Entrevista

“Qualquer país deve estar preparado para sair do euro - ou para o fim do euro”

Catarina Martins lembra que também para controlar o défice se dizia que não havia alternativa, e houve. Agora insiste na necessidade, defendida pelo BE, de que a dívida pública seja renegociada unilateralmente.

O BE avisa que esperar pelas eleições alemãs deixará Portugal em maus lençóis e diz que não há alternativa a uma reestruturação unilateral da dívida. E, depois da “capitulação da Grécia”, tem de se preparar também para a saída do euro.

O BE está conformado em esperar que a solução para a dívida portuguesa venha da União Europeia, depois das eleições alemãs, como o primeiro-ministro?
Não só não estamos conformados, como não acreditamos que venha. Continuamos a achar que o país terá de fazer um processo de reestruturação da dívida. Há duas questões diferentes. A hegemonia de direita, na política e na comunicação social, criou dois mitos: um é que a crise das dívidas públicas era um problema do défice; o outro é que o défice se controlava cortando nos salários e nas pensões. Chegámos à conclusão que é possível recuperar rendimentos e controlar o défice, como está à vista. Por outro lado, também chegamos à conclusão de que controlar o défice não serve para controlar a dívida, porque a dívida pública não é um problema do nosso país e da nossa economia. Tem a ver com o desenho do euro e com a resposta à crise financeira internacional de 2007/2008. E, portanto, precisa de ser reestruturada. Não há nada que possamos fazer, do ponto de vista das contas públicas da nossa economia, que resolva o problema da dívida que não a reestruturação.

A vossa posição é por uma renegociação unilateral?
Achamos que não há outra forma. Nós gostaríamos que houvesse. Ou seja, se houver outra forma, nós cá estamos para a debater. Mas vejamos: o PS teve durante muito tempo a esperança de que fosse François Hollande quem iria proteger o sul da Europa e a periferia do euro - mas julgo que já ninguém tem coragem de se lembrar de que Hollande teoricamente é socialista. A seguir houve imensa esperança em Renzi, porque a Itália tem um problema de dívida grande - mas Renzi veio, foi e nunca levantou o problema da dívida a nível europeu. O Governo grego capitulou em toda a linha com a promessa de que, depois, ia haver uma reestruturação da dívida, e a sua capitulação deu em nada, porque depois o Governo alemão recusou-se a abrir o dossier da reestruturação. Nós vamos acreditar em mais um passo que não vai dar em nada? Ou seja, o que o BE diz não é que não era bom que houvesse uma solução europeia, é que temos de ser sérios, olhar para a correlação de forças que existe e compreender que, se ficarmos à espera de uma solução europeia, podemos ficar em maus lençóis.

E desencadeando Portugal o processo de uma forma unilateral, o país está preparado para as consequências que isso também traz?
Neste momento não está. É preciso um Governo que vá preparando o país para isso. Até do ponto de vista do sistema financeiro, para proteger Portugal dos choques externos. Não se fazem estas coisas de ânimo leve nem de um dia para o outro. Agora achamos que era melhor que o Governo estivesse a preparar-nos para isso do que à espera do fim das eleições alemãs. Até por isso é que manter o Novo Banco público era importante.

O PCP no Congresso aprovou uma campanha para renegociação da dívida e para preparar a saída do euro. Como é que é? O BE vai ficar a ver o PCP a fazer uma campanha? Ou também vão ter iniciativas neste domínio?
Estamos muito empenhados neste primeiro trimestre, do ponto de vista de campanha pública, na questão da precariedade. Temos estado a fazer sessões no país com precários da função pública de várias áreas, de vários sectores, levantando questões de precariedade também no privado. Não significa que o BE não vá fazer o trabalho, pensamento, reflexão com economistas e não só, em Portugal e na Europa, sobre as questões do euro e sobre as questões da dívida. Temo-lo feito. Temos participado um pouco mais activamente nas discussões do Fórum Europeu de debate do chamado “Plano B”, que hoje aparece mais como um campo onde se discute verdadeiramente o que é que vai acontecer ao euro. Acho que não há ninguém na Europa que hoje aposte muito na sustentabilidade do euro.

Mas o BE aproxima-se do PCP na questão da saída do euro?
Achamos que o país não deve limitar a sua economia ou destruir a sua capacidade produtiva em nome de uma moeda, que é um problema e não um instrumento da economia.

E isso quer dizer o quê, na prática?
Depois do que acontece na Grécia, qualquer país europeu que se leve a sério deve estar preparado para o fim do euro ou para sair do euro.