Ferrugem-do-trigo ameaça culturas na Europa e no Norte de África

Doença fúngica destruiu as culturas na Sicília no ano passado, num dos piores surtos na Europa em mais de 50 anos.

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Trigo BENOIT TESSIER/Reuters

Uma nova estirpe altamente destrutiva que arrasou as colheitas de trigo no ano passado na Sicília, Itália, poderá espalhar-se pelo Mediterrâneo durante 2017, ameaçando as colheitas e os meios de subsistência de pequenos agricultores – alertaram os cientistas esta sexta-feira, que elaboraram estudos em colaboração com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A FAO pediu assim aos países da Europa e do Norte de África para ficarem vigilantes, de forma a evitar que eventuais surtos da ferrugem-do-trigo se transformem numa epidemia que diminua a produção de alimentos.

Em 2016, milhares de hectares de culturas de trigo foram destruídos na Sicília num dos maiores surtos de ferrugem-do-trigo que atingiu a Europa em mais de 50 anos, sublinham os investigadores. “Há cinco ou seis décadas que não víamos nada assim”, diz David Hodson, do Centro de Melhoramento do Milho e do Trigo (CIMMYT).

Uma investigação científica do CIMMYT e da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, publicada na revista Nature desta semana, descobriu que aquele surto foi causado por uma nova estirpe de ferrugem-do-trigo, uma infecção fúngica que, se for deixada sem tratamento, pode destruir totalmente as colheitas em semanas. “É muito agressiva”, disse Biagio Randazzo, um engenheiro agrónomo que detectou a doença, acrescentando que na Sicília diferentes tipos de trigo duro, usados para fazer massas, bem como pão de trigo, e algumas variedades de aveia foram afectados.

Os esporos da ferrugem-do-trigo espalham-se através do vento, e em 2017 o fungo pode vir a afectar as culturas de países vizinhos da Itália, como a Grécia, a Albânia, a Líbia e a Tunísia, alertaram os investigadores.

Fazil Dusunceli, fitopatologista da FAO, explicou que a doença é particularmente preocupante para os pequenos agricultores no Norte de África, que, em conjunto, contribuem para uma grande parte da produção de trigo na região.

Segundo as investigações científicas, a aplicação desde muito cedo de fungicidas é fundamental para conter os surtos, mas os pequenos agricultores muitas vezes têm falta de dinheiro ou de conhecimentos para os usarem de forma eficaz, referiu ainda Fazil Dusunceli. “Eles estão mais vulneráveis.”  

Mais de mil milhões de pessoas de países em desenvolvimento dependem do trigo como fonte de alimento e de rendimentos, segundo a FAO. Também surgiu uma outra ameaça nalgumas zonas da Europa, África e da Ásia com o aparecimento de duas novas estirpes de outra doença – a ferrugem amarela –, embora ainda não seja claro o seu impacto potencial.

“É mais importante do que nunca que especialistas de instituições internacionais e países produtores de trigo trabalhem juntos para parar o rasto desta doença”, disse ainda Fazil Dusunceli, referindo-se à ferrugem-do-trigo. “Temos de ser rápidos e rigorosos na forma como lidamos com isto.”

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