Crítica

Wim Wenders e os anjos

30 anos depois regressa às salas um dos mais célebres filmes de Wenders, aquele que, com Paris, Texas, forma o mais popular par de filmes do realizador durante a década de 1980.

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Um longo cerimonial em que se mergulha imediatamente e só se desperta duas horas depois
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Quase 30 anos depois - o filme estreou em Portugal no dia 1 de Janeiro de 1988 - regressa às salas um dos mais célebres filmes de Wim Wenders, e por certo aquele que, com Paris, Texas (estreado três anos antes), forma o mais popular par de filmes do realizador durante a década de 1980. Na altura, significava uma espécie de regresso à Alemanha, onde Wenders praticamente não filmava desde o final dos anos 1970.

Tinha andado pelos Estados Unidos, por Portugal, e imediatamente antes de As Asas do Desejo estivera no Japão a filmar a sua homenagem a Ozu, Tokyo-Ga. Todo este tempo passado, esse aspecto ressalta: duma forma de que talvez nem Wenders suspeitasse (as coisas mexeram-se muito depressa nesse final dos anos 80), As Asas do Desejo converteu-se num extraordinário documento do período final da Berlim dividida, e um dos “protagonistas” do filme (o Muro), com uns empurrõezinhos a ajudar à sua decrepitude natural, finar-se-ia cerca de dois anos depois. Nada no filme o parece adivinhar, e algumas das mais impressionantes sequências têm-no como centro, grande cicatriz de pedra a lembrar Berlim do seu passado ao mesmo tempo que torna impossível a reconciliação com ele.

É a “tragédia alemã” que Wenders convoca, e por isso lá está Curt Bois, o velho actor que cruzou o século (nasceu em 1901, morreu em 1991, viu tudo, de Weimar à reunificação), à procura de Potsdamerplatz sem perceber ou acreditar que aquele deserto árido bordejado por muros e arame farpado é o que resta de Potsdamerplatz. Este testemunho fotográfico releva também outro elemento do filme que é impossível reduzir: as espantosas imagens (sobretudo o preto e branco) arrancadas pelo veterano operador francês Henri Alekan, numa materialidade encantatória que (é ver aquelas vistas aéreas de Berlim, ou os planos nas ruas, no metropolitano) transmite a toda a cidade uma atmosfera de melancolia inexcedível. Os deuses, e não só os anjos, estavam com Wenders quando ele se pôs a filmar esta Berlim.

No resto, As Asas do Desejo, com as suas personagens angelicais fascinadas pela vida terrena, é uma fábula platónicae frequentemente muito palavrosa, com as repetitivas lengalengas de Peter Handke a serem aquilo que hoje mais envelhecido pareceassente numa ideia que, não sendo nova (a divisão cores/preto e branco para separar o mundo dos anjos e o mundo dos homens), se aguenta ainda com uma certa frescura, para o que muito contribui, ainda, a excepcional fotogenia. Para além dos anjos (Bruno Ganz e Otto Sander) há a trapezista de Solveig Dommartin, e outro “desterrado”, o actor americano Peter Falk, a cruzar a cidade sempre em estranheza, ele que está ali apenas para rodar um filme americano sobre o Holocausto (visto hoje, parece uma espécie de “premonição” de A Lista de Schindler), elemento narrativo que mantém em lume brando, durante todo o filme, a questão da “tragédia alemã”. E, last but not least, como se tudo se conjugasse para fazer um sentido justíssimo enquanto retrato de época da cidade, a presença do então “berlinense” Nick Cave, cujas canções (a alucinante The Carny, por todas) assombram a banda sonora, e que é filmado, também numa cena magnífica, em plena actuação num cabaret subterrâneo.

Não é daqueles filmes de que só pode dizer que “não envelheceu uma ruga”. Mas se calhar é por isso mesmo, por todas as “rugas” que ostenta o seu retrato de um mundo rapidamente desaparecido, que ainda é um filme singularmente vivo, e que se revê a partir daquela ladainha inicial escrita por Handke, “quando a criança criança era, perguntava porque é que tu és tu e eu sou eu?”como um longo cerimonial em que se mergulha imediatamente e só se desperta duas horas depois.