Opinião

Vontade de ser mais bonito

Que necessidade é esta, numa terra de onde tantos migraram para escapar à fome? Cada fachada, o seu próprio altar, graça da aspiração humana

Foto
Anna Mariani

1. Quando em Portugal era a revolução, uma brasileira de São Paulo estava a fazer uma série de retratos no interior da Bahia. Era a primeira vez que fotografava a cores, e as fachadas das casas populares tornaram-se o seu tema. Nos vinte anos seguintes, até 1995, Anna Mariani completou 14 expedições pelo Nordeste do Brasil: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Inspirada tanto por relatos de família (o primeiro Mariani brasileiro foi um “solitário genovês” que se instalou no sertão baiano em 1760) como pela intensa leitura dos “Sertões” de Euclides da Cunha, Anna percorreu centenas de povoações para fazer milhares de imagens que tinham isto em comum: fachadas pintadas a cal pigmentada, rematadas em cima por platibanda (uma barra enfeitada, escondendo o telhado). Fotografou-as a todas de forma idêntica, bem de frente, à mesma escala, sem destaques nem comentários, só local e data. Quando estava a meio desse trabalho teve um convite para expor na Bienal de São Paulo de 1987. Saiu de lá com propostas de exposição mundo fora, começando pelo Centro Pompidou, em Paris. Já tinha mais de 50 anos e até hoje continua a dizer que não é artista.

2. Um dos visitantes dessa bienal foi o filósofo francês Jean Baudrillard. Ficou tão impressionado com aquelas imagens do Nordeste que pediu para conhecer a autora. O telefone de Anna tocou estava ela a preparar-se para ir fazer um churrasco numa casa fora de São Paulo. Disseram-lhe que Baudrillard queria vê-la, ela não fazia ideia de quem era Baudrillard, respondeu que se o tal visitante quisesse mesmo vê-la tinha de ir ter ao portão no sítio tal e tal. Quando chegou, Baudrillard já estava lá, e ficou deitado na rede, à espera de vez, enquanto o churrasco era preparado.

3. Na convulsão da Bienal de São Paulo, as casas fotografadas por Anna tinham aparecido a Baudrillard como frescos de um palácio mítico subequatorial, escreveu ele depois. “E na confusão, muitas vezes anacrónica, do que lá estava exposto a título de arte contemporânea, apenas elas brilhavam como uma obra intemporal com a grandeza de um estilo.” Cada fachada era “como uma máscara ou um rosto”, as aberturas como “orifícios”. Nem antropologia, nem análise: despojamento, resumiu nesse texto (incluído no segundo álbum de fachadas de Anna Mariani).

4. Os dois álbuns (o primeiro de 1987, o segundo de 2010, ambos com o título “Pinturas e Platibandas”) são uma sucessão espantosa de luz e forma num silêncio que parece já não existir nesta passagem de 2016 para 2017. Aqui um cavalo, ali uma bicicleta, uma janela aberta, uma árvore, um canteiro, mas nunca gente, como se todos estivessem a dormir a sesta, ou a fotógrafa recusasse expôr o que não está orientado para fora e para a luz. O sol bate nas cores, ora norte-africanas, ora orientais, nos relevos que tanto são planetas e estrelas como frutas, laçarotes ou motivos geométricos, puro art déco. Isto, em lugares com nomes como Mumbaça do Senhor dos Pobres, Olho d’Água do Casado, Xique-Xique, Felizardo, Ingá, dos mais remotos de todo o Brasil. São pequenas casas de um só piso, uma porta de tábua, uma janela ou duas, raramente três, por excepção quatro. Mas em todas a fachada é um desejo, um sonho, um mistério para quem olha: de onde vieram estas formas, estas linhas, estes padrões? Pudor e deslumbre intactos, o oposto da devassa. Cada uma é o seu próprio altar, um altar sem igreja, em toda a graça da aspiração humana.

5. “Vi pela primeira vez que, coloridas como eram em amarelo-ocre, vermelho-sangue, azul-pavão, amarelo-ouro, verde-bandeira ou verde-lodo, e até no rosa ou roxo-púrpura que, antes, por preconceitos, eu tivera tanta dificuldade em aceitar, aquelas casas em sua maioria feitas de taipa rebocada e pintada, eram também jóias em ponto grande como as que eu sonhava, jóias que em dados momentos também rebrilhavam ao sol de modo a que Deus as avistasse com alegria”, escreveu o pernambucano Ariano Suassuna sobre esta série de fotografias. O texto abre, em forma de epígrafe, o primeiro livro que Anna publicou, ao lado da única imagem aérea, mostrando a disposição das casas numa das povoações: um rectângulo formando uma praça, com um dos lados aberto. Algo entre a aldeia indígena e as praças das cidades sul-europeias.

6. “Os homens que desenvolveram esse estilo visual numa região tão pobre do Brasil nos fazem ver que há muitos níveis insondados, muitos estágios misteriosos nas relações entre as massas e o que se convencionou chamar de modernidade”, escreve Caetano Veloso na reedição acrescentada desse livro. Ele, que nasceu em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, onde a cada Fevereiro as pessoas pintam as suas casas “como quem compra um vestido novo”, reconhece estas fachadas como coisas íntimas, mesmo as que lhe são mais distantes, no sertão. Que necessidade é esta, numa terra de onde tantos migraram para escapar à fome? Uma “vontade de ser mais bonito”, diz Caetano, “aos olhos do próximo, aos olhos de Deus”.

7. Ou, mais politicamente, resistência a que a vida seja menor do que a vida. “Revolta”, disse Lina Bo Bardi, arquitecta italiana, comunista, autora de obras-primas em São Paulo como o SESC Pompeia, o Teatro Oficina, o MASP, com o seu vão de praça pública. Também ela escreveu um texto na primeira edição de “Pinturas e Platibandas”, e lá lembra que “o Brasil não é só Ocidente, é também África e Oriente”.

7. Caixilhos de alumínio e toda a espécie de invasões substituíram as portas de tábua e outros detalhes destas fachadas. Mas as pinturas continuam por toda a parte nos lugares mais remotos do Brasil, em forma de letreiros ou anúncios. Já não é cal, é tinta, já não art déco, mas sereias misturadas com Lula da Silva, porque no Brasil tudo é possível, e basta ter um pé na Bahia para velhas pinturas da planta do cacau conviveram com novas pinturas da planta do cacau: o cacau está de volta, secando nas praças onde meninos cantam ao som de berimbaus, e homens carregam sacos de 60 quilos na cabeça (que agora serão sugados pela Nestlé). E, por mais que a sucessão de fachadas de Anna Mariani se tenha tornado uma criação do passado, apesar de talvez quase nenhuma daquelas casas sobreviver, a qualquer dobrar de esquina pode ainda aparecer uma platibanda tapando o telhado de uma casa sem eira nem beira, ou seja, sem pátio nem beiral, em lugares com nomes como Belmonte.