Crítica Cinema

O eclipse do "Rei-Sol"

É um filme duma ambientação extraordinária, a iluminação e o décor a procurarem o mergulho plausível numa corte do século XVIII, e onde tudo conflui para o rosto do rei, o rosto de Léaud, feito "Rei-Sol-Negro".

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Tudo em Léaud, o mais pequeno movimento de pálpebras, o mais leve tremelicar do queixo, é um acontecimento
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Há duas histórias em A Morte de Luís XIV. Uma é, efectivamente, a descrita no título, a morte do "Rei-Sol", durante longos dias em que uma ferida gangrenada na perna se revela fatal. Tudo nessa história se concentra e se fecha sobre o corpo e o rosto de Jean-Pierre Léaud, que é absolutamente magistral. “Minimalista”, porque construída com recursos escassos e pouquíssimas derivas narrativas ou episódicas, essa história (o melhor seria dizer essa “exposição”) é vivida em termos humanos (um homem a compreender que a morte está a chegar) e em termos simbólicos – um monarca omnipotente confrontado finalmente com um poder maior do que o seu, para o qual nem ele, nem ninguém tem remédio, e que torna todas as suas prerrogativas e todos os seus privilégios em manifestações de uma vaidade terrena, transitória e muito fútil. É o caso da cena em que o rei, indisposto a meio da noite, pede que lhe tragam água e depois se recusa a bebê-la porque não veio servida num copo de cristal. O cerimonial do poder contra a morte sem cerimonial: não há spoiler nenhum, sabemos como acaba, o próprio título o diz (como a célebre história de Tolstoi A Morte de Ivan Ilyich, que o filme de Serra tanto lembra). O que conta é o processo interior com que um rei aceita a sua mortalidade “niveladora”, que o torna igual a todos os outros homens.

A outra história, que aborda um tema que Serra já tinha desenvolvido no seu filme anterior, A História da Minha Morte, é a do confronto do racionalismo com um poder fora do seu alcance, mas que ele ainda acredita conseguir dominar. A “razão científica”, representada pelos médicos e académicos chamados a acudir ao rei, que em diálogos que têm tanto de tocante como de comic relief (quase absurdo) expõem hipóteses e perplexidades e vivem também eles uma espécie de aprendizagem da impotência. Faz todo o sentido que nessas cenas impere a personagem do charlatão (certamente não por acaso, Vicenç Altaió, o actor que fazia de Casanova no filme anterior) e o seu discurso aceitador e “panteísta” – é o único que percebe que a única maneira de vencer a morte é aceitá-la, e integrá-la como coisa natural.

Serra filma isto duma forma absolutamente concentrada e orgânica. Se reconhecemos temas, se reconhecemos o gosto pela história, pela literatura e pelas figuras da história e da literatura, talvez ele nunca tenha conseguido dar essas figuras duma maneira tão perfeitamente coral, uníssona, sem digressões ou apartes. É um filme duma ambientação extraordinária, a iluminação e o décor a procurarem o mergulho plausível (em vez da distância) numa corte do século XVIII, e onde tudo conflui para o rosto do rei, o rosto de Léaud, feito "Rei-Sol-Negro". Tudo nele, o mais pequeno movimento de pálpebras, o mais leve tremelicar do queixo, é um acontecimento. E é todo o acontecimento deste filme em que, sem nada realmente se passar, há sempre alguma coisa para ver. Nem um só momento de tédio: é o melhor filme de Albert Serra.