Testes com nova vacina para malária revelam 100% de eficácia

Cientistas testaram vacina em 35 participantes e estão optimistas, mas avisam que, antes de se pensar em estratégias de vacinação em massa, é preciso mais investigação.

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Fêmea de mosquito anófeles a alimentar-se de sangue JamesGathan/CDC

Um ensaio clínico de uma nova vacina contra a malária revelou uma eficácia de 100% num grupo de nove pessoas que recebeu três doses com intervalos de 28 dias. Segundo o artigo publicado esta quinta-feira na revista Nature, a protecção manteve-se dez semanas após a última dose da vacina. A equipa de investigadores usou os parasitas vivos da malária encontrados nas glândulas salivares do mosquito que infecta os humanos para estimular a imunidade num grupo de 35 voluntários saudáveis.

Apesar de todos os esforços, ainda não existe ainda uma vacina para a malária no mercado. Nos últimos anos, multiplicam-se as notícias sobre os bons resultados de experiências e ensaios clínicos que se realizam em vários laboratórios. Parece que estamos cada vez mais perto mas ainda não chegámos lá. Para já, existe apenas uma vacina, identificada como RTS,S/AS01, da empresa farmacêutica GlaxoSmithKline, que é destinada às crianças e que foi aprovada pela Agência Europeia do Medicamento. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), esta vacina garante uma protecção entre os 30 e 50% e deverá começar a ser usada em campanhas de imunização em 2018. Foi a primeira e única aprovada até agora e, segundo a OMS, é mais uma ferramenta para juntar (e não substituir) às outras medidas de prevenção, diagnóstico e tratamento adoptadas nos vários países afectados.

O artigo publicado na Nature esta quinta-feira é mais um exemplo do esforço no combate desta doença que, em 2015, infectou 212 milhões de pessoas e matou 429 mil. Os investigadores estão a explorar várias estratégias de vacinação que usam parasitas vivos atenuados ou inactivados (Plasmodium falciparum) que causa a doença e que é transmitido através da picada de mosquitos (a fêmea) Anopheles.

Nesta investigação, os cientistas usaram uma vacina chamada PfSPZ que é composta por parasitas vivos que estimulam a imunidade e que são mortos por fármacos antimaláricos administrados ao mesmo tempo. Segundo refere ao PÚBLICO Stephen Hoffman, investigador do laboratório Sanaria, nos EUA, e um dos autores do artigo, este ensaio clínico foi realizado na Alemanha e a mesma vacina está a ser testada – com diferentes estratégias – nos EUA e na Guiné Equatorial. Nos próximos meses, acrescenta, deverão arrancar mais ensaios clínicos nos EUA, Mali, Gabão e Gana.

Os investigadores querem testar esta nova fórmula com diferentes doses, diferentes intervalos entre as administrações, em diferentes populações e com diferentes estirpes do parasita. Para já, os resultados são animadores. Este ensaio clínico usou 35 voluntários saudáveis que receberam doses variáveis da vacina e, simultaneamente, de um fármaco antimalárico (cloroquina). Depois, os participantes foram infectados com a mesma estirpe de malária usada na vacina. No esquema de vacinação com três doses e quatro semanas de intervalo, os que receberam as doses mais baixas mostraram uma protecção que variou entre os 33% e os 67%. Porém, no grupo de nove participantes que recebeu as doses mais elevadas com os mesmos 28 dias de intervalo ninguém foi infectado pelo parasita. A vacina não provocou efeitos secundários e, passado dez semanas da última imunização, continuava a proteger estes voluntários, acrescenta o artigo. A mesma dose elevada de PfSPZ mas administrada em intervalos mais curtos, de cinco semanas, protegeu cinco dos oito indivíduos (63%).

“Só estão publicados três ensaios clínicos de vacinas contra a malária que revelaram 90% ou mais de eficácia. São todos de vacinas concebidas por nós”, refere o investigador do laboratório Sanaria. Em relação às outras vacinas testadas pela mesma empresa, Stephen Hoffman acredita que esta nova versão “garante o mesmo nível de protecção mas usando significativamente menos PfSPZ, o que quer dizer que o custo de produção será também significativamente mais baixo”.

Apesar do optimismo, os autores deste trabalho notam que é preciso mais investigação e mais ensaios com diferentes estirpes do vírus e diferentes esquemas (doses e intervalos) de vacinação até ser possível perceber se a PfSPZ pode ser usada para vacinação em massa numa estratégia de prevenção contra a malária.

Enquanto se espera por estes (e outros) resultados das investigações, a malária continua a ser um dos principais problemas de saúde pública mundial. Em 2015, o parasita era endémico em 95 países. O Plasmodium falciparum é prevalente na África subsariana, onde a doença é mais devastadora, com 88% dos casos e 90% das mortes. O Plasmodium vivax está pouco representado naquele território, mas predomina na Índia, no Sudeste asiático e na América Central e do Sul.

E os parasitas também parecem estar a esforçar-se bastante para resistir aos ataques dos investigadores. Segundo um estudo recente na revista Lancet Infectious Diseases, os parasitas da malária que resistem aos melhores fármacos que dispomos actualmente – a artemisinina e a piperaquina – já estão espalhados por todo o Camboja. E parasitas ainda mais adaptados do que aqueles para resistir aos medicamentos estão a disseminar-se pelo Sudeste do Laos e pelo Nordeste da Tailândia.

A estratégia da OMS para a malária estabelece o ambicioso objectivo de uma redução de “pelo menos 90%” na incidência e taxas de mortalidade em 2030.