Opinião

Manifesto de Lisboa Pelo Progresso Social

Os partidos políticos tradicionais não oferecem perspectivas realmente atraentes e, na maioria dos casos, concentram-se na gestão das restrições financeiras do momento, escondendo a sua impotência em discursos focados em questões morais ou sociais de importância secundária.

O mundo contemporâneo está sob tensão. Enfrentamos uma rápida aceleração de crises na economia, sociedade, política, cultura, ambiente, mas também de valores. Estamos diante de um mundo instável, imprevisível e em ansiedade permanente – uma ansiedade que ameaça a paz e a coesão social.

Uma ansiedade alimentada pela falta de perspectivas e oportunidades para vastos segmentos da população, para os trabalhadores pouco qualificados, para os jovens sem emprego, os migrantes e os refugiados. A precariedade e a insegurança, real ou percepcionada, o aumento das desigualdades estruturais, que por sua vez geram uma forte redução da mobilidade social intergeracional, afetam hoje uma grande maioria da população mundial.

Frente a esses desafios, o que vemos? Os partidos políticos tradicionais não oferecem perspectivas realmente atraentes e, na maioria dos casos, concentram-se na gestão das restrições financeiras do momento, escondendo a sua impotência em discursos focados em questões morais ou sociais de importância secundária. As incertezas e disfunções na condução das políticas públicas nacionais são agravadas pela cooperação cada vez menor nos organismos internacionais (por exemplo, a Organização Mundial do Comércio ou da União Europeia).

O resultado mais dramático dessas impotências acumuladas é o regresso ou emergência de alternativas autoritárias ou populistas. A ausência de uma visão positiva de longo prazo é, repetidas vezes, invocada como uma das causas dessa incapacidade política de pesadas consequências.

Os movimentos de protesto que abalam as elites nos países desenvolvidos (Occupy, Indignados, Nuit Debout) ou que derrubaram ditaduras nos países emergentes (Primavera Árabe) têm, também, dificuldade em encontrar ideias motivantes e agregadoras, capazes de dar origem a estruturas organizadas em torno de programas consistentes. Há uma penúria de alternativas, e os políticos que surfam as ondas da ira popular não fazem mais do que explorar a instabilidade, sem oferecer perspectivas sérias.

Para enfrentar coletivamente esses desafios, os decisores políticos e todos os atores sociais necessitam de ferramentas que permitam compreender a evolução das economias e das sociedades, os obstáculos que impedem a identificação e/ou a implementação de soluções duradouras e que ameaçam o bem comum e as possibilidades de transformação, bem como, os riscos associados.

Os mais de 300 cientistas (história, economia, sociologia, ciência política, direito, antropologia, estudos da ciência e tecnologia, urbanistas, entre outros) de todo o mundo, que tomaram a iniciativa de responder a esta necessidade procuram, através do relatório a apresentar em Lisboa no próximo dia 28 de janeiro, oferecer uma contribuição singular e central para os debates públicos em curso nas nossas sociedades.

O objetivo do Painel Internacional para o Progresso Social (IPSP) é pensar os grandes problemas sociais do século XXI e apontar soluções e caminhos, baseados nas contribuições das ciências sociais e humanas, que possam sugerir iniciativas que permitam conduzir as instituições e os decisores políticos na direção de sociedades mais justas nas próximas décadas.

O IPSP é o primeiro painel a assumir o desafio do progresso social. Que impacto procuramos nós? Através desta iniciativa, esperamos enriquecer o debate público com o objectivo de levar à elaboração de políticas públicas, colocando à disposição de todos ideias, sínteses e recomendações sobre as questões centrais para o progresso social nas nossas sociedades.

A principal mensagem do trabalho do IPSP é pró-ativa. Existem oportunidades consideráveis que podem melhorar a condição humana, em quase todo o mundo. É possível erradicar a pobreza preservando o meio ambiente, viabilizar o estado social atacando as desigualdades, libertar a política das pressões financeiras e democratizar as decisões económicas que determinam o destino das populações.

No entanto, para alcançar essas oportunidades, temos de encontrar caminhos e superar obstáculos e resistências consideráveis. Acreditamos que uma visão dessas oportunidades, abraçada pelos cidadãos e agentes de mudança, pode contribuir para uma agenda clara de progresso social.

Pode o IPSP pretender, com legitimidade, aconselhar a sociedade? A ciência moderna foi construída com a promessa de contribuir para a melhoria da espécie humana e o progresso das sociedades. Muitas esperanças foram cumpridas, mas outras permanecem cruelmente à espera da sua realização.

No início do século XXI, as sociedades ainda estão sujeitas a uma violência incompreensível como a guerra e o terrorismo, a desigualdades antigas e novas que corroem os vínculos sociais, a desafios à manutenção de um ambiente sustentável atingem uma escala sem precedentes. A ambição do IPSP não é impor uma contribuição especializada e unilateral, mas ajudar a estimular e alimentar um grande debate sobre o futuro das sociedades humanas e reavivar a dinâmica do progresso social.

A escolha de Lisboa é também uma manifestação do contributo e papel que a comunidade científica, os decisores políticos e movimentos sociais portugueses podem ter como dinamizadores, a nível nacional e internacional, de experiências e propostas para o desenvolvimento do progresso social e um fortalecimento socialmente progressistas.

Convidamos todos investigadores universitários, especialistas da administração publica central e local, as ONG, os Think Tanks, os representantes da sociedade civil, políticos e todos os cidadãos interessados a comentar e reagir ao relatório disponível em https://www.ipsp.org/.