Arnd Wiegmann/Reuters
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Megafone

Vaduz, Liechtenstein: 50 tons de verde e ordem, muita ordem

Depois de serpentear pelos Alpes suíços chegamos a um vale, no Reno. É preciso ter cuidado para não passar pelo principado sem se perceber que lá se esteve. Os seus 160 quilómetros quadrados fazem do Liechtenstein uma realidade quase tão curta quanto a de uma dimensão paralela.

Entrar em Vaduz às seis da tarde de um domingo de Agosto deverá ser o equivalente a visitar o cenário de um filme rodado há décadas mas meticulosamente mantido e actualizado desde o fim da rodagem. Nada está aberto, à excepção de uma loja de souvenirs, e todos os lugares para os carros estão reservados, ainda que não haja carros a circular. Nem pessoas: as que aparecem desaparecem na sua expressão pouco dada a forasteiros. Na principal rua da cidade, reservada a peões, o silêncio é praticamente sepulcral, apenas aqui e ali cortado pelo tilintar dos chocalhos das muitas ovelhas e vacas espalhadas pelos Alpes.

Perante o inexistente hustle and bustle da cidade capital, somos levados a olhar para cima, para a cordilheira de montanhas que cerca todo o país. A sensação é a de quem chegou ao filme A Vila e embora os habitantes locais não pretendam viver numa época passada a firmeza com que se fecham dentro daqueles quatro muros imaginados é a mesma.

O Liechtenstein é nada mais nada menos do que o país mais rico do mundo, o que tem uma taxa de desemprego mais baixa e o único a ficar totalmente dentro de uma cordilheira, o que o torna duplamente landlocked. Tem apenas 35 mil habitantes (consideravelmente menos do que a freguesia de Paranhos, no Porto), vivendo em fronteiras que não se alteram desde 1434, obedientes a um príncipe que mora num castelo sobranceiro, o Castelo Vaduz. É o único país no mundo, também, que tem mais empresas do que habitantes e um dos mais reconhecidos paraísos para quem quer lavar dinheiro. Uma tradição antiga, que remonta à época em que a principal actividade do Liechtenstein era a de sanear os produtos de luxo vindos das colónias portuguesas.

Uma espécie de conto de fadas

Na segunda-feira de manhã, Vaduz estava um pouco mais agitada. O Museu de Arte estava aberto, assim como a catedral. No centro, tudo cuidado ao pormenor, nem um vestígio de desarrumação, algo que não devesse estar no sítio nem nada que pudesse, por um segundo, ter saído da ordem.

Perante tanta organização, o nosso espírito latino demora algum tempo a habituar-se, sem qualquer tipo de julgamento quer para uns, quer para outros. Os passeios pela periferia de Vaduz, encontrando caminhos onde possivelmente existem mais de 50 tons de verde, o constante som da água a correr, dos animais, dos "trrins" das bicicletas… O silêncio do sossego de uma alameda perdida no meio do sopé dos Alpes, de uma paisagem que, por muito que tentemos, não encontra fim, lá do alto, de Triesenberg, onde mora o príncipe e onde trabalha uma senhora que cola selos nos passaportes de quem quer mostrar ao mundo que passou pelo Liechtenstein. São motivações mais do que fortes para lá ir algum tempo.

Quase na hora da despedida, Vaduz ganhou mais encanto. Numa conhecida cadeia de fast food, aos balcões, nas mesas, em cima das motas, nos muros do restaurante, a juventude imigrante portuguesa resolve juntar-se: uns para trabalhar, outros para duas de letra. Dizem-nos que, no geral, não gostam muito de lá viver. Mas as condições são boas. “Uns anos de trabalho e regressamos a Portugal…”

Sair do Liechtenstein é fácil e quase não nos apercebemos. Tanto que acabámos por entrar de novo sem querer, depois de uns minutos na Áustria, para logo voltar a sair. O guarda da fronteira estranhou estas idas e vindas mas logo voltou à sua contemplação, certo de que não seria nada. De facto, o último grande problema diplomático no principado aconteceu em 2007, quando alguns soldados suíços se perderam nos Alpes e entraram, sem querer, 1,5 quilómetros dentro do Liechtenstein. Pediram desculpa pela então qualificada "invasão" e tudo ficou como dantes.

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