Morreu o tradutor e cinéfilo Rui Santana Brito

Antigo vice-presidente da Cinemateca Portuguesa e grande responsável pela sua área de documentação, o tradutor morreu na quarta-feira, deixando inacabada uma nova versão de O Vermelho e o Negro.

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O tradutor e antigo vice-presidente da Cinemateca Portuguesa, Rui Santana Brito, morreu na quarta-feira. Nascido em 1944, integrou no início dos anos 80 o pequeno grupo de pessoas que João Bénard da Costa leva para a Cinemateca Portuguesa, onde se tornou “a figura central na área da documentação”, diz o crítico de cinema e editor Manuel S. Fonseca, que fez parte da mesma equipa.

O editor da Guerra e Paz elogia ainda o trabalho do amigo na dinamização da extensa biblioteca da Cinemateca e lembra que “os ciclos e os catálogos eram muito apoiados pelo Rui, que era também um grande cinéfilo”. A ponto de “ter sonhado fazer um dicionário com uma dimensão três ou quatro vezes superior ao do Thomson” [A Biographical Dictionary of Cinema (1975), de David Thomson].

Chefe de divisão do Centro de Documentação e Informação da Cinemateca Portuguesa durante longos anos, ascendeu em 1998 à direcção da instituição, mandato que seria renovado em 2001, tendo sido, com José Manuel Costa (o actual director), um dos vice-presidentes da direcção de Bénard da Costa, cargo que manteve até se reformar, em finais de 2005.

Ao longo da década de 80, traduziu para as Edições 70 vários livros italianos, como a História da Crítica de Arte, de Lionello Venturi, A Cidade e o Arquitecto, de Leonardo Benevolo, ou o romance Fabrizio Lupo, de Carlo Coccioli. “Ele traduzia directamente do italiano, do francês e do inglês”, diz Manuel S. Fonseca, que se lembra de um juiz tão exigente como o poeta e crítico Joaquim Manuel Magalhães “ter elogiado uma das suas traduções do italiano”.  

O seu talento de tradutor também foi posto ao serviço da própria Cinemateca, onde traduziu textos para diversos catálogos, incluindo o que Manuel S. Fonseca organizou, em 1987, em torno da obra do cineasta Francis Ford Coppola.  

Mas foi nos últimos anos de vida que a sua actividade de tradutor se intensificou, tendo trabalhado regularmente para a editora Guerra e Paz, que Manuel S. Fonseca fundou em 2006, quando Rui Santana Brito acabara de se reformar.

Das muitas obras cuja tradução lhe encomendou, Manuel S. Fonseca lembra “a tradução apuradíssima, magnífica”, das 900 páginas de História de Juliette ou as Prosperidades do Vício, do Marquês de Sade, ou a do romance Rei Jesus, de Robert Graves, uma obra “muito difícil de traduzir”. A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou O Livro dos Snobs, de William M. Thackeray, são outros títulos traduzidos por Rui Santana Brito para a Guerra e Paz. E em 2015, Manuel S. da Fonseca resolveu dar também o gosto ao dedo e traduziu em conjunto com o amigo O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry, que publicou com uma surpreendente capa de fundo preto.

O último trabalho que Rui Santana e Brito tinha em mãos era outra missão espinhosa: uma nova tradução portuguesa de O Vermelho e o Negro, de Stendhal. “Infelizmente não pôde acabá-la, mas vou tentar recuperar o trabalho já feito, que corresponderá a uns dois terços do livro”, diz o editor da Guerra e Paz.

O velório de Rui Santana Brito realiza-se esta quinta-feira, a partir das 17h, na igreja do Campo Grande, em Lisboa, e o seu funeral sai na sexta-feira, às 17h30, para o crematório do cemitério do Alto de S. João.