Bem-estar das crianças está em risco nos contentores do São João

Era uma situação provisória mas desde 2008 que o internamento pediátrico fuciona em contentores. Onde chove, faz frio e não tem acesso directo ao edifício central, obrigando os doentes a ir de ambulância.

Em 2007, as urgências pediátricas também estiveram em contentores
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Em 2007, as urgências pediátricas também estiveram em contentores Adriano Miranda

As actuais instalações do internamento pediátrico do Centro Hospitalar de São João (CHSJ), no Porto, a funcionar há anos em contentores, estão a deteriorar-se de dia para dia, comprometendo o conforto e o bem-estar das crianças.

Uma avaria no sistema de ar condicionado obrigou recentemente os doentes a suportarem temperaturas muito baixas, tendo necessidade de dormir com casacos e outros agasalhos para ficarem mais confortáveis. Problemas no sistema de aquecimento fazem com que doentes tenham de ser transferidos de enfermaria enquanto a avaria não é reparada. As queixas sucedem-se não só dos doentes, mas também dos profissionais.

Mas o internamento pediátrico do São João debate-se com outras insuficiências como infiltrações de água que fazem com que chova dentro dos contentores. Há meses desabou uma parte do tecto num dos corredores.

“As instalações estão a deteriorar-se, o que faz com que ocorram com alguma frequência situações que causam transtorno ao funcionamento do serviço, com os doentes a serem transferidos”, disse ao PÚBLICO o director do serviço de Pediatria, Manuel Fontoura.

“É uma situação difícil de gerir que obriga a muitos cuidados e a arranjos para suprir falhas”, disse o director do serviço de Pediatria, que faz parte do Hospital Pediátrico Integrado, que é dirigido pelo professor Estevão Costa.

Com 54 camas, o internamento pediátrico foi transferido em 2008 para um conjunto de contentores que estão fisicamente separados do edifício central do hospital, o que obriga a que as crianças tenham de ser transportadas de ambulância sempre que necessitem de fazer exames, consultas ou ir à urgência pediátrica.

“As crianças estão numa situação má”, diz Manuel Fontoura, que defende que tem de ser encontrada uma outra resposta por parte do Ministério de Adalberto Campos Fernandes uma vez que o internamento pediátrico foi transferido provisoriamente para aquelas instalações pelo prazo de dois anos e esse tempo que já se esgotou há muito.

Este especialista revela que a direcção do centro hospitalar “tem consciência da degradação das instalações do internamento pediátrico” e que estará empenhada em encontrar uma resposta adequada para as crianças que acorrem ao hospital, até porque — nota — o Centro Materno Infantil do Norte absorve outros doentes e não dispõe de valências que o São João tem a nível da Neurocirurgia ou em relação a algum tipo de cirurgias.

O candidato a bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, que é médico no Hospital de São João, está preocupado com as condições em que funciona o internamento pediátrico e garantiu ao PÚBLICO que se vai empenhar na resolução deste caso. “É uma das minhas prioridades. Se for eleito bastonário da Ordem dos Médicos pretendo ajudar o Ministério da Saúde a tentar resolver estas situações. É importante que as crianças sejam tratadas nas condições correctas de dignidade e de segurança a que têm direito”, assumiu.

A anterior administração do CHSJ, presidida por António Ferreira, empenhou-se na construção de uma nova ala pediátrica no próprio edifício hospitalar, contando para isso com a colaboração da Associação de utilidade pública Um Lugar pró Joãozinho, presidida por Pedro Arroja, com quem celebrou um acordo. A primeira pedra da obra, orçada em 25 milhões de euros, foi lançada em Março de 2015 pelo então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

Pedro Arroja comprometeu-se a custear a nova unidade de saúde. Aliás, a Associação foi lançada em Maio de 2009 com a finalidade de angariar fundos para a construção da nova ala pediátrica. O projecto deste novo espaço destinado ao internamento pediátrico estende-se por uma área de 10 mil metros quadrados e prevê cinco pisos.

Sucede que depois de ser lançada a primeira pedra, as duas entidades desentenderam-se devido a um conflito jurídico. Na altura, António Ferreira levantou dúvidas quanto à legalidade de alguns pontos que iriam constar do acordo a assinar com a Associação, mecenas da nova unidade de saúde, e o assunto foi encaminhado para a empresa de advogados Cuatrecasas. Queixando-se de não ter sido ouvido, Pedro Arroja arrasa o documento e insurge-se contra o facto de o texto “ter sido apresentado como um acordo, quando no fundo é um contrato porque era isso mesmo que lá estava escrito”. Um dos membros da administração do São João opõe-se a que a obra se inicie tendo em conta a posição da Cuatrecasas que questionou um conjunto de aspectos que, na sua perspectiva, “lesam” o erário público.

Em Novembro de 2015, a obra arranca com o ex-presidente do Conselho de Administração do São João a dizer: “Estamos a falar de um sonho”. Pouco depois, os trabalhos voltam a encravar por falta de investimento. A associação tratou de encontrá-lo junto de uma grande cadeia de hipermercados, que financiaria a construção da ala pediátrica em troca da construção de um supermercado no mesmo terreno do hospital que seria cedido por um prazo de 50 anos.