de Mourinho, vai ser gravada em quatro línguas. E não é a única susceptível de ser reconhecida pelos portugueses: a actriz Dalila Carmo também vai ser voz off neste Fatima and The Secret Treasure, cuja banda sonora é da autoria do maestro e compositor Rui Massena. A secretaria de Estado do Vaticano deu autorização para a inclusão da figura do Papa Francisco nesta animação, tendo pedido apenas que “não a maltratem muito”.