Opinião

O outro preso

A morte de Mário Soares, pela sua dimensão, estendeu uma sombra sobre outras mortes ocorridas nestes dias, de homens cuja vida merece ser lembrada. É o caso do meu amigo e companheiro José Augusto Silva Marques, que era um português raro como poucos. Foi membro da direcção do Grupo parlamentar do PSD, quando fui presidente e sucedeu-me na função quando me demiti. Foi, como deputado e Presidente do Grupo parlamentar que ele foi escassamente lembrado, mas Silva Marques merece mais do que essa lembrança apressada e cómoda, porque em vida fez muito mais coisas e, em muitos casos melhores, para o entendermos.

Silva Marques, filho de gente abastada, envolveu-se no movimento estudantil e na militância política em Coimbra, entrando para o PCP em 1958 e passando mais tarde, em 1961, a quadro clandestino com funções em várias partes do país, no Porto, nas Beiras, em Trás-os-Montes, na mais importante e numa das mais perigosas  organizações do PCP, a Margem Sul. Viveu a vida clandestina com total dedicação, mas, como se viu mais tarde, quando escreveu sobre ela, com olhos de ver, irónicos, críticos, e com uma sensatez que era muitas vezes agressiva: se as coisas eram assim, porque é que as tínhamos que dourar de outra maneira. Era por isso, tido como um homem de mau feitio, muitas vezes brusco quando tinha razão e assumia aquela atitude de no-nonsense, sem paciências, nem rodriguinhos. Os amigos que tinha admiravam-no por isso, no pântano de caracteres que muitas vezes é a política.

Preso em 1962, consegue evadir-se e passa de novo à clandestinidade. A sua fuga foi um golpe de sorte no início e de coragem e engenho a seguir: um ferrolho que fechava mal e que ele encravou fazendo com que a porta ficasse aberta e, de noite,a libertação de um seu companheiro, Jorge Araújo, e a fuga nervosa e sem plano pelo cemitério que existia ao lado do edifício da PIDE do Porto. Na verdade, foi dele toda a iniciativa e mérito da fuga, mas quando caiu em desgraça no PCP, a descrição da fuga passou a iniciativa a Jorge Araújo que teria fugido com “outro preso”…

Foi um dos funcionários do interior que foi ao VI Congresso do PCP em Kiev, então na URSS, e foi nesse Congresso o único que confrontou Álvaro Cunhal. Tendo-se abstido na votação de um dos documentos do Congresso viu o Militante a noticiar que o documento tinha sido votado “por unanimidade”. Exigiu uma rectificação, que nunca foi feita e resolveu abandonar o PCP.

Não era fácil fazê-lo quando se estava na clandestinidade, e, depois de uma cena com Carlos Brito, que incluiu ameaças, atravessou a salto as duas fronteiras, para França. A carta aberta que escreveu aos militantes do PCP anunciava a sua aproximação ao esquerdismo maoista e em França adere a um Núcleo do Comunista com o nome bizarro de “Maria Albertina”. Entrou e saiu de novo porque havia muito pouca liberdade e ainda menos tolerância naqueles anos de exílio em Paris. Silva Marques cria uma nova organização, o Círculo de Iniciativa Política, que organizava uns debates e publicava um boletim. A organização anunciava a crise da influência do esquerdismo mais radical que se esboçava em vésperas do 25 de Abril, abrindo o debate político a sectores considerados reformistas como o PS. Não era fácil, porque as fronteiras entre os grupos e para fora do sector maoista era traçada a ferro e fogo, por um enorme sectarismo.

O 25 de Abril acabou por dar um novo alento ao esquerdismo, como o deu ao PCP, mas em liberdade e no contexto do chamado PREC, a “velha toupeira” da história escavava mais depressa e não no sentido que os trotsquistas pensavam. Silva Marques, como acontecia com muitos esquerdistas que conheciam o PCP de perto, não tinha ilusões e sabia o que estava em jogo. O livro que escreveu então com as suas memórias do PCP foi o primeiro a quebrar as barreiras do silêncio, como fez também o “Chico da CUF”, e permanece até hoje o melhor que se escreveu de “dentro” do PCP. Nas nossas conversas, contou-me muitas vezes alguns episódios que não quis incluir no livro.

A aproximação ao PSD e a sua carreira como autarca e autoridade local foi um sucesso e acabou por ser eleito deputado na fase final da AD. No conjunto da sua carreira de deputado foi sempre muito temido, com um papel único nos debates mais confrontacionais, e teve em vários momentos uma acção como parlamentar que contribuiu para a decisão de abrir os arquivos da PIDE/DGS que muitos queriam que permanecessem fechados, e foi o cavaleiro incansável da reforma da Assembleia que obrigou a sessões de 24 horas, dia e noite, sem dar qualquer trégua.

Foi, no mesmo sentido em que Vasco Graça Moura escreveu no seu poema autobiográfico, um “bom cavaquista”. A sua aproximação a Cavaco Silva vinha de uma admiração pela determinação do primeiro-ministro e da consciência que a maioria absoluta dava pela primeira vez possibilidades de actuação excepcionais, contra um sistema que fora construído para que um governo de um só partido não existisse. Silva Marques compreendeu o carácter social-democrata do pensamento de Cavaco, e a sua componente anti-oligárquica, vinda de alguém que não tinha feito o “tirocínio dos vícios”, como dizia. Foi por isso um elemento fundamental na bancada “cavaquista” que conseguia fazer com muita eficácia aquilo que os outros partidos chamavam “oposição à oposição”.

Silva Marques desprezava o carreirismo e o nepotismo que estavam então a crescer no PSD. Não suportava a utilização da política como trampolim para lugares luxuosos nas empresas e recordo-me como, com quase fúria, me dizia de um dirigente partidário que tinha ido para um cargo altamente remunerado num banco, “andei eu a dar a cara por ele para ele ir para contínuo de um banco”… Teve, por esta integridade moral, um papel decisivo na crise que atingiu o grupo parlamentar quando da queda de Duarte Lima, porque foi a sua intransigência perante a mentira que ajudou a “resolver” uma situação que podia ter sido muito pior para o PSD e para a vida política em democracia do que acabou por ser. Algumas reuniões, para que cedeu a sua casa, davam um grande filme ou uma grande peça de teatro, sobre algo que ele no fundo já conhecia de há muito tempo: a fragilidade do comportamento dos homens.

Passado esse período foi-se afastando da vida política activa, por razões pessoais, mas também políticas. O PSD dos nossos dias foi-o esquecendo, porque a memória do Silva Marques e de toda a sua vida era, como fora sempre, incómoda. Já havia demasiados “contínuos” na banca, e cada vez mais aspirantes a “contínuos “no país. Mas os amigos lembravam-no cada vez mais, na razão directa desse esquecimento. O bom do Silva Marques, azorrague dos “contínuos”, faz cá muita falta.

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