Crónica

António Vieira, 1684

Mais um dia, mais um falso mail da Amazon. O mais recente provém do endereço service@amazon.co.uk. Não, não clique. São tantas as vigarices que o melhor é partir do princípio que todos os mails são suspeitos. O melhor é ir sempre ao site principal.

As falsificações impressas eram difíceis. Online é facílimo fazê-las e, por muito que protestem os sites falsificados, continua a ser quase impossível apanhar os piratas.

Pus-me à janela e olhei para as estrelas. Por elas navegavam tanto os piratas como os pirateados. Olhar para tão longe torna-nos pequeninos. Nem sequer sabemos quais são as luzes que entretanto se apagaram. Quanto mais longe estão mais teimam em luzir. Perdemo-nos no espaço e no tempo e, de repente, temos consciência de ter um lugar na terra,
onde podemos - momentaneamente, por ora - regressar.

Pego num livro de sermões do Padre António Vieira, publicado em 1684, o ano em que ele deixou de conseguir escrever à mão. A impressão, o papel, o cheiro e a ortografia (os ésses que parecem éfes) levam-me, num instante, para lá da minha vida. “He poffivel que détro dos noffos navios avemos de trazer os Piratas que nos roubão? He poffivel que
chegando os paffageiros vivos, & a falvamento, fem peleja nem naufragio, hão de fahir à praya defpidos? Embarca-te hum Indiatico em Goa rico, & chega aqui, ou a Lisboa, fem um bazaruco”.

Eis Vieira a falar dos nossos computadores e das nossas navegações pelo ciberespaço. Sente-se a distância. É pouca mas chega para nos aproximar do nosso futuro.