Crítica

Moonlight: o mundo de acordo com os nossos desejos

Moonlight, formalmente, vive de efeitos de estilo ornamentais que deixam tudo a soar a falso.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

É o sítio mais extraordinário para nos lembrarmos dela, mas lá para fim, quando Moonlight começa a revelar que no seu coração palpita sobretudo uma história de amor e um idealismo arrancado à máscara do realismo, assalta-nos a famosíssima epígrafe do Desprezo, aquela que diz que “o cinema substitui ao nosso olhar um mundo de acordo com os nossos desejos”.

Substitua-se “desejos” por “valores”, a “poesia” pela “política”, e tem-se aí, nessa frase com mais de 50 anos, o segredo da aclamação (que apenas por razões “poéticas” permaneceria misteriosa) de certos filmes pelas grandes ocasiões como os Óscares ou os festivais de maior gabarito.

É claro que a exemplaridade de Moonlight se constrói sem o mundo, e por isso o seu “realismo” nos parece formulaico, um simples cenário ou mera música de fundo: a complexidade “social” (os meios do tráfico de droga) está à espera de ser redimida pela pureza das personagens, e todo o caminho do filme se faz no trajecto para essa singeleza.

Dizer que Moonlight, formalmente, vive de efeitos de estilo ornamentais que deixam tudo a soar a falso (mas há bem pior, em todo o caso) — dizer isso para quê, se ele nos dá um mundo de acordo com “os nossos desejos” e esse é hoje o valor supremo de apreciação das obras cinematográficas de grande circulação?