Torne-se perito

A história de cada um é uma sucessão de acidentes – e a da Hungria também

Por estes dias, Deborah Pearson leva História História História até à Culturgest. Um espectáculo em que a sua história familiar serve para reflectir sobre o peso dos pequenos acontecimentos nas vidas de todos nós.

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PAUL BLAKEMORE
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PAUL BLAKEMORE

A 23 de Outubro de 1956, uma revolução tomou conta das ruas de Budapeste, na Hungria, procurando libertar o país do jugo estalinista, com o novo primeiro-ministro Imre Nagy a anunciar a intenção de abandonar o Pacto de Varsóvia. Passados 12 dias, a 4 de Novembro, justamente na data em que o Cinema Corvin deveria ter estreado uma comédia em torno do futebol, a resposta militar soviética chegava, devastadora. A invasão do Exército Vermelho boicotava a estreia, o Cinema Corvin tornava-se um quartel-general para a resistência húngara. Paralelamente à resistência, porém, outro fenómeno germinava, o do êxodo em massa: a essa data determinante na História do país, seguiram-se meses de debandada, com milhares de húngaros à procura de reconstruir a sua vida noutras paragens. Foi assim com os avós de Deborah Pearson, que se puseram a caminho do Canadá, onde a artista nasceu há 34 anos.

O filme em que um vendedor de canetas é confundido com a grande estrela de futebol nacional, Ferenc Puskas, está na posse da família Pearson desde que Deborah era criança. Cresceu a vê-lo repetidas vezes em VHS, com a mãe a seu lado a traduzir as falas de uma língua que nunca aprendeu – tudo porque um dos actores era, afinal, o seu avô materno. O avô haveria de regressar à Hungria e o filme passaria a ser uma fonte primordial de contacto de Deborah com aquela figura, intermediada sempre pela mãe que, ao fim de dez minutos, se fartava de traduzir e começava a desfiar as suas próprias memórias. Por causa disso, Deborah acabaria por desenvolver uma obsessão pela história dos avós, em particular pela do avô e pela sua carreira cinematográfica.

“Nunca tinha percebido que a forma certa para contar esta história era através daquele filme – até há quatro anos”, comenta Deborah Pearson com o PÚBLICO. Quarta e quinta-feira regressa à Culturgest, em Lisboa, para apresentar História História História, um documentário teatral que tem a exacta duração do filme, tanto chamado a assumir o primeiro plano com as liberdades de legendagem a que a autora recorre, como deixado a correr em fundo. A relação com a memória é uma constante na criação de Pearson, cujo anterior The Future Show tinha já sido apresentado na sala lisboeta.

A escolha das meias

História História História assume, desde o início, uma perspectiva um pouco diferente das obras passadas de Pearson: parte de uma reflexão acerca do enorme peso que pequenos acontecimentos podem adquirir nas pessoas em que nos tornamos. “Esta coisa das coincidências, das causalidades, e de como pequenas escolhas podem ter enormes consequências, é algo com que tenho estado obcecada há vários anos, desde criança”, revela. “Quase de uma forma absurda. Em miúda estava sempre cheia de medo a pensar se a escolha das meias teria um impacto na universidade para que acabaria por ir ou se casaria ou não”, ri-se.

Tendo começado por querer descobrir mais sobre aquele filme, a demora em aceder a uma tradução integral levou a que a substituísse pela adivinhação a que se entregava quando o via e tentava atribuir algum sentido ao encadeamento das cenas. Aos poucos, foi reconhecendo que, na verdade, o centro da obra que preparava se deslocava para essa ideia de acidentes que, cumulativamente, definem o rumo de uma vida. Tal consciência havia de remetê-la para um dos seus livros preferidos, Guerra e Paz, que consagra uma secção final ao determinismo e “fala destas escolhas que fazemos, que achamos aleatórias e pensamos que podem ser desfeitas, mas vão-se amontoando e ossificam, começando a compor uma história”. “Quanto mais nos afastamos, mais essas decisões acabam por nos parecer muito mais importantes.”

Na cabeça de Deborah, História História História é uma colaboração que mantém com um filme, sendo que apenas a qualidade da sua interpretação varia em cada apresentação. Essa aparente imutabilidade é algo que lhe interessa igualmente. Se chegou a pensar a comédia como um símbolo de escolhas narrativas que, de alguma maneira, permanecem estáticas no cinema, acabou por se divertir com o exemplo perfeito que tinha escolhido, ao descobrir que, anos após a revolução de 1956, o filme acabou por ser parcialmente censurado, mostrando-se tão permeável como qualquer outro elemento a ser “alterado pelos ventos da História”.

Colectivo e individual

Em palco, Deborah Pearson lida em permanência com vários planos históricos: a sua história pessoal e a forma como se define como produto dos acontecimentos que guiaram os passos das gerações que a antecederam; a história de amor da sua avó, fugida da Hungria, “país em que nunca se sentiu acolhida” e onde “passou a vida a ouvir que não era húngara o suficiente” devido à sua condição de judia; a História recente do país e a sua implicação na vida colectiva, mas também na individual. Quis também chamar a atenção para “algo de que nos esquecemos frequentemente quando estamos a ver um filme: não são apenas personagens mas seres humanos que estão a representar, com as suas questões e os seus problemas pessoais”. “E isso prende-se também com o facto de um filme não poder existir fora do seu contexto histórico e político.”

É um dado importante numa peça em que o plano histórico e o pessoal estão sempre embrulhados um no outro. Tanto assim que, numa conversa com a avó, ouvimos esta confessar com a leveza de quem apenas pensa, por momentos, na sua própria trajectória, que provavelmente não se teria separado do seu marido se ambos tivessem permanecido na Hungria. “A simplicidade com que ela diz isso é esmagadora”, reage Deborah. “Ela diz que eles estariam juntos mas assim eu não existiria. É curioso porque o que ela diz é tão simples e tão pessoal, sobre um acontecimento na vida dela que poderia ter tomado um de dois caminhos, mas dizê-lo a uma das suas descendentes é para mim imensamente existencial.”

Esse impacto da História na esfera íntima, capaz de elevar ou destruir romances, é também uma camada que Deborah Pearson gostaria que passasse para o seu público. Há pouco tempo, conta, assistiu a um espectáculo em que o comediante em palco perguntava ao seu público se as suas vidas amorosas tinham piorado ou melhorado no pós-"Brexit". “E para a esmagadora maioria das pessoas tinha piorado”, diverte-se. Mas essa é uma outra face dos números de depressão no Iraque que, naturalmente, durante a guerra deixaram de ter como causa principal razões pessoais e passaram, quase a 100%, a dever-se a razões políticas.

Os grandes e pequenos acontecimentos andam sempre de mão dada e moldam a toda a hora a forma como as narrativas se constroem. Quando apresentou História História História na Eslovénia, lembra como exemplo, um artista húngaro na assistência identificou o comentador desportivo como alguém que se tornou um jornalista de direita. Este pequeno facto, tivesse Deborah sabido dele a tempo, teria possivelmente reconstruído toda a peça. A história molda-se sempre aos factos disponíveis.

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