As vidas portuguesas de Cantabai, Surinder e Amiteshwar

Haverá cerca de 70 mil pessoas de origem indiana em Portugal. A comunidade é diversificada e “em termos gerais está integrada”.

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“Frankie” com a família na Mercearia Siddhi Miguel Manso

Cantabai Maugi segue a telenovela do canal ZTV numa pequena televisão colocada atrás do balcão. Também se inteira das notícias ou entretém-se com os filmes de Bollywood nos quatro canais em hindi que apanha, enquanto não entram clientes para comprar pregos do senhorio, colas, ou carregar o passe ou o telefone. É uma pequena drogaria em Campo de Ourique, onde parece haver de tudo, e do nada aparecem filhos, noras, netos. Descendo umas escadinhas que mal se vêem, há uma sala onde a família Maugi chegou a viver pouco tempo depois de chegar a Lisboa, e ainda é frequente as crianças ficarem lá quando não estão na escola.

Ao lado de Cantabai está o marido, Lacmane, o filho Virech, a nora Rita, a neta Riya. E é ela, com os seus 11 anos, que faz questão de começar a contar a história da família Maugi. “Os avós nasceram na Índia [em Diu] e foram para Moçambique ainda novos e tiveram cinco filhos. Quando a minha mãe tinha dois anos vieram para Portugal.” Contada assim, o relato é em tudo igual ao que poderia ser feito por milhares de famílias indianas que se estabeleceram em Portugal no final dos anos 1970 e início dos anos 80 (eles foram “dos últimos a sair de Lourenço Marques”, chegaram em 1983).

Lacmane conta que tinha 12 anos quando foi viver para Maputo. Estudou na escola comercial, depois abriu um negócio de roupa. Quando chegou a altura de casar, a noiva veio da Índia. A família começou a crescer. Até que chegou o 25 de Abril e a independência. Não foi por temer pela sua segurança que decidiram partir, foi por “já não haver médicos, comida, nada”, diz agora Cantabai. Começaram por passar uns tempos com familiares no Bairro Alto, depois num bairro de lata no Areeiro, até que apareceu a drogaria, com a cave suficientemente espaçosa para albergar todos e um bom negócio em vista — “é um artigo que sai todos os dias, não é um artigo parado”.

Ao início “custou imenso”, continua Cantabai. “Diziam que vínhamos tirar o pão deles [portugueses]. Quando abrimos a loja disseram que não ia durar seis meses. Já lá vão mais de 30 anos. Com calma fizemos a nossa vida, criei aqui os meus cinco filhos. Todos estudaram e agora todos trabalham” (“e eu tenho boas notas”, diz Riya muito baixinho).

Virech, que tinha seis anos quando chegou, conta que eram a única família hindu da zona. “Havia uma família goesa, católica, mas não tínhamos relação com eles. Apesar de sermos todos de origem indiana, não há muita proximidade, a cultura é diferente, a gastronomia é diferente. Os nossos primeiros amigos eram cabo-verdianos que viviam aqui no bairro.” Hoje, é técnico superior da Administração Pública. A mulher, Rita, de sari colorido, bindi na testa e um brinco no nariz, estudou Design de Comunicação. Diz que foi das primeiras da sua comunidade a tirar um curso superior — e que a mãe tinha medo que ela se apaixonasse por um colega da faculdade que não fosse hindu, o que para Rita estava fora de causa (“os casamentos endogâmicos servem para preservar o grupo” e manter os seus valores, que de qualquer forma se perderão daqui a uma década, prevê o casal).

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A família Maugi passou por Moçambique antes de se fixar em Portugal Miguel Manso

Criaram juntos a Associação da Juventude Hindu de Portugal, para se poder discutir, fora da religião, os problemas que afectam os jovens indianos — que são “os problemas genéricos da sociedade”. Davam explicações gratuitas. Rita agora está em casa a tomar conta dos dois filhos, de quatro e cinco anos.

Três gerações

A primeira vaga de imigração, em números reduzidos, veio de Goa, Damão e Diu pouco antes da anexação pela Índia e mais acentuadamente depois da “libertação”, em 1961. A segunda, em maior número, aconteceu com as independências das colónias africanas, sobretudo Moçambique, em 1975, e trouxe milhares de indianos vindos do Gujarat que se tinham fixado anos antes em África. Ao contrário dos primeiros, sobretudo católicos, os imigrantes da segunda vaga são principalmente hindus, e estabeleceram-se em Santo António dos Cavaleiros, nos subúrbios de Lisboa, explica Inês Lourenço, antropóloga do CRIA/ISCTE-IUL, que fez uma tese de doutoramento sobre a comunidade hindu nesta localidade.

“Este espaço, de prédios construídos no início dos anos 80, foi sendo adoptado como espaço de concentração desta comunidade mais heterogénea… Começavam a comprar habitações e passado um tempo vinha a família toda instalar-se. Eram obviamente grupos com algum capital financeiro, porque os outros foram-se estabelecendo nos bairros de barracas”, afirma. “Na grande maioria eram comerciantes, e com as segundas e terceiras gerações começam a diversificar-se mais... Em termos gerais, [a comunidade] está bem integrada.”

A antropóloga adianta que as mulheres “tiveram durante cerca de 30 anos um papel central na manutenção identitária”, tendo havido mesmo uma alteração de papéis que eram tradicionalmente masculinos, tomando, por exemplo, “o papel de sacerdotisas”. “Os homens desempenhavam papéis mais oficiais, mas as mulheres é que permitiam que se continuassem a desenvolver actividades do calendário anual gujarati.”

Apesar de “um esforço muito grande por parte da geração mais velha” em manter a “indianidade”, esta tem vindo a perder-se, como prova o encerramento da escola de gujarati no templo hindu em Santo António dos Cavaleiros, onde se ensinava língua, cultura e tradição, afirma Inês Lourenço. “Há uma grande dificuldade em chamar as gerações mais novas às tradições.” A vinda recente de um novo sacerdote poderá ajudar a restabelecer a ligação: “Neste momento, assistimos a um processo de revitalização das referências tradicionais da comunidade para fazer face à crise de valores que os mais velhos encontravam nas gerações mais novas, com traços culturais muito profundos, muito dinâmicos e presentes no dia-a-dia da maioria das pessoas.”

A partir dos anos 2000, devido a uma relativa facilidade em obter visto de residência, muitos começaram a vir directamente do Gujarat e do Punjab (no Norte), alguns com uma breve passagem por outro país europeu, sem nenhuma das referências ligadas a Portugal que trazia a geração anterior.

A maior diáspora

Os que vêm do Punjab são sobretudo sikhs e de apelido Singh. O que torna quase desnecessário perguntar a Surinder qual o seu nome completo. Tem 28 anos, olhos escuros enormes, pestanas longas e um sorriso quase infantil. Trabalha na mercearia Siddhi, no Martim Moniz. Quando chegou a Portugal, há dois anos, vinha “só ver”. Mas três meses depois já estava a trabalhar. 

A família é de Amritsar e o pai é sacerdote. Esperava que o filho lhe seguisse as pisadas. “É normal os pais quererem que os filhos sejam iguais a eles”, diz em inglês. Assim que saiu da Índia, Surinder largou o turbante que identifica a sua religião. “Levava 40 minutos a pô-lo, tinha de acordar às cinco da manhã, colocar o turbante, cozinhar o almoço…” O cabelo dava-lhe por baixo do rabo, era preciso enrolá-lo com preceito. “Desde criança que pensava como seria se cortasse o cabelo” (a ortodoxia sikh manda nunca o cortar). E assim que chegou a Portugal experimentou. Agora usa-o bem curto, todas as semanas o apara. “Na Índia eu manteria o meu cabelo, as pessoas achariam estranho se o cortasse, uma vez que o meu pai é sacerdote.” Estudou engenharia electrotécnica na Índia, mas tem poucas esperanças de a praticar agora. “Até porque tenho medo da electricidade, imenso medo.”

Com 16 milhões de indianos espalhados pelo mundo, a Índia tem a maior diáspora, indicavam os números da ONU há um ano. É um reflexo do seu peso demográfico: uma população de 1,2 mil milhões, em que a média de idades ronda os 26 anos.

Segundo um relatório que o ministério indiano dos Negócios Estrangeiros elaborou em 2001, “a comunidade indiana em Portugal é uma das mais importantes da diáspora na Europa”, com cerca de 70 mil pessoas (e, por isso, não admira que o templo hindu do Lumiar seja também um dos maiores). Referia que a maioria se dedicava ao comércio; mas que os goeses, cerca de 15 mil, têm desempenhado actividades nos serviços públicos. Se os dados desse documento ainda estiverem actuais, a maioria são hindus (33 mil), seguidos de muçulmanos (12 mil) e ismaelis (cinco mil). O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras não tem as regiões de origem dos imigrantes, mas estima-se que terão vindo do Punjab muitos dos 6935 indianos (isto é, sem a nacionalidade portuguesa) que estavam no país em 2015 — fora os ilegais, que evidentemente não estão contabilizados.

Se a mercearia Siddhi está cheia de chutneys, pickles e especiarias, a Davinder, numa rua um pouco mais acima, tem alguns produtos bem portugueses que são o orgulho do jovem punjabi Amiteshwar (de alcunha “Frankie”): “Estes enchidos vieram da Beira Baixa, cheire lá! E as nozes são de Trás-os-Montes, pode provar.”

Amiteshwar tem 24 anos e a sua ambição não é continuar o negócio do pai e da mãe. A família chegou em 2006, quando a crise ainda não afastava os imigrantes. Passaram antes pela Áustria, Dinamarca e Itália, mas foi Portugal que deu mais garantias de estabilidade — e onde as pessoas são mais amigáveis, dizem mãe e filho. Ele fez cá o secundário, num curso profissional. Prepara-se para ir este mês à sua primeira entrevista de emprego numa empresa de gestão informática. Na lista das habilitações estão as várias línguas que fala: punjabi, hindi, português e alemão. “Mas o trabalho está difícil.”

“Ainda há pão?”, pergunta um vizinho são-tomense. “Frankie” troca com ele cumprimentos de bom ano. “Correu tudo bem, não é?”, assegura-se o senhor. “Correu.” Mas a passagem de ano não é a festa mais esperada da família. Todos os anos celebram em grupo o Vaisakhi, que assinala o nascimento da própria religião, a 13 ou 14 de Abril, e que junta os fiéis no templo de Odivelas. Resta pouco tempo para conviver com pessoas da comunidade, porque a loja está de portas abertas das oito da manhã às dez da noite. “Quando cheguei achava que iria à praia todos os dias.”